Entrevista  
Com olhos e lábios pintados, padre Pinto fala sobre o estilo que incomoda tanto a Igreja: “Tenho mania de roupa, sou muito vaidoso. Não no sentido esnobe, mas no da beleza. Pais-de-santo vieram aqui e disseram que não é à toa: sou Oxum com Oxossi”
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Padre Pinto
‘‘Não sou homo nem não sou’’
O padre mais comentado do Brasil conta as agruras do celibato, não define sua sexualidade, critica o papa Bento XVI e defende o uso de preservativo
texto: flávia de leon, de salvador
fotos: FRED PONTES

Olhos delineados de lápis preto, um leve tom róseo na boca, pulseiras, anéis, gargalhadas e palavrões fazem de José Souza Pinto, 58 anos, um padre acima da média na Igreja Católica. Desde que virou o sacerdote mais comentado do País – ao se vestir como o orixá Oxum para cantar e dançar no Terno de Reis, a festa de largo mais tradicional da Lapinha, bairro popular de Salvador –, padre Pinto chamou para si o mau humor da Igreja, que já o destituiu da função de pároco e quer sua saída definitiva da Casa Paroquial. A seu favor, tem a comunidade da Lapinha. Em 31 anos à frente da paróquia, construiu uma creche que beneficia 520 crianças. Formado em Direito, Filosofia e Artes Plásticas, também estudou dança. Na véspera desse Carnaval, padre Pinto concentrará todas as atenções. Na esfera da Igreja, o Vaticano despachou, para Salvador, o padre Ludovico Cabultto, que definirá o futuro do sacerdote. No plano mundano, padre Pinto, que se manterá afastado do Carnaval, virou nome de bloco na folia baiana.

O senhor é padre ou é artista?
Tenho no álbum de família uma foto aos cinco anos, em que coloquei: José Pinto, artista brasileiro. Tive que esperar 53 anos dançando, pintando, cantando para chegar o momento de desabrochar o artista. Onde está o padre? Onde está o artista? Estão juntos. É comum estar no altar e ter inspirações para trabalhos artísticos. E é comum estar no ateliê e ter uma idéia paroquial. Há um casamento perfeito entre o artista e o padre.

O senhor tem uma coleção de 89 túnicas?
É isso. Tenho mania de roupa, sou muito vaidoso. Não no sentido esnobe, mas no da beleza. Pais-de-santo vieram aqui e disseram que não é à toa: sou Oxum com Oxossi.

O senhor pediu para saber qual o seu santo?
Não. Eu já sabia.

Como parte de uma instituição conservadora, esperava
esta reação?

Esperava. A Igreja é conservadora. Mas, pela frente ou por baixo dos panos, sempre tive o propósito de ir de encontro a certas situações, desejando cooperar para que a Igreja melhore sua maneira de ser. Em 1976, estava em Roma e me impuseram batina preta. Falei: batina preta não uso. Mas tinha que usar, então usava calça, camiseta e batina por cima. Aí fui me revoltando. Como a batina era forrada, tirei a camiseta. Depois, a calça. Um dia me retei (enfezei): tirei a cueca também. Usava batina preta, mas nu por baixo. Passava por aquele monte de freira. Se o vento der, deu, não fui eu (gargalhadas).

O senhor sempre foi irreverente?
Isso é de pequeno. Sempre fui muito curioso e visto como uma
criança anormal.

O que acha do casamento homossexual?
Ninguém tem que discriminar ninguém. Nem prostituta, nem ladrão, nem homossexual. É proibido proibir. Está escrito na Sagrada Escritura que Deus não quer a morte do pecador. Quer que ele se converta e viva.

E o uso da camisinha?
Quando estudei moral matrimonial, há 29 anos, a camisa-de-vênus era vista apenas como um método anticoncepcional artificial, que a Igreja não aceitava. Mas agora o problema é além do contraceptivo, porque temos problema de superpopulação. E não basta colocar as pessoas no mundo. É preciso educá-las, criá-las condignamente. E vem todo um problema de contágio, de saúde pública. Então, pelo amor de Deus, bota pra usar camisinha, camisa, camiseta, calça, calçola, calçolão.

O que mais o senhor mudaria?
O celibato. Para nós, que somos religiosos, tudo bem. Mas para os padres diocesanos já é hora de a Igreja fazer um voto de humildade. Porque a lei não é divina, é eclesial. Por que não deixar aquele que opta pelo sacerdócio experimentar a família, com seus bens e suas dores?