Olhos delineados de lápis preto, um leve
tom róseo na boca, pulseiras, anéis, gargalhadas
e palavrões fazem de José Souza Pinto,
58 anos, um padre acima da média na Igreja Católica.
Desde que virou o sacerdote mais comentado do País
– ao se vestir como o orixá Oxum para cantar
e dançar no Terno de Reis, a festa de largo mais
tradicional da Lapinha, bairro popular de Salvador –,
padre Pinto chamou para si o mau humor da Igreja, que
já o destituiu da função de pároco
e quer sua saída definitiva da Casa Paroquial.
A seu favor, tem a comunidade da Lapinha. Em 31 anos
à frente da paróquia, construiu uma creche
que beneficia 520 crianças. Formado em Direito,
Filosofia e Artes Plásticas, também estudou
dança. Na véspera desse Carnaval, padre
Pinto concentrará todas as atenções.
Na esfera da Igreja, o Vaticano despachou, para Salvador,
o padre Ludovico Cabultto, que definirá o futuro
do sacerdote. No plano mundano, padre Pinto, que se
manterá afastado do Carnaval, virou nome de bloco
na folia baiana.
O senhor é padre
ou é artista?
Tenho no álbum de família
uma foto aos cinco anos, em que coloquei: José
Pinto, artista brasileiro. Tive que esperar 53 anos
dançando, pintando, cantando para chegar o momento
de desabrochar o artista. Onde está o padre?
Onde está o artista? Estão juntos. É
comum estar no altar e ter inspirações
para trabalhos artísticos. E é comum estar
no ateliê e ter uma idéia paroquial. Há
um casamento perfeito entre o artista e o padre.
O senhor tem uma coleção
de 89 túnicas?
É isso. Tenho mania de roupa,
sou muito vaidoso. Não no sentido esnobe, mas
no da beleza. Pais-de-santo vieram aqui e disseram que
não é à toa: sou Oxum com Oxossi.
O senhor pediu para saber
qual o seu santo?
Não. Eu já sabia.
Como parte de uma instituição
conservadora, esperava
esta reação?
Esperava. A Igreja é conservadora. Mas, pela
frente ou por baixo dos panos, sempre tive o propósito
de ir de encontro a certas situações,
desejando cooperar para que a Igreja melhore sua maneira
de ser. Em 1976, estava em Roma e me impuseram batina
preta. Falei: batina preta não uso. Mas tinha
que usar, então usava calça, camiseta
e batina por cima. Aí fui me revoltando. Como
a batina era forrada, tirei a camiseta. Depois, a calça.
Um dia me retei (enfezei): tirei a cueca também.
Usava batina preta, mas nu por baixo. Passava por aquele
monte de freira. Se o vento der, deu, não fui
eu (gargalhadas).
O senhor sempre foi irreverente?
Isso é
de pequeno. Sempre fui muito curioso e visto como uma
criança anormal.
O que acha do casamento
homossexual?
Ninguém tem que discriminar
ninguém. Nem prostituta, nem ladrão, nem
homossexual. É proibido proibir. Está
escrito na Sagrada Escritura que Deus não quer
a morte do pecador. Quer que ele se converta e viva.
E o uso da camisinha?
Quando estudei moral matrimonial,
há 29 anos, a camisa-de-vênus era vista
apenas como um método anticoncepcional artificial,
que a Igreja não aceitava. Mas agora o problema
é além do contraceptivo, porque temos
problema de superpopulação. E não
basta colocar as pessoas no mundo. É preciso
educá-las, criá-las condignamente. E vem
todo um problema de contágio, de saúde
pública. Então, pelo amor de Deus, bota
pra usar camisinha, camisa, camiseta, calça,
calçola, calçolão.
O que mais o senhor mudaria?
O celibato. Para nós, que somos
religiosos, tudo bem. Mas para os padres diocesanos
já é hora de a Igreja fazer um voto de
humildade. Porque a lei não é divina,
é eclesial. Por que não deixar aquele
que opta pelo sacerdócio experimentar a família,
com seus bens e suas dores?
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