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José Oswaldo Junqueira, 89 anos
Cavaleiro do mangalarga marchador

Neto e filho de fazendeiros, ele começou a criar cavalos em 1929, ano da crise na Bolsa de Nova York, investiu na raça mangalarga e já vendeu éguas para a atriz Ana Paula Arósio criar na sua fazenda em Itu, interior de São Paulo

Cláudia Fernandes

Izan Petterle
“Um embrião de égua chega a ser vendido por R$ 16 mil”, conta Junqueira, à frente de dezenas de troféus de cavalos campeões

Ele começou seus negócios numa das fases mais difíceis da economia mundial. Mais especificamente no final dos anos 20, quando houve a quebra da bolsa de valores de Nova York – uma grave crise econômica que se espalhou por vários países. O dinheiro sumiu, assim como o emprego. Mesmo assim, ele quis comprar seus próprios cavalos. Adquiriu éguas velhas, de pouco valor, da fazenda de um primo com poucos trocados que tinha como economia. Trocava uma a uma para fechar melhores negócios, numa época remota, sem leilões televisivos ou feitos pela internet. Passou a fazer também cruzamentos com os seus marchadores, cavalo que parece simular uma marcha, de andar veloz, mas sem galopes de longas distâncias, e vendia as crias com bom lucro. Sete décadas mais tarde, José Oswaldo Junqueira, 89 anos, é o mais bem-sucedido criador de cavalos do País e o pioneiro na criação de mangalarga “made in Brazil”.

Junqueira é o responsável pelo fornecimento de cavalos para as gravações de algumas cenas de Terra Nostra. Foi ele também quem arranjou a égua Tailândia (filha de Turbante, uma das gerações do mangalarga campeão Pensamento, em 1932), para Ana Paula Arósio, a Giuliana da novela das oito de Benedito Ruy Barbosa, que desembolsou R$ 42 mil pelo animal. A atriz, criadora de mangalarga, levou ainda para sua fazenda de Itu, no interior de São Paulo, a égua Espora, filha da irmã de Turbante.

De tradicional família de fazendeiros de São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo, Junqueira seguiu os passos do avô paterno, Saint Claire de Andrade Junqueira, criador de eqüinos que tinha uma tropa de marchadores – na época, cavalos comuns em São Paulo, onde as novidades em criação levavam meses para chegar de outros países. Seu pai, João Baptista, era um apaixonado por caça de veados e pelos automóveis dos anos 20. E foi no fim dessa década que José Oswaldo Junqueira teve o primeiro contato com os mangalarga. Em uma visita a parentes em Minas Gerais, ainda com 19 anos, ficou impressionado com a beleza dos animais, que seu primo João Francisco Diniz Junqueira criava em sua fazenda. Já era casado com Luíza Loyolla, uma jovem filha de fazendeiro e com quem vive até hoje.

Nessa época, Junqueira encomendou um potro ao primo João Francisco. O cavalo puríssimo mangalarga nasceu em 1929 e se tornou campeão nacional pioneiro, em 1932, época das primeiras exposições de cavalo no País, que ficavam longe da sofisticação dos dias de hoje. Imponente e de trote perfeito, o campeão foi batizado como Pensamento. “O nome foi escolhido por João Francisco, porque ele dizia que eu não tirava o cavalo do pensamento e estava sempre escrevendo para saber a respeito”, relembra, com satisfação, o criador Junqueira, que hoje fatura até R$ 16 mil com o embrião de uma égua premiada.

Até há pouco tempo, o criador ainda montava. Agora já não tem mais força para conseguir domar os animais. Além do plantel, mantém a fazenda com 240 mil pés de café – nas épocas áureas, em que exportava quase tudo para os Estados Unidos, chegou a ter 500 mil pés e exercitava-se galopando pela lavoura nas primeiras horas da manhã. “Meu avô me ensinou que galopando pelas plantações dá para visualizar perfeitamente o estado da plantação. Quando se vai de jipe, só se notam as laterais da lavoura”, ensina Junqueira. No casarão construído por seu pai, João Baptista Junqueira, e onde ele mora até hoje, há taças de cavalos campeões espalhadas pelas três salas e no jardim. À frente da ampla varanda, existe a réplica em tamanho natural de Turbante, que viveu 28 anos e entrou para o Guiness como o cavalo que mais teve filhos no planeta: 1.678 potros. “Construí a estátua em nome da estima que tinha pelo Turbante, que foi o cavalo de que eu mais gostei até hoje”, diz Junqueira.

Hoje, na grande fazenda Santa Amélia, de 807 hectares, existem 40 éguas (25 reprodutoras, nove receptoras e seis potras), além dos dois garanhões. Seu neto, João Junqueira Fleury, é veterinário e sua especialidade é trabalhar com inseminações artificiais de eqüinos. Desde 1996, 16 garanhões de linhagem J.O. – iniciais do nome do criador –, gerados por embriões, foram campeões nacionais. “Resolvi investir como acontece nos Estados Unidos”, diz.

Montado em Maranhão, um dos campeões em 1934
Ainda jovem, época em que queria comprar seus próprios cavalos, mas a crise da quebra da bolsa de valores de Nova York não deixou
Num leilão de mangalarga, em agosto de 1980