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Memória

Renato Russo
Do inferno ao céu

Na semana em que o roqueiro faria 40 anos, amigos contam quando e com quem ele contraiu Aids e a família relata a história de Giuliano, o filho que chegou a ser noticiado como adotado

Cláudia Carneiro e André Barreto

Foto: Felipe Barra
“Ele disse que era homossexual aos 18 anos. ‘O que faço?’, pensei. Mas disse: ‘Está bem, mas só não me traga homem para dentro de casa’.’’ Maria do Carmo Manfredini

Foi inspirado em Léo que Russo criou “Eduardo e Mônica”, seu primeiro grande sucesso. “Chegamos a brigar por telefone porque ele queria parar de tomar os remédios que o mantinham vivo”, conta ela, artista plástica, 41 anos. Léo morava no Equador e fez as pazes com Russo um dia antes de sua morte. Ele lhe telefonara para ler a letra de “Uma Outra Estação”, que havia composto para a amiga – à época, ela morava perto dos vulcões citados na música. No dia seguinte, Léo voltou a ligar. Só o ouviu na gravação da secretária eletrônica. Renato Russo tinha morrido. A notícia foi dada a ela pelo ex-marido, o jornalista Geraldinho Vieira, também amigo de Russo.

Outro amigo, o empresário musical Luiz Fernando Borges, lembra que, no início de 1996, Renato fez uma despedida. Tomou um “porre homérico”, bebendo cinco dias sem parar. Logo depois, passou a tomar o coquetel anti-HIV. Borges nunca ouviu Renato dizer que tinha medo da morte, mas se irritava com os medicamentos. “Ele tinha muitas dores no estômago e enjôos”, recorda. Até hoje, ele vai ao apartamento do amigo. “O quarto dele está igualzinho. Os móveis, os quadros, está tudo lá.” Parte disso deve ser transferido para o memorial do cantor que será construído em Brasília. Borges teve autorização para fazer um documentário sobre Russo.

O FILHO Um mês antes de completar 29 anos, no Rio de Janeiro, Russo telefonou para a mãe em Brasília e fez suspense sobre uma novidade. Ela achou que era sua mudança para a Inglaterra. Russo tinha o sonho de gravar um disco lá. A surpresa veio a ser revelada na data do nascimento de seu filho, na noite de 29 de março de 1989. Da maternidade, ele ligou: “É menino, mãe!” Giuliano ganhou nome de santo, como prometera na música “Pais e Filhos”.
Quando Russo morreu, aos 36 anos, foi noticiado que o filho era adotivo. A família reafirma a história contada por ele, de que tivera uma relação fugaz com Rafaela Bueno, uma fã carioca. Os pais da moça não apoiaram a gravidez. Na primeira semana de vida, Giuliano foi para as mãos da tia de Russo, Maria do Socorro de Oliveira, que morava na Ilha do Governador, na zona norte do Rio. Rafaela morreu num acidente um ano depois. Na mesma época, o artista mudou-se da Ilha – onde morou com os avós, a tia e Giuliano – e quis criar o menino em seu novo apartamento, em Ipanema. Os pais o convenceram a dar a guarda de Giuliano. Com 11 anos, ele mora com os avós em Brasília, os quais considera seus pais.

Juvenal Pereira/AE
Aos 11 anos, na primeira-comunhão”

SEQÜESTRO Os pais de Russo não permitem que o menino seja fotografado. A proteção foi redobrada, a conselho da polícia, quatro meses após a morte de Russo. No apartamento do Bloco B da Superquadra Sul 303 do Plano Piloto, em Brasília, onde Giuliano morava desde o segundo ano de vida, Carminha recebeu uma denúncia anônima por telefone. A pessoa disse que Giuliano, então com 7 anos, seria vítima de um seqüestro. Assustada, ela correu ao Centro Educacional Maria Auxiliadora, onde o neto estudava, a um quilômetro de sua residência. O avô acionou o grupo anti-seqüestro da Polícia Militar. A polícia detectou pistas sobre um plano de seqüestro e descobriu que pessoas estranhas chegaram a acompanhar os passos de Giuliano. A família mudou de endereço.

Renato Russo adorava crianças. A família argumenta que, por isso, especulou-se que Giuliano seria filho adotivo. Na mesma época de seu nascimento, a tia de Russo levou para a casa da Ilha do Governador um bebê de nome Thaísa. “Ela era o xodó dele”, lembra sua mãe. Um dos segredos que o músico compartilhava com a mãe era o desejo de comprar uma casa e enchê-la de crianças órfãs. Meses após sua morte, a família descobriu atos generosos. Seus pais foram procurados por um jovem paraplégico desesperado com a morte do compositor. Relatou que desde que perdera o emprego, recebia ajuda financeira do roqueiro para manter seu tratamento. “Passeávamos em Nova York em 1989 quando Renato tirou do bolso um bolo de dinheiro para dar a um rapaz sentado na calçada, que segurava o cartaz: ‘Sou soropositivo’”, conta Léo. Isso aconteceu antes de saber que era soropositivo. A generosidade de Russo era unânime entre os amigos. A atriz Denise Bandeira, que foi sua namorada antes de ele definir-se pela homossexualidade, lembra que dar presente aos amigos era compromisso sério. “Antes de um aniversário, ele fazia uma pesquisa minuciosa sobre o presente mais adequado. Na dúvida, comprava vários”, conta. Para Denise, sua capacidade de ir de um extremo a outro era incrível: “Ele podia se atirar ao chão num show para 10 mil pessoas e depois, em casa, mergulhar concentrado em sonetos de Shakespeare”.

Juvenal Pereira/AE
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Formado em Jornalismo, aos quatro anos ganhou o primeiro disco, dos Beatles. “Ele se trancava no quarto, colocava som alto, e eu, no quarto ao lado, aprendi tudo de rock com ele”, lembra a única irmã, Carmem Teresa. Ela canta spiritual, blues e jazz, no grupo brasiliense Spirituals de Porco. Três anos mais nova, não escapava das rédeas dele. “Ele era totalmente reacionário e protetor, coisas de irmão mais velho”, recorda. A ausência do irmão dói. “Não há um dia que não ouço alguma coisa na rua, uma música, ou vejo um filme, que não tenha vontade de falar com ele.”

 

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