O brasileiro Geová Rodrigues encontrou no lixo a chave para
fazer sucesso na América. Nascido em
Barcelona, interior do Rio Grande do Norte,
ele foi para Nova York há 15 anos tentar
a sorte como artista plástico. Virou
estilista quando começou a revirar as
lixeiras da 7a Avenida, em Manhattan, onde se
concentram os ateliês de grifes, como
Calvin Klein e Anna Sui, em busca de retalhos.
“Ia sempre vasculhar. Encontrava seda,
crepe e chifom exclusivos das marcas, que eram
colocados em caixas enormes. Abria e selecionava
os melhores pedaços”, conta ele,
que voltava com os recortes de tecido para o
ateliê, espalhava pelo chão e começava
a montar vestidos nos manequins. Suas criações
hoje vestem estrelas, como Rachel Weisz, que
concorre ao Oscar por O Jardineiro Fiel,
de Fernando Meirelles. No final do ano passado,
a atriz apareceu no Geová Ateliê,
situado no East Village. “Ela estava linda
e levou uma bolsa e um top”, recorda-se
o estilista, que atende pessoalmente à
clientela.
Gisele Bündchen, Luana Piovani e Fernanda
Tavares também descobriram o talento
do conterrâneo, um dos ícones da
Descontruction Couture, movimento de
desmontar e remontar roupas. “Acho o trabalho
do Geová fantástico. Seus vestidos
são lindos e deixam a mulher muito sexy”,
afirma Eugênia K., modelo russa que esteve
no Brasil para a SP Fashion Week, quando posou
com uma criação do amigo. Um vestido
assinado por Geová Rodrigues custa em
média US$ 1.800.
A originalidade do trabalho com sobras de pano chamou a atenção
de Anna Levak, editora de moda da revista Happer’s
Bazzar, que publicou uma reportagem intitulada
“Artista brasileiro lança sua moda
em Nova York”. “Ela deu várias
fotos das minhas roupas. Foi aí que tudo
começou.” Aos 33 anos, Geová
já participou de oito edições
da semana de moda de Nova York. Seu diferencial
é a exclusividade das peças e
o acabamento de alta-costura. Ele hoje não
precisa revirar lixo. “Agora, quando chego,
os porteiros me mandam subir.
Muitas grifes separam os retalhos antes de jogar
fora para que eu
possa escolher.”
Longe do Brasil desde 1988, quando se mudou
para Paris, ele só voltou à terra
natal este ano. “Acabei de conseguir o
green card. Antes não podia
sair dos Estados Unidos”, explica Geová.
Na última semana de janeiro, ele foi
visitar a família no Rio Grande do Norte.
Bebeu nas raízes nordestinas, em busca
de inspiração. “Gosto da
textura das frutas do Nordeste, como sirigüela
e pitomba”, diz ele, que também
pretende criar peças inspiradas nos cipós
das cercas de galinheiro. Só não
reencontrou a mãe, que morreu em 2001.
Foi com dona Maria Genilda, mãe de treze
filhos, que ele, o quinto da fila, aprendeu
a arte de reciclar roupas velhas. “A roupa
tinha de passar de um irmão para o outro,
era o único jeito”, recorda-se
Geová, que fez da escassez
um luxo.  |