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Esporte
O criador da camisa canarinho

O desenhista e escritor gaúcho Aldyr Schlee criou em 1953, aos 18 anos, o uniforme verde e amarelo da Seleção Brasileira mas até
hoje torce para o Uruguai
texto: Rodrigo Cardoso
Nauro Jr
Schlee e os três desenhos criados para o concurso da nova camisa: “Durante muito tempo não dei bola para isso. Era uma coisa secundária, ou terciária, na minha vida”, diz
O escritor gaúcho Aldyr Schlee publicou 20 livros, seis deles de contos. Foi planejador gráfico do jornal Última Hora, repórter e redator. Em Pelotas, ajudou a fundar a faculdade de jornalismo e deu aulas por 30 anos. Mas de sua história consta uma invenção identificada em qualquer canto do mundo e que faz borbulhar de orgulho a torcida brasileira: Aldyr é o feliz criador do uniforme verde e amarelo da Seleção Brasileira de Futebol. “Durante muito tempo não dei bola para isso. Era uma coisa secundária, ou terciária, na minha vida”, minimiza ele, aos 71 anos.

Há uma explicação: Aldyr nasceu em Jaguarão (RS) a 200 m do Uruguai e 600 km de Porto Alegre. Sua formação como torcedor foi baseada no futebol platino. “Toda segunda chegavam em casa jornais de Buenos Aires e Montevidéu, com os craques, os jogos.” Ou seja: o criador da camisa canarinho torce pelo Uruguai! “Odiamos a mania dele de torcer para o Uruguai!”, diz Marlene, sua esposa.

Há dois anos, ele esteve com representantes da Nike, fabricante do uniforme da Seleção, que queriam ouvir suas considerações sobre o design da camiseta. “O pior é que ele é igual ao da Coréia, da Holanda, de Portugal. Não é possível que o futebol brasileiro não exija do seu fornecedor fidelidade maior à identidade nacional.”

Em 1953, Aldyr venceu 201 candidatos no concurso do jornal carioca Correio da Manhã para a
escolha do novo uniforme da Seleção – até ali o Brasil vestia camiseta, calção e meião brancos, com detalhes azuis no punho e na gola. Havia uma exigência: os desenhos tinham de ter as quatro cores da bandeira nacional.

Aldyr, que era desenhista e caricaturista – jornais de Pelotas publicavam gols de jogos desenhados por ele –, passou três dias debruçado numa mesa. No correr dos pincéis, lembrou-se de uma partida que assistira no Rio entre a Portuguesa carioca e Botafogo ou Fluminense – ele não se recorda. “A Portuguesa jogou de calção vermelho. Fiquei impressionado. Era um escândalo para a época!”, diz ele, que passou a ousar nas cores.

Entre rabiscos de calções verde, amarelo e azul, pensou: “O que representa a nacionalidade é o verde e amarelo”. Fez então a camiseta amarela com detalhes em verde, o calção azul e o meião branco. Nascia a Seleção Canarinho, assim apelidada por um radialista. Após o concurso, a então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), oficializou o uniforme. Como prêmio, Aldyr, aos 18 anos, ganhou o equivalente a R$ 20 mil e um estágio no Correio da Manhã.

Aldyr mora num sítio em Capão do Leão, município próximo de Pelotas. Tem três filhos, dois netos e um passatempo: futebol de botão. Possui três mesas em casa, mas aos sábados sai para jogar futebol – de botão! – com amigos. Os botões têm caricaturas de jogadores do Cruzeiro de Porto Alegre. E na Copa do Mundo? Irá torcer para o Brasil, já que o Uruguai não participará? “É, tchê! Não posso desagradar a família!”, diz Aldyr.