Um menino que tem mais de 50 sobrenomes e não
consegue decorá-los. Uma menina que inveja
a própria beleza, um homem que vive disfarçado
de tudo que não pode ser. Esses são
os personagens centrais de A Paixão de
Amâncio Amaro (Agir, 176 págs.,
R$ 39), romance de estréia do pernambucano
André Laurentino. Cada um dos personagens tem
diante de si a velha pedra no caminho. Cada um, com
sua rudeza, sua delicadeza, sua vida severina, suas
belezas, tem de descobrir quem realmente é.
O garoto é Amâncio Amaro, que não
entende por que é o alvo de um amor sufocante
da mãe e de um desprezo cortante do pai. A
garota é Culadinha, que tem os olhos trocados
e vive trancada no banheiro, esperando supostamente
as regras. O homem é José Aurino Curió,
o malandro que de tão apaixonado pelo tal pássaro
acabou herdando a alcunha.
Laurentino se esmera em sua prosa, de certa forma
pernambucana, mas sem cair em expressões regionalistas
do interior do Estado, onde se passa a trama e que
também é a terra de seus pais, para
onde viajou em busca de inspiração e
de pazes com o passado. Conseguiu muito mais. Retrata
com ternura e alegria, porém sem perder a tristeza
e a força da dureza de palavras concisas, os
temores que vivem dentro de todo homem. Tenha ele
quantos nomes tiver. Personagens à
procura de
si mesmos