Entrevista  
“Nós somos quatro irmãs em casa. Tínhamos as mesmas coisas, só que cada uma de uma cor. A minha cor era o amarelo”, conta Zezé
• • •
• • •
Zezé Polessa
‘‘Criar um personagem rouba sua vida de você’’
Sucesso no teatro com Não Sou Feliz, Mas Tenho Marido, a atriz Zezé Polessa diz que não se desliga nunca da profissão mas se reencontra com ela mesma graças a sessões de análise, massagem e ioga
texto: Mariana Kalil
fotos: LEANDRO PIMENTEL
 Deixe aqui o seu comentário

Contrária a todas as superstições, a atriz Zezé Polessa estreou na sexta-feira 13 o monólogo Não Sou Feliz, Mas Tenho Marido – espetáculo que tem todos os ingredientes para entrar para a galeria dos sucessos teatrais cariocas deste verão. Adaptação do livro de crônicas homônimo da jornalista argentina Viviana Gómez Thorpe, a montagem contabiliza seis anos de sucesso em Buenos Aires. A versão brasileira recebeu das mãos de Zezé, em parceria com o diretor Victor Garcia Peralta, um toque mais ácido e bem-humorado. Sozinha em cena, ela personifica uma escritora que, durante a entrevista de lançamento de seu livro, aproveita para desfiar todo o azedume de um casamento falido de 27 anos.

Na vida real, Zezé Polessa não padece do mesmo sofrimento. Feliz aos 52 anos, curte uma fase solteira depois de duas uniões bem-sucedidas enquanto duraram – a primeira com o ator Daniel Dantas, com quem teve João, estudante de Letras de 24 anos, e a segunda com o ator e diretor Paulo José, de quem está separada há oito anos. “Não tenho mais gostado de estar casada”, diz. “Tenho muita independência emocional.” Nada a ver com a mulher a quem magistralmente ela dá vida em cima do palco.

Como se sente no papel de uma mulher tão diferente de você?
Às vezes, ele se torna pesado. Mas é perfeito para mim. Nunca vivi um casamento de 27 anos, como a personagem. Meus casamentos duraram sete anos. Tiveram todas as características dos de 27, mas sem o ônus que o tempo provoca. Há uma passagem que eu acho
muito curiosa. Em um determinado momento do espetáculo, ela diz: “Se você me perguntasse há 10 anos, quando já não restava mais romantismo em nenhum dos meus dias, e que dirá nas minhas noites, se eu era feliz, eu teria dito que não. E continuei casada”. Não consigo imaginar isso na minha vida, sabe? Eu não suportaria um mês vivendo desta forma! E ela suporta a falta de felicidade há 10 anos! Como assim? (risos)

Marido é imprescindível na vida de uma mulher?
Não, de jeito nenhum. Mas a decisão de ter ou não ter marido é uma decisão que não se toma. É algo que acontece. É a vida que nos apresenta as surpresas e os encontros.

Dá para ser feliz sem marido?
Dá. Estou muito feliz. Estou numa fase muito boa da minha vida. Não é sempre que isso acontece. Às vezes, estou solteira e não estou feliz. Às vezes é justamente por isso – por estar solteira. Mas agora não. Agora estou ótima.

Rotina de casamento é chata?
De uns tempos para cá, desde o meu último casamento, não tenho mais gostado de estar casada. Não dependo de marido para ser feliz. Tenho muita independência emocional. Sempre tive, desde criança. Posso perfeitamente ser feliz com um amigo, com um filho, com minha mãe... Fico muito feliz com um namorado, claro. Mas desde a separação do Paulo José não me casei mais.

Casar outra vez é algo fora de cogitação para você?
Penso que pode acontecer, mas não desejo. Na verdade, nunca desejei. Casamento nunca foi um sonho para mim. Eu sou solteira. Nunca me casei oficialmente, nunca quis assinar um papel, mudar de nome.

Quando é que a separação se torna inevitável?
Quando o casamento fica com problemas demais. Senti isso com meu primeiro marido. Casei e engravidei muito rapidamente. Nessa época, eu queria muito ter um filho. Nunca sonhei com o casamento, mas com a maternidade sim. Sonhava com a experiência de engravidar, da hora do parto... Tinha essa curiosidade. Tanto que não repeti. Saciei e pronto. Só tive um filho (risos).

A maternidade atendeu às suas expectativas?
Quando o João nasceu, eu tinha 26 anos e já achava uma idade tardia para ser mãe. Ao mesmo tempo, era uma idade em que me sentia preparada para ter uma ligação verdadeira de cuidar, de promover, de criar. Com quem você pode fazer isso? Com um filho, um ser humano que está se formando, que está nascendo. A maternidade é um exercício para exercitar o altruísmo, o deixar você de lado para cuidar
do outro. Eu não era muito consciente de que viveria isso, apesar de
ter vivido.