Entrevista  
‘‘Tenho dificuldades com os movimentos finos, como abrir e fechar botão de camisa, mas minha qualidade musical aumentou. Toco muito piano’’
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Paulo José
‘‘Na hora de trabalhar, não tenho Parkinson’’
continuação
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Você desafia a doença?
Meu médico concorda comigo quando digo que o que importa é a qualidade de vida. Se você deixar de fazer tudo que gosta, você vai existir por mais 10 anos, mas não vai viver mais 10 anos. Acabará morrendo de desgosto. Eu faço permanentemente essa negociação entre o prazer e a saúde.

Quais são o prazeres que é obrigado a controlar?
O trabalho é um deles. Às vezes, eu negocio a médio prazo. Faço um trabalho agora e daqui a dois meses estou esfrangalhado. Então, paro e me interno por 15 dias para me recuperar.

Sua mulher (a figurinista Kika Lopes) não fica louca com seu comportamento quase camicase?
Fica, mas ela também trabalha muito. Meu trabalho é o meu prazer. O Parkinson me deu algumas coisas interessantes. Melhorou minha concentração e interiorização. Estou escrevendo muito melhor.

Consegue digitar no teclado do computador sem problemas?
Sem nenhum problema, o que foi uma descoberta para mim. Tenho dificuldades com os movimentos chamados finos, como abrir e fechar botão de camisa, mas minha qualidade musical aumentou com o Parkinson. Por causa da perda do movimento no lado direito, o exercício que pareceu mais adequado para mim foi a música. Toco muito piano. Assim como o trabalho, a música é uma coisa que vem de dentro,
como um mandato, um impulso. Na hora de escrever, de tocar piano, não sofro da doença. Na hora de trabalhar, não tenho Parkinson. É muito estranho...

Quando a cineasta Monique Gardemberg convidou-o para fazer
o filme Benjamim, você ficou inseguro em aceitar o papel.
Por quê?

O Parkinson deixa você sem neurotransmissores em certas atividades mecânicas. O rosto perde expressão. Você fica com cara de bobo. O ator trabalha em sintonia fina com a emoção, e o Parkinson tira essa qualidade do pequeno movimento, da microexpressão. Na época de Benjamim, eu estava estressado, com muito trabalho. Além disso, me achava velho para o papel. Mas a Monique foi irredutível. Tinha de ser eu. De tão seguro, aceitei.

Como viu o resultado?
Foi uma surpresa incrível. Fiquei muito emocionado em perceber que fui capaz de fazer um personagem com a mesma qualidade de expressão econômica, transparente e limpa dos meus outros filmes.

Você está casado pela quarta vez. Casamento é fundamental?
Já vivi sozinho algumas vezes. Mas quando está bom a dois, você quer que perdure. Se você encontrar a pessoa com a qual tem afinidade, sua vida fica muito melhor. Tenho com quem trocar as tristezas e as alegrias. É muito bom ter uma companheira. Eu e a Kika temos um olhar que se comunica.

Como lida com perdas e separações?
Não gosto, obviamente. Mas são lutos necessários. O que tenho percebido é que você acaba lembrando somente das coisas boas de quem passou pela sua vida. Tenho boas lembranças das minhas ex-mulheres. Gosto delas hoje pelo bem que me fizeram.

O que deseja para 2006?
(Pensa) Que não seja muito doloroso.