Saúde  
Camisinha mais cedo

Um presente de Natal para a luta contra o HIV no Brasil: cresce o uso de preservativo na primeira relação sexual

Pedro Chequer*
Felipe Barra
Chequer: mais de 1 bilhão de camisinhas masculinas, em 2006
A segunda versão da Pesquisa sobre Comportamento Sexual e Percepções da População Brasileira sobre HIV e aids revelou que cresceu o uso de preservativo na primeira relação sexual. O primeiro estudo, em 1998, mostrou que o uso da camisinha na primeira relação era de 47,8% na população entre 16 e 19 anos. Agora o percentual pulou para 65,8%. Na faixa etária de 20 a 24 anos, saltou de 37,7% para 55,2%. Em 1986, o número para a população geral era de 8%.

Esse aumento reflete-se na queda do número de casos de aids em adultos jovens, como revelou o Boletim Epidemiológico divulgado no início de dezembro. O documento registra os casos da doença notificados no Brasil desde 1980. Nele, percebe-se que o número de casos de aids em homens de 13 a 29 anos caiu de 5.028, em 1998, para 3.671, em 2004. Nas mulheres de 13 a 24 anos, o número passou de 1.483 (1998) para
1.455 (2004).

O estudo atual demonstra que o uso do preservativo é o método mais citado por jovens para se protegerem do HIV. Os índices são superiores a 94%, independentemente de sexo, faixa etária ou escolaridade. Os resultados são frutos de uma política pública estabelecida há muito no País, acompanhada da disponibilização de insumos de prevenção, como preservativos masculinos e femininos. Em 2006, o governo federal oferecerá mais de 1 bilhão de camisinhas masculinas.

Os resultados do estudo, financiado pelo Ministério da Saúde em parceria com a Unesco e que entrevistou 5.040 homens e mulheres de todas as regiões, com idades entre 16 e 65 anos, são promissores, mas revelam aspectos que merecem análise com vistas à adoção de políticas públicas mais agressivas e intervenções mais permanentes. Apesar da tendência de crescimento do uso do preservativo, o índice do uso dele entre as mulheres é menor do que entre os homens. E há ainda um grande número de relações desprotegidas da infecção pelo HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis para dentro da família.

A pesquisa mostra que as principais fontes de informação sobre aids e prevenção para homens e mulheres são a família, a escola e a televisão. É um dos benefícios das campanhas para promover o uso do preservativo e disseminar informações sobre a epidemia. Essas campanhas teriam maior consistência se fossem duradouras e freqüentes e houvesse intervenções regionais para contemplar aspectos culturais, de linguagem e características da epidemia segundo os diferentes cenários da aids no Brasil.

Os recursos continuam insuficientes para implementar ações de maior envergadura. O Brasil deve se orgulhar das políticas públicas para a aids, do envolvimento decisivo das organizações da sociedade civil, do papel dos meios de comunicação e dos resultados obtidos. Há, porém, ainda muito a ser feito para reduzir desigualdades regionais, superar as iniqüidades de gênero e raça, atingir adequadamente segmentos populacionais empobrecidos para, finalmente, controlar a epidemia no País.

* Pedro Chequer é médico especialista em saúde pública e dermatologia sanitária, mestre em epidemiologia e diretor do programa nacional de DST/AIDS