Entrevista  
“Ator é muito boneco na mão de uma pequena indústria. Tem uma hora que você fica querendo fazer mais, produzir, dirigir. Só me falta um pouco mais de perseverança”, diz ela
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Cláudia Ohana
‘‘Me fizeram avó’’
Em cartaz no musical Cleópatra?, em São Paulo, a atriz fala de como é ter um neto aos 42 anos, acha-se imatura nos relacionamentos e diz que hoje gosta de gente saudável
texto: Claudia Jordão
fotos: CLAUDIO GATTI

A atriz Cláudia Ohana sempre foi precoce. Filha da montadora de filmes Nazaré Ohana e do pintor Arthur José Carneiro, ela perdeu a mãe aos 15 anos em uma acidente de carro e foi morar sozinha. Um ano depois, casou-se com o diretor Ruy Guerra – na época com 49 anos –, que a consagrou nos filmes Erêndira (1983), Ópera do Malandro (1986) e Kuarup (1989), todos dirigidos por ele. Foi mãe aos 20 anos de Dandara e agora, aos 42, estréia num novo papel: o de avó de Martin, de seis meses. Símbolo sexual, a atriz que se tornou popular na tevê no papel da vampira roqueira Natasha em Vamp (1991) ainda não parece totalmente à vontade neste novo figurino. Ser avó pegou na vaidade? “É a vida, né?”, responde Cláudia, que está em cartaz em São Paulo no musical Cleópatra?.

Como se preparou para viver Cleópatra?
Estudei um pouco sobre ela, vi o filme com a Sophia Loren, embora a peça não seja para ser levada a sério porque não conta a história da Cleópatra de uma maneira usual. É um musical, é mais dançar e cantar mesmo. É uma chanchada, uma grande comédia.

Você fez carreira no cinema e tinha um projeto de dirigir sua filha no cinema. Ainda tem?
Na verdade, temos um grupo de estudos que faz um monte de curtas. Sou eu, ela e uns amigos da faculdade de cinema dela. Quero fazer o meu curta e quero a Dandara como atriz. Conta a história de dois adolescentes, é sobre um amor platônico. Devo fazer no ano que vem. Em 2006, quero tocar os meus projetos. Ator é muito boneco na mão de uma pequena indústria. Tem uma hora que você fica querendo fazer mais, produzir, dirigir. Idéia é o que não falta. O negócio é perseverança. Só me falta um pouco mais de perseverança.

Esse ano você se tornou avó...
Me fizeram avó.

Foi pega de surpresa?
Com certeza. Achava ela muito nova para ter filho. O que pesa em ser avó é só o nome porque de resto é tudo muito bom. É maravilhoso você poder curtir um bebê. Você ama igual a um filho.

Mas você teve a Dandara também bem jovem, né?
Se eu ainda sou jovem, imagina como eu era antes.

Qual é a diferença, então?
Eu já trabalhava, tinha uma carreira, morava sozinha. Tive uma vida muito precoce porque a minha mãe morreu muito nova. Fui morar sozinha aos 15. Então é natural que aos 19 eu queira ter uma família. Claro que era criança ainda, mas me achava uma mulher madura. A Dandara tem um outro tipo de vida. Ela saiu da minha casa para morar com o namorado, para ter um filho, entende? É diferente. Eu não me via tão criança, mas a sua filha você sempre vê muito criança.

E como é a avó Cláudia Ohana?
Nascimentos e mortes são coisas que marcam a vida, né? Então muda completamente. Eu me dedico. Chego de viagem e geralmente no mesmo dia vou para a casa da Dandara – apesar de não conseguir ficar um dia inteiro, é muito pesado, cansa demais. Não sei como as mulheres de 40 anos andam tendo filho. Sinceramente, é uma loucura.

Você será uma avó fora dos padrões?
Não sei, não tenho idéia. Quero ser muito companheira dele. Gosto muito da imagem de avó que faz o que o neto quer, que dá almoço de domingo, que lê livro. Vó careta, entre aspas.

Você disse uma vez que tem mais de 150 personalidades.
Tem mesmo?

Tantas assim? É a minha família que brinca. Sou a Cláudia Ohana mas na verdade o meu nome é Maria Cláudia Carneiro Silva. Quando eu era pequena, era muito tímida, fechada, medrosa. Então às vezes volto a ser aquela menina, que fica de pijama, com ursinho, comendo brigadeiro, vendo televisão e não querendo ver o mundo. E aí brincam que essa é a Maria Cláudia. E a Cláudia Ohana odeia a Maria Cláudia porque a Cláudia Ohana é poderosa, destemida, vai lá e trabalha. Às vezes me baixa um garoto, que é muito desbocado, fala mal de todo mundo. Esse é outro lado meu. Como sou muito fofinha, desabafo através desse garoto. Agora estou com um francês, que encosta em mim e fica falando francês. (Fala com sotaque francês) Fica horras falando com sotaque, é chatérrimo... E ele é meio blasé, adorra o
Brésil
. Acho que a gente quer ser ator para poder ficar brincando. No fundo é isso.