Diversão & arte - Teatro  
“Fazer teatro é um saco. Desde que acordo estou preocupado. Passo em função de relógios e regras’’, diz Marco Nanini
Nanini foi advertido de que não daria certo a parceria com Gerald Thomas: “As pessoas me diziam: ‘Você está louco?’”
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Melhores de 2005 - Perfil
Todas as cenas de Marco Nanini

O ator faz 40 anos de carreira com espetáculo de Gerald Thomas, brilha na tevê e no cinema e ainda luta para vencer a ansiedade e a timidez antes de subir no palco
texto: Dirceu Alves Jr.
fotos: murillo constantino
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Quem vê Marco Nanini entregue a personagens memoráveis no palco nem imagina os fantasmas que rondam sua cabeça. Uma incontrolável apreensão toma conta do ator antes da entrada em cena. Nanini perde toda a energia, busca o silêncio, fica jogado no chão do camarim. “Fazer teatro é um saco. Desde que acordo estou preocupado, não posso comer ou beber tudo o que tenho vontade, fico apreensivo. Passo em função de relógios e regras”, diz ele, 57 anos de idade e 40 de carreira, ao som de gargalhadas e aplausos em Um Circo de Rins e Fígados, escrito e dirigido por Gerald Thomas.

A declaração ganha ares de contradição na boca de um dos mais ativos nomes dos nossos palcos. “Com essa peça, estou lidando melhor com essa apreensão. Deve ser porque entro em cena e fico um tempo parado, observando a platéia que vou enfrentar. A adrenalina não demora a chegar. Fecha a cortina e estou pronto para jogar uma partida de futebol”, conta o ator. Deixando de lado o gênero, o entusiasmo salta dos olhos de Nanini. Um Circo de Rins e Fígados é uma surpresa, não apenas pelo polêmico dramaturgo ter criado pela primeira vez uma história linear, mas por ser uma reverência a Nanini. “Foi a primeira vez que tive coragem de ligar para alguém e convidá-lo para trabalhar comigo. Eu me enchi de euforia e terminei o texto em dez dias”, diz o diretor. Administrar as agendas e os gênios eram questões que poderiam inviabilizar o projeto. “Sou um ator que revira o texto em busca de novas intenções. As pessoas me diziam: ‘Você está louco? Não vai dar certo trabalhar com ele’. Todos se enganaram. Vivemos uma lua-de-mel”, afirma Nanini, que estenderá a parceria para o cinema com um roteiro a ser dirigido pelo próprio Gerald.

Parcerias são a tônica da vida deste ator. Com Ney Latorraca, dividiu o palco por 11 anos em O Mistério de Irma Vap, que, transformado em filme por Carla Camurati, companheira constante, estréia em maio. A comunhão com Marieta Severo é, desde 2001, um dos pilares do seriado A Grande Família, que chegará à telona em 2006. “Um bom ambiente de trabalho é tudo o que procuro. Não abro mão da troca que estabeleci com alguns colegas”, afirma ele, que viverá Odorico Paraguaçu, o personagem de Paulo Gracindo na tevê, no longa O Bem-Amado.

A lista de projetos chega a confundir o ator recifense que perambulou na infância por Manaus e São Paulo até se estabelecer no Rio. “Meu pai trabalhava em hotéis e eu já vivia em uma espécie de teatro. Os hóspedes eram como personagens, ficava imaginando as vidas deles”, conta Nanini. A vocação se descortinou em uma igreja. Obrigado a acompanhar sua mãe nas missas, ele se ofereceu, há 40 anos, para fazer uma leitura no púlpito e se encantou diante do público. Aquele seria o marco inicial de sua carreira. Nesta virada de ano, Nanini só quer férias. Alguns dias sozinho em Alagoas e Fernando de Noronha. E o assédio dos fãs? “A minha privacidade, ninguém invade. Esse problema é para galãs. Já passei dessa fase, ou melhor, nem tive”, diz ele, soltando uma gargalhada tão saborosa quanto as que proporciona ao público.