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Disposta a ficar mais próxima de seu eixo profissional, Gal procura casa em São Paulo: “Não posso mais abrir mão do meu colchão”
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Melhores de 2005 - Perfil
O renascimento de Gal Costa

Aos 60 anos, a cantora lança o álbum Hoje, em que grava compositores da novíssima geração, faz seu melhor trabalho em mais de uma década e será tema de uma série de DVDs
texto: Dirceu Alves Jr.
fotos: piti reali
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Em um final de tarde do outono paulista, Gal Costa estava na gravadora Trama, em São Paulo, para registrar “Luto”, melancólica composição de Caetano Veloso. Ao lado do produtor César Camargo Mariano, a cantora repassou a letra daquela que seria uma das faixas incluídas no CD Hoje, aqueceu a garganta e, depois de pedir bênção aos orixás, entrou no estúdio. Autorizada a soltar a voz, Gal travou, não passava da primeira estrofe. Emocionada com os versos confessionais escritos especialmente para ela, buscava em vão segurar o choro e, depois de três tentativas, jogou a toalha. “Ela disse que não conseguiria cantar chorando.
Parou 40 minutos, tomou um café e voltou. Gravou a música direto”, lembra Mariano.

A entrega de Gal à concepção de Hoje durou mais de seis meses e se fazia necessária. Em nome do projeto, a baiana passou longe das festas carnavalescas de Salvador. Ficou os quatro dias trancada em sua casa, no bairro do Rio Vermelho, com 200 fitas para escolher o repertório do seu primeiro CD totalmente inédito desde 1993, e conheceu a frustração. “Gostei de poucas coisas. Fiquei preocupada e pedi ajuda ao compositor Carlos Rennó”, diz ela. Como “mentor intelectual” de Hoje, Rennó reconhece que assumiu papel semelhante ao do falecido poeta Waly Salomão em momentos transformadores da carreira da artista. “Gal estava muito angustiada. Ela queria fazer um CD diferenciado, mas não tinha segurança de que havia um bom material de gente desconhecida. E eu apresentei a ela esses compositores, mostrei que o CD era possível”, afirma Rennó.

Mesmo negando que sua criatividade estivesse adormecida na última década, quando praticamente se limitou a dar voz a clássicos, algumas vezes com sabor frugal, a eterna musa tropicalista ansiava pela virada. “Faz parte de mim romper com o esperado. E nada melhor que provar isso aos 60 anos”, diz ela, que garante ter recebido a nova idade, em 26 de setembro passado, sem sobressaltos. “Penso que devo ter, no máximo, uns 47 anos. Eu me sinto nova, principalmente de cabeça, ando mais tranqüila. Só queria estar um pouco mais magra, com uns 7 quilos
a menos.”

A inquietação atinge a vida pessoal. Gal procura casa em São Paulo para ficar mais perto do circuito profissional. “Não posso ir e voltar de Salvador toda hora e passar dois meses sem dormir na minha cama. Não posso mais abrir mão do meu colchão, de sentir a delícia que é o meu travesseiro. Mas estou procurando com calma. Odeio que me cobrem”, diz ela, que também sofre com a saudade dos três cachorros, os rottweilers Aruã, Porã e Cunhã. “Eram seis, mas perdi três neste ano. Um por erro médico. Outros dois acidentalmente. Ainda estou abalada”, afirma ela, com o olhar triste.

Se a ousadia de gravar um CD apenas com autores da novíssima geração, com exceção de duas faixas – “Luto”, de Caetano, e “Embebedado”, de Chico Buarque e Zé Miguel Wisnik –, foi o presente de Gal aos fãs, a festa dos 60 anos será comemorada com o show que estréia em São Paulo no final de janeiro. “A Gal me pediu a adaptação de uma música do congolês Lokua Kanza e verti para o português com referências a ‘Sem Você’, do Tom. Ela quer mexer com as pessoas no show, quer fazer o público chorar”, revela Rennó. Sua carreira ainda será tema de uma série de DVDs produzida pela DirecTV em formato semelhante àquela que homenageou Chico Buarque, e um CD em que interpreta Chet Baker já começa a ser discutido na Trama. Despida do luto criativo, Gal investe em seu potencial e prova que ainda hoje conserva a alma transgressora que parecia lembrança dos saudosistas.