| A literatura de Marçal Aquino jamais foi
apresentada aos computadores. Para criar Eu Receberia
as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios,
o escritor de 47 anos abraçou a falta de método
como se ainda fosse o menino nascido em Amparo, no
interior paulista, que saía do escuro do cinema
e tentava reproduzir nas brochuras escolares o que
via na tela. As frases curtas e secas da história
de amor desajeitada, como Marçal define o mais
recente romance, privilegiam o instinto. Foram rabiscadas
a mão em oito cadernos universitários,
em um ímpeto tão apaixonado quanto o
relacionamento dos protagonistas, e só digitadas
depois de concluídas. “Literatura é
a minha cachaça pessoal, faz meu tempo ficar
diferente. O texto a mão me obriga a refrear
a imaginação, obedecer à coerência
do pensamento”, diz ele, que em 2005 completou
20 anos da publicação da primeira obra,
Por Bares Nunca Dantes Naufragados.
Um dos autores mais significativos revelados nos
anos 80 não vive de seus 13 livros. “Escrevo
para me agradar, sem compromisso com nada, muito menos
financeiro”, afirma ele. Marçal paga
as contas e sustenta sua filha, Alice, 13, com trabalhos
autônomos na imprensa. Esse sujeito sabe o que
é dar duro. Filho de um administrador de fazenda
de café e de uma dona de casa, cresceu entre
nove irmãos sem colher de chá. Quando
falou ao pai que seria escritor, ouviu no ato: “Isso
não é profissão, menino!”.
Encontrou saída na faculdade de comunicação,
ganhando o pão como escrivão de cartório
e funcionário público. Desde 1991, deixou
de bater ponto nas redações para se
entregar à sua cachaça, a literatura,
e nunca viu desvantagem nisso. “Poderia estar
em uma fazenda semi-alfabetizado e fui além.
Jamais pensei em ver um ator na tela falando o que
escrevi”, afirma ele, orgulhoso.
O cinema entrou na carreira de Marçal pela
literatura para projetá-lo. E quem arrombou
a porta foi Beto Brant. Em 1991, o cineasta leu uma
resenha do livro As Fomes de Setembro na
imprensa. Interessado, Brant colocou o recorte de
jornal no bolso e, depois de muitos dias, comprou
um exemplar. Decidido a filmar a história,
procurou, meio sem jeito, o autor. “Vi que o
cara tinha uma visão tão dura na literatura
que fiquei com medo de ser mal recebido”, lembra
Brant, que se surpreendeu. “Encontrei no Marçal
um amigo e uma visão de mundo que me abriu
possibilidades artísticas e de vida.”
As Fomes de Setembro não virou celulóide,
mas a parceria com Brant rendeu, pelo menos, três
dos melhores longas nacionais da última década,
Os Matadores, Ação entre
Amigos e O Invasor, adaptados de originais
de Marçal e roteirizados, desta vez em um computador,
pelo próprio. Marçal também é
hábil construtor de personagens na vida. “Se
vejo uma mulher, é possível que o que
mais me chame a atenção nela seja o
esmalte descascado da unha do pé. Ouço
conversas e penso em histórias para cada uma
das pessoas”, revela ele, que não se
limita a criar a partir de anônimos. Beto Brant
diz que ir a um estádio de futebol com o amigo
é uma experiência que ultrapassa os limites
do gramado. “Ele conhece a vida de cada jogador
e conta coisas que não sei como sabe. Nem sei
se são verdadeiras as histórias, mas
ele fala de um jeito tão verossímil
que acredito”, afirma o cineasta. Nesse universo
criativo, o isolamento se fez necessário. Há
oito anos, Marçal e sua mulher, a jornalista
Marília, vivem em casas separadas. “Gosto
de escrever sem barulho e acabava atrapalhando minha
mulher e minha filha. Quando fiz Cabeça
a Prêmio, entrei em casa e só saí
54 dias depois com o livro na mão. Esse mergulho
só é possível sem envolver a
família.”
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