Diversão & arte - Cinema  
Quando Dois Filhos de Francisco chegou à Conspiração Filmes, Breno se achou o menos indicado para o projeto por não se identificar com a dupla e com o interior do País
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Dáblio Moreira e Marcos Henrique, como Zezé Di Camargo e Emival, em cena do filme
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Melhores de 2005 - Perfil
O sonho realizado de Breno Silveira

O cineasta levou 5 milhões de espectadores aos cinemas com Dois Filhos de Francisco, diz que brigou com a insegurança até ver o resultado e, agora, aposta no Oscar
texto: Dirceu Alves Jr.
fotos: Claudio gatti
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“Ele me ligava, e eu nunca retornava. A humildade do Breno sempre me deixou tranqüilo”, diz Zezé
Di Camargo
O primeiro encontro entre Breno Silveira e a dupla Zezé Di Camargo & Luciano se deu em 1993 e passou batido para o cineasta. Em um estúdio do Rio, os cantores gravaram um clipe da música “Quem Sou Eu sem Ela”, dirigido por Breno e Andrucha Waddington. O contato não foi além do profissional, e ninguém esperava o contrário. “Eram dois meninos muito simpáticos e talentosos, mas mal nos falamos. Faz pouco que lembrei o Breno de que já tínhamos trabalhado juntos”, conta Zezé.

Para o futuro diretor de Dois Filhos de Francisco, aquele clipe, um dos tantos produzidos pela Conspiração Filmes, perdeu-se na memória. Este carioca de 41 anos jamais havia pensado em ter um CD de Zezé Di Camargo & Luciano na sua discoteca dominada por Chico, Caetano, Paralamas e Rolling Stones. E fazia cara feia quando ouvia falar dos sertanejos que movimentavam as paradas. Pouco mais de uma década depois, Breno Silveira bate na boca. Foram justamente Zezé Di Camargo & Luciano que promoveram a radical guinada na vida deste sujeito que começou 2005 como o maluco que tinha se submetido a filmar a história da popular dupla sertaneja e termina o ano vertido em salvador do cinema nacional. Seu longa-metragem de estréia, Dois Filhos de Francisco, levou mais de 5 milhões de espectadores às salas, um número que não se registrava havia 25 anos, e pode trazer para o Brasil o primeiro Oscar de filme estrangeiro.

Não foram poucas as brigas que Breno comprou para realizar a cinebiografia de Zezé & Luciano. A maioria delas tinha a ele próprio como adversário. Quando a idéia chegou à Conspiração, ele se achou o menos indicado para o projeto. A falta de identificação com a dupla e a pouca intimidade com o interior do País eram motivos para tirar o corpo fora. “A vida de qualquer um dá um filme”, disse Breno, antes de ouvir a trajetória dos cantores, que conheceram o sucesso a partir do desmedido esforço do pai para transformar os rebentos em artistas. Bastou tomar conhecimento da sinopse para Breno ficar com os olhos marejados e, munido de um sonho tão forte quanto o de Francisco, pensar que era
hora de superar o persistente medo que o impedia de estrear na
direção cinematográfica.

E esse não foi um processo simples. Reconhecido diretor de fotografia, Breno sempre palpitou no filme dos outros, mas se considerava inapto para assumir um longa individual. “Uma tremenda insegurança me acompanhou o tempo todo”, afirma ele, que nem curtas-metragens havia feito. Pouco depois de aceitar dirigir Dois Filhos de Francisco, Breno comprou dezenas de CDs sertanejos e seguiu de carro para Pirenópolis (GO), o berço dos artistas, deixando no Rio a mulher, a arquiteta Renata, e as filhas, Olívia, 11, e Valentina, 9. “Na estrada, eu pensava o tempo inteiro que estava fazendo a besteira da minha vida, mas decidi não morrer na praia”, lembra ele.

No set, o cineasta não acompanhava o otimismo de todos. Paloma Duarte terminou suas cenas e, ao ver o diretor abatido, disparou: “Vamos fazer mais de um milhão de espectadores! Aposta um champanhe?”. Breno olhou para a intérprete de Zilu e não quis conversa: “Não enche o saco, Paloma!”. A atriz recebeu a primeira Veuve Clicquot na segunda semana de setembro e quatro outras garrafas já chegaram ao seu endereço. Com o fim das filmagens, veio um conturbado processo de edição. O cineasta montou uma ilha em seu apartamento no Jardim Botânico para melhor controlar o trabalho. “Estava com medo de que um fracasso arranhasse a Conspiração”, confessa ele. Tal como o obstinado Francisco, Breno não poupou a família. “Fiquei tomado de uma forma que deixei minha mulher e minhas filhas em segundo plano. Todo mundo sofreu muito pelo meu sonho”, reconhece ele. “Mal dormia e já acordava com uma idéia. Tive uma hérnia, problemas de fígado. A Renata foi um pouco Helena”, completa o diretor, referindo-se à compreensiva mãe da dupla, interpretada por Dira Paes nas telas.

No processo, Breno procurou Zezé várias vezes e obteve poucas respostas. “Ele me ligava muito e ficava preocupado porque eu nunca retornava, me achava desinteressado. A humildade do Breno sempre me deixou tranqüilo”, diz Zezé. Com o filme na lata e algumas sessões para críticos e amigos, a situação foi mudando. “Comecei a chorar e não conseguia levantar da cadeira quando a luz do cinema se acendeu”, lembra Luciano. O primeiro final de semana abaixo das expectativas caiu como um tijolo na cabeça do cineasta, que, para contornar a decepção, locou um van e levou mais de 20 colegas das filhas para uma sessão. Breno tomava chope na frente dos cinemas para acompanhar o movimento, enquanto um motorista rondava as salas da periferia carioca. Hoje, com os 5 milhões de espectadores na mão, Breno olha para trás e se emociona. “Pensei que passaria o resto da vida como fotógrafo e, aos 41 anos, eu me orgulho de dizer que descobri uma nova profissão. Agora, sou um diretor de cinema”, diz ele.

A próxima meta é emocionar Hollywood. Desde o começo de dezembro, Breno acampou em Los Angeles, de olho nas projeções para o membros da Academia. “Ainda é muito cedo, mas fiquei feliz em ver alguns americanos chorando no final da sessão. É uma história de vencedores, bem ao gosto das pessoas que votam para o Oscar”, afirma ele. O lançamento do DVD, com a tiragem antecipada de 500 mil cópias, deve diminuir a freqüência nas salas. Um novo fôlego só seria garantido com a indicação ao Oscar, que será conhecida em 31 de janeiro. “O que vier agora é lucro, mas eu ficaria bem feliz em ver aquela gente do Oscar cantando ‘É o Amor’.” .