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Até
três anos atrás, Letícia era uma modelo
desconhecida apesar dos cinco anos de
carreira. Ela só estourou no mundo da
moda após repaginar o visual |
Três anos atrás, Letícia Birkheuer
teve uma crise de choro em seu apartamento em
Nova York. Havia deixado São Paulo com
o objetivo de todas as modelos: estourar na meca
da moda nos Estados Unidos. O pranto ininterrupto
era resultado do fracasso. Contabilizava cinco
anos de carreira, dos quais três fora do
Brasil, e permanecia um rosto desconhecido. Não
era escalada para vestir as coleções
dos grandes costureiros e não seduzia editores
dispostos a estampá-la nas páginas
das principais publicações. Ponderou
que era hora de voltar para casa. Foi quando o
telefone tocou. Era a agente portuguesa da top
model inglesa Kate Moss, conhecida no meio fashion
apenas como Filipa. “Você não
me conhece”, apresentou-se ela. “Acho
você linda, mas vem sendo mal trabalhada.
Venha para Paris. Precisamos conversar.”
Letícia não quis conversa. A decisão
de abandonar a carreira estava tomada. A agente
foi ainda mais incisiva. “Me dê uma
última chance”, insistiu. “Fique
um mês em Paris. Se nada acontecer, você
volta para casa. Mas confie em mim. Farei de você
uma top model. Sei que você pode.”
Letícia deu a Filipa – e a ela própria – a última
chance. Voou para Paris. “Você tem
que cortar o cabelo curto e repicado”,
aconselhou Filipa. Letícia cortou. “Tem
que pintá-lo de preto.” Letícia
pintou. “E tem de usar jeans, tênis
e camiseta no dia-a-dia.” Letícia
mudou o estilo e submeteu-se a uma nova sessão
de fotos. Valentino espiou apenas três
polaróides antes de convocá-la
para o desfile da maison italiana. Em menos
de um mês, a varinha de condão
de Filipa surtiu efeito e Letícia deslanchou.
Vestiu coleções de renomados estilistas
da Europa e EUA, fez campanhas publicitárias
de Kenzo e Chanel, assinou contratos milionários
com a linha de cosméticos de Helena Rubinstein
e com os perfumes Armani Mania, de Giorgio Armani,
e Pure Poison, de Christian Dior, estampou páginas
da W e Vogue América
– duas bíblias da moda mundial
– e foi capa da Pop, privilégio
concedido às maiores modelos do planeta.
Em 2005, entrou para o ranking das 20 maiores
tops do mundo e das dez mais bem pagas do Brasil
com faturamento anual próximo aos US$
5 milhões.
De Giorgio Armani ouviu: “É a
modelo mais bela do planeta”. Respondeu
com aportes financeiros. Associado à
imagem da brasileira, o perfume Armani Mania
alcançou o primeiro lugar em vendas em
todo o mundo no ano passado. O contrato foi
renovado – exemplo seguido pela casa Dior.
“Ela foi escolhida pela forte expressão
dos olhos, pelo rosto e pela atitude. É
uma legítima mulher Pure Poison”,
justifica Katarina Queiroz, gerente de marketing
da Dior no Brasil. Com a carreira estabelecida
no Exterior, Letícia voltou os faiscantes
olhos verdes para o Brasil. Procurou Mônica
Monteiro, a agente de Gisele Bündchen,
para ajudá-la a conquistar credibilidade
semelhante. O reconhecimento internacional serviu
como o melhor cartão de visita. A modelo
de 1,81 metro de altura e 57 quilos tornou-se
preferida dos designers nacionais. Empresas
de jóias e calçados têm
travado batalhas milionárias para tê-la
como garota-propaganda em 2006. Letícia
acalenta um desejo ainda silencioso: licenciar
sua própria marca de cosméticos.
“É um sonho que quero e vou realizar”,
afirma.
Conta com o faro de Mônica para os negócios.
“Eu confio na Letícia”, atesta
a empresária. “É uma mulher
inteligente e atuante na administração
de sua carreira.” O mais recente plano
de ataque lançou-a ao universo da teledramaturgia.
Em Belíssima, a novela das oito
da Globo, ela dá vida a Érica
Assumpção, a filha de Glória
Pires e bisneta de Fernanda Montenegro. O début
no horário nobre da emissora de maior
audiência do Brasil, ao lado de duas das
maiores atrizes do País, condiz com sua
magnitude. Letícia foi escolhida a dedo
pela direção da Globo. “Ela
preencheu todos os requisitos e fez um excelente
teste dramático”, aprova o autor
de Belíssima, Silvio de Abreu.
O convite pegou a bela de surpresa. A vida de
top model corria feliz em Nova York, mas a idéia
de viver no Rio de Janeiro, falar sua língua
e mergulhar em um universo totalmente novo mostrou-se
irresistível. Enxerga a vinda como um
caminho sem retorno – em duplo sentido.
“Sempre desejei voltar a morar no Brasil
e acredito que a carreira de atriz é
uma nova etapa da minha vida profissional. É
a minha nova carreira”, sublinha.
Primogênita de uma dona de casa e de
um funcionário aposentado do Banco do
Brasil, Letícia Birkheuer é mais
uma protagonista da recorrente história
da menina magra e alta que nunca pensou em ser
modelo. O sonho de criança da gaúcha
de Passo Fundo desfilava fora das passarelas
do mundo e dentro das quadras de vôlei
de Porto Alegre. Ela não admirava Claudia
Schiffer ou Cindy Crawford, mas Ana Moser, a
musa do esporte nos anos 80. Imitava suas cortadas
com tamanha precisão que o talento escalou-a
para a seleção estadual. Letícia
superava as ironias infantis sobre seu biótipo
com um desempenho que impulsionava a auto-estima.
“O esporte me fez amar ser alta e magra
e criou em mim um espírito saudável
de competição”, lembra.
Descoberta aos 16 anos por um olheiro de plantão,
mudou-se para São Paulo e fez sua estréia
na carreira que lhe abriria as portas de um
mundo glamouroso. Para fazer parte dele, precisou
emagrecer 10 quilos e se despir de toda a musculatura
de atleta.
Trocou a bicicleta ergométrica por
caminhadas na esteira. “Fiquei sem comer
e corria todos os dias para meu corpo enxugar.”
Desde então, não passa privações
– incluindo o chope com as amigas e o
brigadeiro de sobremesa. É cozinheira
de pratos elaborados. Seu menu de sugestões
oferece risoto com legumes, estrogonofe de carne
e filé ao molho mostarda com creme de
espinafre. Ainda busca o homem de paladar refinado
com quem dividirá a mesa e o resto da
vida. Quando encontrá-lo, o amará
incondicionalmente – esteja ele onde estiver.
“A distância serve como desculpa
e não empecilho para fim de relacionamento”,
observa. “Você não vai atrás
do seu trabalho?”, pergunta. “Então?!
Se você tem um amor, você vai atrás
do seu amor também.” São
as sábias palavras de uma especialista
em perseguir e alcançar os próprios
ideais. 
Estilo e produção:
Ana Hora; Assistente: Giulia Hora Roly; Make
up e cabelo: Ronald Pimentel; Agradecimentos:
Tessuti, Avisrara, Francesca Romana, Constança
Bastos, Cais do Porto (Pier Mauá) Assistente
de fotografia: João Luis Soares |