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Letícia Birkheuer

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Ela assinou contratos milionários com a linha de cosméticos de Helena Rubinstein e com os perfumes Armani Mania, de Giorgio Armani, e Pure Poison, de Christian Dior
“Ela preencheu todos os requisitos e fez um excelente teste dramático” Silvio de Abreu, autor de Belíssima
A modelo gaúcha Letícia Birkheuer, 26, é modelo há 8 anos. Ex-atleta, precisou emagrecer 10 quilos para se adequar aos padrões exigidos pelo mercado da moda. É uma das 20 maiores top models do mundo e figura no ranking das 10 mais bem pagas do Brasil com faturamento anual próximo a US$ 5 milhões
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Capa - Personalidade do Ano 2005
Letícia Birkheuer

Para Giorgio Armani, ela é a modelo mais linda do mundo. Aos 26 anos, Letícia conquista espaço entre as 20 maiores top models do planeta, assina contratos milionários com a indústria de cosméticos e estréia como atriz em horário nobre na Globo
texto: Mariana Kalil
fotos: alexandre sant’ana
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 Ensaio: a chique e belíssima Letícia
Até três anos atrás, Letícia era uma modelo desconhecida apesar dos cinco anos de carreira. Ela só estourou no mundo da moda após repaginar o visual
Três anos atrás, Letícia Birkheuer teve uma crise de choro em seu apartamento em Nova York. Havia deixado São Paulo com o objetivo de todas as modelos: estourar na meca da moda nos Estados Unidos. O pranto ininterrupto era resultado do fracasso. Contabilizava cinco anos de carreira, dos quais três fora do Brasil, e permanecia um rosto desconhecido. Não era escalada para vestir as coleções dos grandes costureiros e não seduzia editores dispostos a estampá-la nas páginas das principais publicações. Ponderou que era hora de voltar para casa. Foi quando o telefone tocou. Era a agente portuguesa da top model inglesa Kate Moss, conhecida no meio fashion apenas como Filipa. “Você não me conhece”, apresentou-se ela. “Acho você linda, mas vem sendo mal trabalhada. Venha para Paris. Precisamos conversar.” Letícia não quis conversa. A decisão de abandonar a carreira estava tomada. A agente foi ainda mais incisiva. “Me dê uma última chance”, insistiu. “Fique um mês em Paris. Se nada acontecer, você volta para casa. Mas confie em mim. Farei de você uma top model. Sei que você pode.”

Letícia deu a Filipa – e a ela própria – a última chance. Voou para Paris. “Você tem que cortar o cabelo curto e repicado”, aconselhou Filipa. Letícia cortou. “Tem que pintá-lo de preto.” Letícia pintou. “E tem de usar jeans, tênis e camiseta no dia-a-dia.” Letícia mudou o estilo e submeteu-se a uma nova sessão de fotos. Valentino espiou apenas três polaróides antes de convocá-la para o desfile da maison italiana. Em menos de um mês, a varinha de condão de Filipa surtiu efeito e Letícia deslanchou. Vestiu coleções de renomados estilistas da Europa e EUA, fez campanhas publicitárias de Kenzo e Chanel, assinou contratos milionários com a linha de cosméticos de Helena Rubinstein e com os perfumes Armani Mania, de Giorgio Armani, e Pure Poison, de Christian Dior, estampou páginas da W e Vogue América – duas bíblias da moda mundial – e foi capa da Pop, privilégio concedido às maiores modelos do planeta. Em 2005, entrou para o ranking das 20 maiores tops do mundo e das dez mais bem pagas do Brasil com faturamento anual próximo aos US$ 5 milhões.

De Giorgio Armani ouviu: “É a modelo mais bela do planeta”. Respondeu com aportes financeiros. Associado à imagem da brasileira, o perfume Armani Mania alcançou o primeiro lugar em vendas em todo o mundo no ano passado. O contrato foi renovado – exemplo seguido pela casa Dior. “Ela foi escolhida pela forte expressão dos olhos, pelo rosto e pela atitude. É uma legítima mulher Pure Poison”, justifica Katarina Queiroz, gerente de marketing da Dior no Brasil. Com a carreira estabelecida no Exterior, Letícia voltou os faiscantes olhos verdes para o Brasil. Procurou Mônica Monteiro, a agente de Gisele Bündchen, para ajudá-la a conquistar credibilidade semelhante. O reconhecimento internacional serviu como o melhor cartão de visita. A modelo de 1,81 metro de altura e 57 quilos tornou-se preferida dos designers nacionais. Empresas de jóias e calçados têm travado batalhas milionárias para tê-la como garota-propaganda em 2006. Letícia acalenta um desejo ainda silencioso: licenciar
sua própria marca de cosméticos. “É um sonho que quero e vou realizar”, afirma.

Conta com o faro de Mônica para os negócios. “Eu confio na Letícia”, atesta a empresária. “É uma mulher inteligente e atuante na administração de sua carreira.” O mais recente plano de ataque lançou-a ao universo da teledramaturgia. Em Belíssima, a novela das oito da Globo, ela dá vida a Érica Assumpção, a filha de Glória Pires e bisneta de Fernanda Montenegro. O début no horário nobre da emissora de maior audiência do Brasil, ao lado de duas das maiores atrizes do País, condiz com sua magnitude. Letícia foi escolhida a dedo pela direção da Globo. “Ela preencheu todos os requisitos e fez um excelente teste dramático”, aprova o autor de Belíssima, Silvio de Abreu. O convite pegou a bela de surpresa. A vida de top model corria feliz em Nova York, mas a idéia de viver no Rio de Janeiro, falar sua língua e mergulhar em um universo totalmente novo mostrou-se irresistível. Enxerga a vinda como um caminho sem retorno – em duplo sentido. “Sempre desejei voltar a morar no Brasil e acredito que a carreira de atriz é uma nova etapa da minha vida profissional. É a minha nova carreira”, sublinha.

Primogênita de uma dona de casa e de um funcionário aposentado do Banco do Brasil, Letícia Birkheuer é mais uma protagonista da recorrente história da menina magra e alta que nunca pensou em ser modelo. O sonho de criança da gaúcha de Passo Fundo desfilava fora das passarelas do mundo e dentro das quadras de vôlei de Porto Alegre. Ela não admirava Claudia Schiffer ou Cindy Crawford, mas Ana Moser, a musa do esporte nos anos 80. Imitava suas cortadas com tamanha precisão que o talento escalou-a para a seleção estadual. Letícia superava as ironias infantis sobre seu biótipo com um desempenho que impulsionava a auto-estima. “O esporte me fez amar ser alta e magra e criou em mim um espírito saudável de competição”, lembra. Descoberta aos 16 anos por um olheiro de plantão, mudou-se para São Paulo e fez sua estréia na carreira que lhe abriria as portas de um mundo glamouroso. Para fazer parte dele, precisou emagrecer 10 quilos e se despir de toda a musculatura de atleta.

Trocou a bicicleta ergométrica por caminhadas na esteira. “Fiquei sem comer e corria todos os dias para meu corpo enxugar.” Desde então, não passa privações – incluindo o chope com as amigas e o brigadeiro de sobremesa. É cozinheira de pratos elaborados. Seu menu de sugestões oferece risoto com legumes, estrogonofe de carne e filé ao molho mostarda com creme de espinafre. Ainda busca o homem de paladar refinado com quem dividirá a mesa e o resto da vida. Quando encontrá-lo, o amará incondicionalmente – esteja ele onde estiver. “A distância serve como desculpa e não empecilho para fim de relacionamento”, observa. “Você não vai atrás do seu trabalho?”, pergunta. “Então?! Se você tem um amor, você vai atrás do seu amor também.” São as sábias palavras de uma especialista em perseguir e alcançar os próprios ideais.

Estilo e produção: Ana Hora; Assistente: Giulia Hora Roly; Make up e cabelo: Ronald Pimentel; Agradecimentos: Tessuti, Avisrara, Francesca Romana, Constança Bastos, Cais do Porto (Pier Mauá) Assistente de fotografia: João Luis Soares