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Gabriel Chalita

Ele foi colega de faculdade do ator Reynaldo Gianecchini: “A gente conversou mais no concurso para orador da turma. Eu ganhei estourado!”, conta
“Namorei bastante, mas não achei a pessoa para o resto da vida” , conta Gabriel Chalita
O paulista Gabriel Chalita, 36, é secretário de Educação do Estado de São Paulo há 4 anos. Responde por um orçamento de R$ 14 bilhões, 5,6 milhões de alunos, 213 mil professores e 5.500 escolas. Tem 39 livros publicados e 6 milhões
de exemplares vendidos
desde o primeiro lançamento, aos 12 anos.
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Capa - Personalidade do Ano 2005
Gabriel Chalita

O secretário de Educação do Estado de São Paulo lançou o primeiro livro aos 12 anos, hoje tem 39 publicados, realizou um sonho ao implantar o programa Escola em Tempo Integral e tem uma biblioteca com 12 mil volumes
texto: Rodrigo Cardoso
fotos: claudio gatti
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Desde que Gabriel Chalita assumiu o cargo, há quatro anos, não há greve de professores, que recebem em média
salário de R$ 1.500
Esse Gabriel não pára!!!”. Era esse o desabafo mais comum da mãe para o pai de Gabriel Chalita, um menino que tinha lá uma bicicletinha e com a qual rodava toda Cachoeira Paulista (SP). Aos 5, 6 anos, sossegava um pouco vendendo linha sentado na calçada da loja do pai. Pouco depois, passou a freqüentar campo de futebol para vender geladinho. Falante e brincalhão – mesmo ainda hoje, aos 36 anos –, o programa predileto de Gabriel era visitar o asilo da Santa Casa de Cachoeira. Lá, conheceu uma professora aposentada, dona Ermelinda, que lhe emprestou os primeiros “livros difíceis”. Tinha oito anos e devorava Clarice Lispector, Sartre, Monteiro Lobato. “Gostou? Entendeu?”, perguntava dona Ermelinda, sempre que o menino retornava. “Não entendi nada, mas adorei”, respondia ele.

Dona Ermelinda, paciente, dizia que as palavras eram mágicas e, quando menos Gabriel percebesse, elas iriam tomar conta dele. Nessa época, apareceu dona Helena na vida de Gabriel, outra professora. Foi ela quem o incentivou, aos 11 anos, a escrever. “O que te emociona?”, perguntou ela. E Gabriel, que tinha um irmão mais velho com síndrome de Down, respondeu: “Eu rezo, rezo, rezo, para o meu irmão ficar bom e ele não fica”. Foi aí que Gabriel escreveu um texto sobre liberdade, uma carta de amor para o irmão. Por competência e coincidência, hoje Gabriel tem 39 livros publicados (o primeiro, aos 12 anos), mais de 6 milhões de exemplares vendidos, e, como secretário de Educação do Estado de São Paulo, é o responsável por carreiras semelhantes às de dona Ermelinda e
dona Helena.

E os professores do Estado, que ganham em média R$ 1,5 mil mensais, parecem satisfeitos. Faz quatro anos, tempo de Gabriel no cargo, que não há greve. Há 33 professores fazendo mestrado em Londres e outros 1.400 em São Paulo – o único Estado que paga mestrado ao professor. “Não se deve investir muito em construção
de escola, mas em formação de professores, em tecnologia”, diz
o secretário.

Gabriel conhece o outro lado. Ele ainda cursava o Ensino Médio, quando passou a lecionar na escola onde o pai havia sido servente. “O sonho de meu pai era ter um filho com diploma, qualquer um, porque ele não pôde estudar”, conta Gabriel. Ele realizou o desejo do pai ao se formar em Filosofia – completou ainda o curso de Direito – e contrariou o da mãe, que queria vê-lo médico.

Nesse momento, quando ele começa a contar como os pais se conheceram, uma fina camada de água contorna seus olhos. Filho de libaneses, nascido em Belo Horizonte, José Milhem caiu de paixão por Anisse, ao vê-la na janela de um ônibus. Nascido na quarta cesariana de sua mãe – ela ainda sofreu um aborto –, Gabriel é o caçula temporão de quatro filhos.

Ele começou na política aos 18 anos ao se eleger vereador de Cachoeira Paulista e agora fecha 2005 com a realização de um sonho: Escola em Tempo Integral, programa recém-lançado. “Era a última conquista que almejava como secretário”, conta. “Os alunos entram às 7h e ficam até as 16h. Acredito que, em 2006, haverá 170 escolas em tempo integral.” O programa é dirigido a alunos do Ensino Fundamental. No Ensino Médio, este ano houve aumento do currículo nas escolas estaduais. O aluno que ficava cinco horas por dia no colégio, hoje, passa seis – o dobro de cerca de 70% dos estudantes da prefeitura.

É um outro programa arquitetado por Gabriel, o Escola da Família, que fez educadores e autoridades do mundo todo desembarcarem em São Paulo. Desde agosto de 2003 cerca de 5.300 escolas do Estado – mais 300 da rede municipal – abrem nos finais de semana e proporcionam esporte, arte, geração de renda e saúde à população. Este ano, a OEA (Organização dos Estados Americanos) premiou o governador Geraldo Alckmin pelo programa. Antes, a Unesco já havia considerado o Escola da Família o melhor programa educacional do mundo em termos de inclusão de alunos.

“Coral melhora escola. A criança está trabalhando com memorização, aprendendo ritmo, disciplina. Capoeira também”, diz o secretário. “É o que o grego ensinava: esporte e cultura. Se você tem desenvolvimento da habilidade esportiva, cultural e a parte cognitiva está acontecendo pela filosofia, você terá um ser humano integral.”

Gabriel sempre acreditou que escola não era lugar apenas para aprender português e matemática, que a auto-estima do aluno tem
de ser trabalhada. O secretário é perito no assunto. Foi professor da rede pública, de escola particular, fez carreira acadêmica – dois mestrados e dois doutorados – e dá aula em duas universidades.
Hoje, é professor da faculdade onde se formou em Direito. “Me formei com o (ator Reynaldo) Gianecchini”, conta. “Não éramos amigos. Ele já era modelo, desfilava muito. A gente conversou mais no concurso para orador da turma. Eu ganhei estourado! Aí, ele falou: ‘Nossa,
que discurso!’.”

O dom da oratória de Gabriel é famoso – pela emissora Canção Nova, de Cachoeira, ele apresenta um programa de rádio ao vivo, de segunda a sexta, e outro de tevê. Poucos sabem o quanto o secretário é competitivo fora do expediente. Há pouco tempo, ele foi jogar baralho com o governador de São Paulo, a primeira-dama, Lu Alckmin e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. FHC logo se manifestou: “Olha, as pessoas sabem que eu não gosto de perder de jeito nenhum”. Gabriel, aí, se adiantou: “Então joga (em dupla) comigo, porque eu também não gosto de perder”. No final, a dupla Gabriel e Lu venceu. “Eu decoro todas as cartas”, diz o secretário.

Solteiro, Gabriel adora os sobrinhos, vê orgulhoso o irmão feliz com a cunhada, mas diz que não encontrou a pessoa para casar. “Namorei bastante, mas não achei a pessoa para o resto da vida”, diz. Viagem com amigos, cinema, teatro, squash, maratona – ele toca bem piano e violão, mal – são seus passatempos. Na cozinha, arrisca pratos árabes, peixes e massas. E tem um sonho de consumo: livros. “Já gastei R$ 5 mil numa livraria”, revela ele, que tem uma biblioteca com 12 mil volumes. Dona Ermelinda tinha razão: as palavras tomaram conta de Gabriel.