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Com 65 anos de carreira, estrelou Gota D’Água, de Paulo Pontes e Chico Buarque, e arrastou multidões aos teatros cantando Edith Piaf e Amália Rodrigues
“Com a minha idade, fazer o que faço nesse show não é normal”, diz Bibi Ferreira
Filha do ator Procópio Ferreira e da bailarina e cantora espanhola Aída Izquierdo, a carioca Bibi Ferreira, 83 anos, contabiliza 54 peças e shows como atriz e intérprete e 61 como diretora. Entre troféus, medalhas e placas, soma 87 prêmios, entre eles dois Molière de melhor atriz
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Capa - Personalidade do Ano 2005
Bibi Ferreira

Grande estrela do teatro brasileiro, a atriz, cantora e diretora segue incansável aos 83 anos, brilha no espetáculo Bibi in Concert III POP, visto por 30 mil pessoas, só usa salto 15 mesmo em casa, gosta de reunir a família e diz que não viverá mais um grande amor
texto: Carla Felícia
fotos: alexandre sant’aNna
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Bibi, na varanda de seu apartamento, que tem vista para o Pão de Açúcar: “Gosto de tudo que se torna popular”, diz ela
Uma imponente biblioteca chama atenção no amplo apartamento de Bibi Ferreira, no bairro do Flamengo, no Rio. São 4.500 títulos, organizados cuidadosamente por temas. Na sala, um piano de cauda antigo alegra o ambiente, que tem uma das vistas mais encantadoras da cidade: o Pão de Açúcar. Pelos cômodos, circulam, um tanto desconfiados, quatro gatos siameses de cor acinzentada: Linda, Sansão, She e Filha da Mãe, que ganhou esse nome incomum por ser a mais temperamental. Os bichos de estimação, assim como a música e a literatura, são os grandes companheiros desta atriz, cantora e diretora, senhora de 83 anos e múltiplos talentos, que em 2005 brilhou com o espetáculo Bibi in Concert III POP, visto por mais de 30 mil pessoas. É o mais recente sucesso dessa grande dama do teatro brasileiro, cuja trajetória honra o legado do pai, o lendário Procópio Ferreira.

No espetáculo, Bibi canta durante uma hora e vinte, de pé, em cima de um salto 15 – que ela usa até em casa, para disfarçar seu 1,57 metro de altura. A memória, tão boa quanto na juventude, lhe permite decorar todo o repertório, que vai de Edith Piaf a Chico Buarque. “Ela é o exemplo mais acabado entre nós de um gênio, é uma instituição cultural”, elogia Juca de Oliveira, que teve quatro peças de sua autoria dirigidas por ela. “Difícil encontrar alguém tão dotado, com um talento enorme que se multiplica em várias direções.” Ele tem razão. Em 65 anos de carreira, Bibi fez de tudo. Virou estrela aos 18 anos, contracenando com o pai. Três anos depois, já comandava sua companhia de teatro e estreava no cinema como protagonista. Com menos de 25, começou a se destacar como diretora – e hoje tem no currículo espetáculos tão diversos quanto a ópera Carmen, de Bizet, e shows de Maria Bethânia.

Nos anos 50, Bibi reinventou o teatro de revista no Brasil e na década seguinte fez sucesso ao apresentar programas na tevê e dar início aos grandes musicais. Estrelou Gota D’Água, de Paulo Pontes e Chico Buarque, e arrastou multidões aos teatros cantando Edith Piaf e Amália Rodrigues. “Bibi é uma atriz de recursos absolutos, a melhor que temos no País”, reforça Juca. “Além de ser uma excepcional intérprete: cantora popular absolutamente fora dos padrões, que opera muito bem no canto lírico.” A versatilidade da artista que canta, dança, representa e dirige reflete-se em sua vida, seus gostos. Hoje, repousa na cabeceira de Bibi – ler antes de dormir é um hábito – o primeiro volume do clássico Os Thibault, de Roger Martin du Gard. Mas ela é capaz de devorar com igual interesse best-sellers da atualidade: os livros de Dan Brown, autor de O Código Da Vinci, e as aventuras de Harry Potter.

“Gosto de tudo que se torna popular”, explica. Como ela própria. Fora da tevê há 25 anos, nunca deixou de sentir na rua o carinho do público, como se fosse estrela da novela das oito. Repetiu o exemplo do pai e foi enredo de escola de samba. Desfilou na Viradouro em 2003, ovacionada nas arquibancadas, que gritavam seu nome em coro. Recebe e-mails do mundo todo e tem até comunidade no Orkut, com centenas de associados. Embora ache a internet fascinante, não deixou-se seduzir. Prefere os meios convencionais de comunicação: o telefone, as cartas, o telegrama – seu favorito. A preferência tem razão de ser. Econômica nas conversas, Bibi é sucinta também nas palavras escritas. Escrever não é seu forte, prefere ler, tocar piano sem platéia, ou assistir a filmes comendo jujuba, acompanhada de seus gatos.

Ter prazeres tão individuais, porém, não significa que Bibi seja uma mulher solitária. Faz questão de ter a única filha, Teresa Cristina, 50 anos, os dois netos e os dois bisnetos sempre por perto. São tradicionais os jantares de domingo, nos quais reúne também os amigos. Contudo, embora defina-se como uma “atleta da palavra”, não gosta de conversar. Longe da ribalta, prefere calar. “Talvez eu não seja curiosa o suficiente para saber o que as pessoas querem me dizer”, admite. De um companheiro, assegura não sentir falta. Depois de dois casamentos e quatro “ligações amorosas”, mostra-se conformada com a previsão pessimista de que não viverá outro amor. Futuro traçado pelos homens e vislumbrado aos 78 anos. Foi nessa época que Bibi percebeu que eles já não a tocavam mais, já não a encaravam da mesma maneira e desapareceram. “Percebi que a velhice tinha chegado por causa dos homens.”

Por um lado, sentiu alívio. De se ver livre do ciúme e da insegurança exagerados que a dominavam quando se apaixonava. “Por minha culpa, nunca fui feliz no amor. Bota do meu lado um camarada de quem gosto que fico burra, cretina, ciumenta, insuportável.” Mas sofreu com o baque de conceber a vida sem sexo, mesmo admitindo que hoje não teria mais coragem de se desnudar. Para uma mulher da década de 20, ela fala do assunto com surpreendente desenvoltura. “Pensar que ninguém mais vai me dar um beijo na boca, me segurar num abraço e me olhar nos olhos... Embora não seja mais importante que comida, sexo é importante sim.” Bibi não se deixou abater. Reagiu investindo toda a energia no trabalho. Uma energia pouco usual para quem tem 83 anos. “Sou uma pessoa fora do comum. Com a minha idade, fazer tudo que eu faço nesse show não é normal”, afirma.

Parar não faz parte dos planos enquanto a saúde continuar jogando a favor. Mesmo com seu nome gravado na história da dramaturgia brasileira, Bibi ainda depende do trabalho para sobreviver. Com orgulho. No próximo dia 18, o ritual se repetirá: uma banana bem mastigada duas horas antes e manteiga derretida dentro do café vinte segundos antes de respirar fundo e subir ao palco, montado no Jardim Botânico de São Paulo, onde vai cantar Piaf acompanhada da Orquestra Sinfônica paulista. Em janeiro, volta ao Teatro Frei Caneca para mais uma temporada de Bibi III. Em março, lança um CD de tangos com o maestro Miguel Proença. E, em 2007, quer voltar a encenar uma comédia. A cristaleira abarrotada de prêmios, meio escondida na penumbra do escritório, um pouco desorganizada em contraste com a biblioteca, dá a perfeita noção de que prêmios não são o motivo pelo qual Bibi continua cheia de planos. Seu maior combustível é, na verdade, o aplauso.