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“É um bebê de quatro meses. Ele tá bom, gordinho, as bochechas estão coradas”, diz a jornalista sobre o SBT Brasil
“Tudo o que eu podia fazer, eu fiz” Ana Paula Padrão, sobre engravidar
A jornalista Ana Paula Padrão é brasiliense e tem 40 anos. Apresenta há 4 meses o SBT Brasil, que registra audiência média de 9 pontos. Trabalhou durante 18 anos na Globo, onde apresentou por 5 o Jornal da Globo. Está casada há 3 anos e meio com o economista Walter Mundell, de 52 anos
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Capa - Personalidade do Ano 2005
Ana Paula Padrão

A jornalista trocou 18 anos de Globo para ser a grande aposta de Silvio Santos no telejornalismo do SBT, conta como ganhou em qualidade de vida com a mudança e fala de suas tentativas para ser mãe
texto: Rodrigo Cardoso
fotos: piti reali
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Completar 40 anos foi uma delícia para ela. “Convivo superbem com minhas ruguinhas, minha flacidez, meus pneuzinhos”, diz Ana Paula
A jornalista Ana Paula Padrão, 40 anos, é de uma geração de mulheres que entrou no mercado nos anos 80. Que foi criada para ser altamente competitiva, colocar a carreira na frente de tudo e que cresceu ouvindo da mãe: “Jamais dependa de marido”. No meio do ano, Ana Paula pôs fim a um casamento de 18 anos com a Globo, cinco deles à frente do Jornal da Globo – para o qual começava a trabalhar de dia e entrava madrugada adentro. Em 15 de agosto, dia de Nossa Senhora da Glória, sob a bênção da santa – imagem que ela ganhou e deixou numa salinha cercada de velas – e com uma garrafa de água benta do lado de seu computador, a jornalista, com a mão gelada e razoavelmente nervosa, estreou no SBT Brasil. Ao final do telejornal, foi livre, leve e solta
para casa.

Uma mudança e tanto, que se lê da seguinte forma, segundo Ana Paula: “Você não precisa ser supermulher, adorar trabalhar 14 horas por dia, gostar de ter a casa desarrumada ou um casamento confuso porque não tem tempo para a vida pessoal”, diz. “Pode equilibrar sua vida que continuará sendo uma mulher digna de admiração e respeito. E não será mulherzinha, no sentido pejorativo, se não for a super-hiper-executiva. Me dei a minha carta de alforria.”

Trocando em miúdos, a jornalista optou pela vida pessoal. Casada com o economista Walter Mundell, 52, faz seis meses que Ana Paula acorda às 10h, lê cinco jornais, toma café da manhã com o marido, resolve coisas e retorna do trabalho a tempo de jantar e ter um ritual noturno – duas, três horas para relaxar – antes de dormir. “Já ouvi gente dizendo: ‘Ih, agora é que não vai dar certo, porque vão passar a conviver’”, diverte-se Walter. O casal dá de ombros e, a cada três semanas, viaja para a casa de praia em Itacaré, na Bahia. “Estou
uma mulata. Olha a cor deste braço!”, diz. “Olho no espelho e vejo como estou melhor. As pessoas me falam: ‘Você fez plástica!’.
E eu: ‘Nããããão’.”

Pele ótima, sentimento de alívio – ela não dorme mais com máscara no rosto e borrachinhas no ouvido –, Ana Paula voltou a cultivar as amizades. “Fui a lançamento de todos os livros de amigos. E vou ao cinema em dia de semana!”, diz, radiante. Até festa para comemorar o próprio aniversário, coisa que não acontecia há tempos, ela fez este ano. E numa sexta-feira à noite. “Os últimos aniversários foram almoços, quando havia... E não tinha champanhe!” Completar 40 anos foi uma delícia para ela. “Convivo superbem com minhas ruguinhas, minha flacidez, meus pneuzinhos.” Com 50 quilos, o passar dos anos não a tortura. “Não faço nada. Nem caminho. Me matriculo na academia a cada seis meses. Faço duas semanas e paro”, conta ela, que anda com vontade de fazer ioga.

Ana Paula se separou da Globo para poder curtir o marido e, de quebra, já cuida de um bebê: o SBT Brasil. “É um bebê de quatro meses”, diz. “Ele tá bem, gordinho, as bochechas estão coradas.” Como toda mãe de primeira viagem, no primeiro mês de vida dele, Ana Paula ficou perdida. Coisas que ela achava que funcionariam não deram certo e vice-versa. “Esse não é um jornal que você abre com a notícia mais importante do dia. Mas com comportamento, trânsito, coisas de São Paulo, economia popular.”

A audiência mostra que Ana Paula vem embalando bem seu filho. São 8, 9 pontos de média – alguém no SBT um dia disse a ela que a casa esperava 6, 7. Ana é a grande aposta de Silvio Santos para alavancar o jornalismo da emissora, que não tinha um telejornal de prestígio em horário nobre havia oito anos. Para tanto, o dono do SBT garantiu, em contrato, liberdade editorial a Ana Paula e estima-se que pague a ela R$ 250 mil mensais – na Globo ela recebia cerca de R$ 80 mil. Somente Boris Casoy e Lilian Witte Fibe tiveram tal privilégio. “Nunca tinha entrado num projeto deste tamanho”, conta a apresentadora do SBT Brasil. Ana Paula trabalha com 107 emissoras afiliadas, 250 jornalistas exclusivos, no Brasil e no mundo, e equipamento de qualidade. Ela e uma equipe rodaram por cerca de 40 praças para avaliar cada uma delas, explicar o método do novo jornal e costurar a cobertura. “Fui pessoalmente a dez praças. Tenho profunda satisfação por esse projeto.”

Fora da tevê, Ana Paula também queria ter um filho e começou a tentar engravidar aos 37 anos. Ela e Walter lançaram mão do que a medicina oferecia – foram quatro fertilizações in vitro frustradas. “É duro, difícil, dói”, diz ela. Em agosto de 2004, Ana Paula engravidou naturalmente e sofreu um aborto espontâneo na oitava semana. “Uma mulher de 40 anos que não evita filhos, não engravida, engravidou uma vez pelas vias normais e perdeu, fez vários tratamentos e não conseguiu, tem de encarar que não vai ser mãe”, diz. “A minha busca da maternidade foi limitada pela questão física. Não há nada que eu possa fazer. Tudo o que eu podia fazer, eu fiz.”

Filho, porém, não é determinante para a felicidade do casal. Dark ama Grande – como carinhosamente Ana Paula e Walter se chamam – e vice-versa. “Tenho absoluta certeza de que ele é o homem da minha vida”, diz ela, casada há três anos e meio. Walter é um economista não clássico. Gosta de música, toca cordas e bateria. “Tô louca para comprar uma bateria eletrônica e fazer um quartinho para ele tocar. Morro de pena daquele homem batucando em qualquer coisa!”

Ana Paula é primogênita do advogado Fausto e de Sherly, radialista na juventude, hoje separados. Nasceu em Brasília, onde caçava cigarra, brincava nos terrenos baldios e em acampamentos dos ciganos. Não tinha muitos amigos. Seu primeiro irmão – são dois – nasceu cinco anos mais tarde. Surgiu, então, a timidez, que a acompanha até hoje. “Sofro cada vez que dou uma palestra ou recebo um prêmio. Fico com a mão fria, nervosa.” Na adolescência, o trauma era outro. “Eu era feia. Até os 16 não usei saia, achava minhas pernas feias”, conta. “E só vestia camisas de mangas compridas porque achava os braços magros. Até os 15, ninguém olhava pra mim.” Sorte de Ana Paula que, hoje, quem olha diz que nem de longe aparenta os 40.