Entrevista  
Irene conta que seus netos ainda não a conheciam como atriz: “Falava para Maria Luiza que a
avó dela trabalhava na televisão.
E ela me respondia: ‘Eu também. Meu pai me filma e eu apareço
na televisão’”
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Irene Ravache
‘‘O casamento é como uma peça de teatro’’
De volta às novelas em Belíssima, a atriz diz que sentia falta do grande público, fala de seu casamento de 34 anos e do drama de ver um filho envolvido com drogas
texto: Dirceu Alves Jr.
fotos: murilo constantino

Nada no apartamento de Irene Ravache, em São Paulo, sinaliza que aquele é o território de uma atriz. Os prêmios recebidos em quatro décadas de carreira não enfeitam as estantes e as paredes são ocupadas por obras de arte e não por cartazes ou fotos de espetáculos. Aquele é o palco da Irene Yolanda, como a artista carioca de 61 anos se define fora de cena. Há 34 anos, Irene Yolanda é a mulher do jornalista Edison Paes de Melo, 63, mãe de Hiram, 40, e Juliano, 32, e avó de Cadu, 11, e Maria Luiza, 4. Agora, na pele da Katina de Belíssima, Irene quebra o jejum de seis anos afastada das novelas da Globo e mata a saudade do grande público. “Sentia falta de botar a cara na tevê”, diz ela, que nesse tempo emendou sucessos no teatro, filmou Depois Daquele Baile, de Roberto Bontempo, recém-exibido no Festival de Brasília, e produziu a peça As Turca, que volta a cartaz em janeiro na capital paulista.

Por que tanto tempo longe das novelas?
Recebi alguns convites nesse período, mas o “não” sempre vem a partir de prioridades da minha vida: família, teatro ou alguma viagem. Existem momentos em que não quero me afastar da minha casa. Sou muito feliz apenas com o teatro. E não acumulo novela e teatro, senão eu deixo de viver. Preciso ter dias de folga para ser esposa, mãe e avó, para ver meus amigos. Necessito deixar de ser a Irene Ravache para ser a Irene Yolanda. Poder ser o que sou é um luxo que faço questão de manter.

O que a seduziu em Belíssima?
No ano passado, Silvio de Abreu me ligou e aceitei direto. Precisava voltar às novelas. Mesmo com uma peça em cartaz, sentia falta de botar a cara na tevê. Eu me desliguei do espetáculo Intimidade Indecente e fiquei alguns meses sem fazer nada, me concentrando para a novela. Meus netos não me conhecem como atriz. Falava para Maria Luiza que a avó dela trabalhava na televisão. E ela me respondia: “Eu também. Meu pai me filma e eu apareço na televisão”. Agora, ela deve estar achando engraçado (pega a carteira e mostra a foto da neta). Meu outro neto chegou a ver Suave Veneno, mas não dava bola. Ele gostava mesmo era da minha personagem no Casseta & Planeta, na sátira que eles faziam da novela (risos).

O trabalho esporádico na tevê é conseqüência da longa carreira dos seus espetáculos, não?
Faço peças que dão muito certo. Fico tão satisfeita com o sucesso no teatro que nem penso em trabalhar em outra coisa. É uma bênção saber que o público está nos acompanhando. É diferente de novela, que sempre dá certo. Mesmo quando não estoura a audiência, a novela atinge um grande público. Teatro é corda bamba, a gente nunca sabe quando vai encontrar o público.

Mas você sempre priorizou o teatro.
O teatro é meu caminho. Descobri peças que me dão um retorno muito além do espetáculo e isso é proveitoso na minha vida pessoal. Desde que fiz De Braços Abertos, em 1984, o público vai ao camarim dizer como aquela mensagem o tocou e fala dele, de sua história, de seus problemas. E me acostumei com essa troca. Preciso dela. Em Filhos do Silêncio, vivia uma surda-muda, e os deficientes me procuravam, falávamos por sinais. Sei que se eu interpretar a mãe do Hamlet, isso não vai acontecer. Será outro tipo de retorno, mas não é o que procuro nessa altura da vida. Essa troca é que vou levar quando me for.
Mesmo se minha carreira esfriar, ninguém tira os momentos vividos com o público.

Que troca é possível na tevê?
Televisão não é palco de reflexão, quase tudo passa muito rápido. Quando fiz a Raquel, em Sol de Verão, fiquei muito mexida. Mas nada é comparável à Dona Lola de Éramos Seis. Mais de 10 anos depois, encontro pessoas que me falam emocionadas da personagem. É a mãe coragem, a estrutura familiar que sempre emociona. E a Katina, de Belíssima, é mais uma dessas mães. É uma mulher de decotes, salto alto, unha vermelho coral, mas absolutamente entregue aos filhos. Aliás, não sei como vou agüentar essas unhas vermelhas até julho (olha para as mãos). Essa não sou eu. Nunca usaria esse esmalte.