Entrevista  
Ocimar tinha sociedade com Sandra e Sérgio Habib, com quem abriu sete lojas, todas fechadas em seis meses: “Fui vítima de um golpe daqueles”, diz ele
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Ocimar Versolato
‘‘O meu espaço ninguém vai tirar’’
Com o fracasso de suas lojas, o estilista lança o livro Vestido em Chamas, move processo contra ex-sócios, quer lançar linha de cosméticos e pensa em voltar à alta-costura
texto: Claudia Jordão
fotos: claudio gatti

Foram dois duros golpes na vida do mais consagrado estilista brasileiro no Exterior, o paulista Ocimar Versolato, 44 anos. Em 1999, a união com o grupo Pessoa de Queiroz se desfez e ele viu ser enterrado o sonho de manter showrooms de sua grife lá fora. De volta ao Brasil, no final do ano passado firmou sociedade com os empresários Sandra e Sérgio Habib e mais uma vez viu ruir um ambicioso projeto. Em seis meses, sete luxuosas lojas em São Paulo, Rio e Brasília abriram e fecharam. O único brasileiro a integrar a Câmara da Alta-Costura de Paris lança agora o livro Vestido em Chamas, no qual usa sua língua ferina para falar de sua biografia e de bastidores do mundo fashion com pseudônimos. “São crônicas autobiográficas, algumas engraçadas, outras menos”, diz Ocimar, que perdeu o pai aos quatro anos e foi criado pela mãe, que, apesar de ter um restaurante, sempre quis
ser estilista.

Por que escrever esse livro agora?
Pela primeira vez na vida estou com tempo. Resolvi aproveitar para realizar esse projeto antigo. Levei seis meses para escrever, todo dia um pouquinho.

Às vezes, você usa pseudônimos decifráveis, como os dos estilistas Reinaldo Lourenço e Glória Coelho, citados como Rinaldo Botelho e Graça Preá (no livro, é relatada a prisão do casal após serem flagrados fotografando roupas em uma loja em Paris). Foi intencional?
Foi uma brincadeira, não tenho nada contra eles. Adoro o Reinaldo e a Glória. É que tudo tem humor, a pessoa que mais brinco é comigo mesmo. Conto histórias minhas mais engraçadas que essa. Não me poupo também.

Por que a sociedade com Sandra e Sérgio Habib não deu certo?
Era uma coisa praticamente previsível, eu que não percebi antes. Eles investiram R$ 40 milhões no projeto e até hoje não declararam de onde veio o dinheiro, onde e como foi usado. Abriram as lojas e fecharam na hora que quiseram sem me dar explicação. Qual empresário investe esse valor e quer retorno em seis meses? Acho que só traficando, né? Ele assinou um contrato de que ia investir três anos. Eles não podem pegar uma marca e fazer o que querem, sem dar satisfação. Quero que fique claro que não faço parte disso. No contrato que assinamos, ele era o único administrador da empresa. Meu erro foi acreditar na conversa mole dos dois.

A informação divulgada é que eles investiram R$ 15 milhões.
Foi o que declararam, mas o gasto foi de R$ 40 milhões. Só na aquisição dos pontos foram R$ 18 milhões, de obra outros R$ 15 milhões, mais o estoque de 22 mil peças. Chega a R$ 40 milhões fácil. Desde o início eu sabia disso. Eles que falaram em R$ 15 milhões. Entrei com um processo na Justiça contra eles para que prestem declaração desse valor. Não quero o meu nome envolvido em
história ilícita.

Como se sentiu?
Traído. Me senti vítima por terem usado meu nome. Isso eles vão ter de reparar. Antes eu tinha uma confecção, uma máquina, um estoque de tecidos e roupas, eu existia. Agora quero o que é meu, do jeitinho que estava antes e depois quero ver os danos que causaram à marca, que não foram poucos.

Como está superando o baque?
Não vou te falar que fiquei contente, lógico que fiquei triste. Era um projeto maravilhoso, provei que é possível fazer coisa de qualidade no Brasil, sim. Agora, não vou passar a minha vida chorando em cima do leite derramado. Não é a primeira e nem vai ser a última.

Acredita que virão outros?
Tenho certeza que não foi o último. Sou uma pessoa que enfrenta o risco, não sou classe média. Se fosse, estaria trabalhando em um banco, recebendo salário no final do mês. O fato de eu ter ido para Paris e ter sido recebido é coisa de quem arrisca. Porque a pessoa vai lá, apresenta o desfile para meia dúzia de amiguinhos e volta para cá falando que fez sucesso em Paris. O outro vai, bota em um showroom que ninguém nem ouviu falar e diz que está vendendo em Paris. É tudo medíocre! Eu não sou. Não vou fazer nunca como os outros, não me interessa. Pego o risco e vou até o fim. Às vezes dá certo e às vezes dá errado, mas é raro.

Você e os Habib eram amigos, certo?
Mas eu acho que ela (Sandra) foi falsa. Ela tinha um plano desde o início. Quanto mais penso, mais tenho a noção de que fui vítima de um golpe daqueles.

Antes disso, você passou por problemas com outra sociedade na França. É má sorte?
Acho que o problema é a marca ser muito chamativa. Nisso existe o lado bom e o lado ruim. O bom é que todo mundo conhece, deseja. O ruim é que atrai esse tipo de pessoa. Não tenho nada a reclamar sobre o meu sócio em Paris (grupo Pessoa de Queiroz). Ele tinha que investir e chegou uma hora que não tinha mais. Normal.