20 de março de 2000
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Profissão

Ouro no esgoto
O garimpeiro Rivaldo da Costa enfrenta mau cheiro e ratos, mas já recolheu até 100 gramas de ouro numa expedição pelas galerias de Belo Horizonte

Leonardo Coutinho

Foto:Emanuel Pinheiro/Primeiro Plano

“Com lanterna, velas, biscoitos e água, Rivaldo faz incursões de 48 horas no esgoto e fatura R$ 600 em ouro em cada uma delas

Três horas da madrugada. Rivaldo se prepara para mais uma jornada de trabalho. Numa sacola plástica, ele põe seis velas, uma caixa de fósforos, uma lanterna, três pilhas de reserva, dois pacotes de biscoito e uma garrafa d’água. Abençoa os oito filhos e os quatro netos, beija a mulher, coloca sob o braço um pedaço de carpete velho, que será a sua principal ferramenta de trabalho. Com suas botas de couro sem cadarço, jeans desbotado e surrado e camiseta de algodão puída, lá vai Rivaldo pelas ruas da cidade. Em uma esquina deserta ele pára. Observa a cidade morta no silêncio da noite. Olha o céu e avalia o tempo. Apoia seu bornal no chão e se ajoelha. Retira a grade de concreto que protege o bueiro. Recolhe a bolsa e desaparece. Nas 48 horas seguintes, ele vai recolher, nos esgotos de Belo Horizonte, o metal que garante o sustento da família: ouro.

Rivaldo Alves Costa, de 60 anos, é um garimpeiro pouco convencional. Após 17 anos de trabalho nos ribeirões da região, ele trocou a paisagem prosaica do Rio das Velhas e das montanhas que cercam Nova Lima – cidade de 65 mil habitantes, a 22 quilômetros de Belo Horizonte – pelas trevas da rede de esgotos da cidade. Rivaldo garimpa no subterrâneo desde 1996, época em que descobriu que nas galerias se encontra o novo eldorado. Hoje é conhecido como “homem-rato”. Aposentado por invalidez e vivendo apenas do salário mínimo e dos cerca de 20 gramas de ouro obtidos por mês na exploração dos rios, ele ouviu dizer de outros garimpeiros que era possível retirar ouro da boca-de-lobo dos esgotos da cidade.

Decidiu tentar a nova empreitada. Dentro de uma manilha de 150 centímetros de diâmetro, agachado, ele não resistiu sequer 10 minutos. O mau cheiro provocou náuseas e o calor começou a sufocá-lo. Rivaldo chegou em casa ao frangalhos. Jogou a roupa suja fora, tomou banho como nunca antes e se “desinfetou” na salmoura, pois em casa não tinha nada, além do sal, que pudesse ajudá-lo na faxina do corpo.

No dia seguinte, Rivaldo tomou a decisão de partir para o garimpo nos esgotos. A escolha veio, segundo ele, com a conclusão de que mais valia enfrentar o fedor da galeria que padecer com a renda mínima paga da aposentadoria. Na mesma noite, ele preparou um ritual que tem se repetido.

São cerca de 30 metros até um lugar onde a galeria se torna mais ampla. Ali, ele acende uma vela, desenrola o carpete que leva pendurado sob o braço e o estende sobre um pedaço de madeira recolhido no local. Ao redor, Rivaldo vê, em meio aos ratos que, agitados, reagem a sua presença, os vestígios da passagem dos precursores de sua aventura. Arregaça as mangas e começa a retirar com as mãos o barro podre, depositado no fundo da tubulação. Cada porção é lavada, com o próprio esgoto, sobre o carpete. A técnica consiste em fazer com que as partículas de ouro se fixem nas fibras do tecido, enquanto as impurezas são eliminadas pela água. São dois dias dentro do buraco. Rivaldo luta contra o sono para não adormecer em meio aos bichos.

De volta a casa, ele repete o mesmo ritual daquela primeira sessão de limpeza. No carpete, empregado no garimpo, uma surpresa: 41 gramas de ouro. O equivalente a quatro meses de ordenado do aposentado. Ele já conseguiu, em expedições de três dias, até 109 gramas de ouro. As visitas à galeria passaram a ser mais constantes e Rivaldo transformou o lugar em seu hábitat natural. Com uma incursão apenas, ele garante uma média de 600 reais, que complementam a renda do mês. “Quando eu me acostumei com os bichos e eles entenderam que eu não lhes faria mal, passei até a dormir, quando o sono apertava. Aí o trabalho ficou mais fácil”, afirma.

 

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