20 de março de 2000
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Entrevista

Christiane Torloni
“Pensei em deixar de ser atriz”

Ela diz que fãs foram decisivos para que não abandonasse a carreira depois da morte do filho, há nove anos

Paula Quental

Foto:André Durão

“Parei de fotografar nua aos 27 anos. Perto dos 50, volto a pensar sobre isso”, diz Christiane

Desde que iniciou a carreira, em 1976, aos 19 anos, Christiane Torloni rouba a cena. Estreou em Duas Vidas, de Janete Clair, na Globo, e hoje, 24 anos depois, já atuou em 15 novelas, 11 filmes e dez peças de teatro. Símbolo sexual nos anos 80, ela tem buscado interpretar, nos últimos tempos, personagens fortes e revolucionárias. Como a elogiada Salomé, no teatro, em 1997. Ou Joana D’Arc, que ela incorpora, a partir do dia 31, em São Paulo, em Joana Dark – a Re-Volta. Christiane foi exemplo de mulher liberada e ganhou o título de Musa das Diretas em 1984. Ao mesmo tempo em que era ativa no movimento político, posava nua. Foi casada três vezes: com o diretor de tevê Dênis Carvalho, pai dos seus filhos gêmeos Guilherme e Leonardo, com o psicanalista e deputado Eduardo Mascarenhas (morto em 1997) e com o artista plástico Luiz Pizarro. Em 1991, o filho Guilherme morreu aos 12 anos, num acidente de carro em que ela dirigia. A tragédia a levou a Portugal, onde morou por três anos, de 1991 a 1994. Christiane conta a Gente que no exílio voluntário pensou em desistir da carreira e que ainda está superando a morte do filho.

Os fãs tiveram papel importante na sua volta ao Brasil, depois de três anos morando em Portugal?
Recebi cartas que me impressionaram. De pessoas que pareciam saber o que se passava na minha cabeça. Diziam: não abandone a sua carreira. Não diziam “não nos abandone”. Estavam preocupados comigo. Me sentia sozinha e para mim essas cartas são verdadeiras jóias. Teve um peso essencial, foram cartas de amor.

Continuou contratada da Globo quando morou fora?
Sim, eles me esperaram. O Boni (José Bonifácio Sobrinho) ainda estava na Globo e não quis rescindir o contrato. Praticamente o renovou quando eu partia. Quando fui para Portugal, não tinha certeza nem se ia voltar a ser atriz. Não sabia se ia voltar ao Brasil. Fui repensar a vida. A Globo tem uma postura humana que se revela em circunstâncias como esta, de que infelizmente fui vítima. Como mantém o pagamento de pessoas soropositivas.

A circunstância de que fala é a morte do seu filho, a razão de sua ida para Portugal. Como superou essa perda?
Só dá para usar o verbo no gerúndio. Teve um momento em que até andar era difícil. Não conseguia sair do chão. Só se dá o ponto final no dia em que a gente expira, pelo menos nesse plano aqui. Não tem nada concluído na minha vida. Fui criada na fé, e essa é uma das boas heranças que recebi da minha família. Sem fé, eu seria muito triste, amarga.

Pratica alguma religião?
Fui criada na fé católica, mas não acredito nos dogmas católicos. Fui há alguns anos à Tailândia com o meu filho Leo e foi maravilhoso. Já meditava e compramos livros sobre budismo. Tivemos como guia um monge tibetano. Também viajei por 40 dias à Grécia, sozinha. Lá pensei: não dá para dizer que Deus não existe.

Como surgiu a idéia de interpretar Joana D’Arc?
Joana D’Arc aos 17 anos unificou um país e pôs fim à Guerra dos 100 Anos. Tive a idéia num garimpo em livraria. Costumo dizer que rezo mais em livraria do que em igreja.

Teme envelhecer?
No meu sítio em Nova Friburgo (cidade serrana no Estado do Rio), há um eucalipto que eu olho e penso que queria ser como ele. É uma árvore incrível. Adulta, ela é toda craquelada, com o tronco rasgado, enrugado. Quando fica mais velha, a natureza faz um peeling. As lascas vão caindo e ela fica lisa. As mais velhas são mais bonitas do que as jovens. É um erro pensar que o corpo é só a crosta quando, por dentro, tem essa coisa magnífica, que não precisa siliconar, ou malhar como um filho da mãe para botar a bunda no lugar. C
omo se põe a alma no lugar? Se a gente não a puser no lugar, tudo dança.

Já fez uma plástica no seio. Fez ou faria outras?
Não fiz outra. Mas todos têm o direito de se consertar. A questão de se siliconar, tirar bunda, lipoaspirar, se não vira uma doença ou loucura, tudo bem. Operei mama depois que meus filhos nasceram, com o Ivo Pitanguy. Tinha seios superbonitos, mas amamentei e desmontou tudo. Aí dizia para todo mundo que tinha um colo patrocinado pelo Pitanguy.

Está casada?
Estou na modalidade noiva, do Inácio Coqueiro (diretor de tevê). Estamos juntos há quatro anos. Me separei há dez anos e não me casei mais. O primeiro homem com quem me casei, absolutamente apaixonada, foi o Dênis. Não posso me queixar, fui muito amada. Os homens que passaram pela minha vida, mesmo depois de separados, viraram amigos, parceiros. Com o Dênis é uma tribo, nós temos a Tainá, que é filha dele com a Monique (Alves), depois chegou a Luiza, fruto do casamento do Dênis com a Débora (Evelyn).

Vocês são unidos?
Sempre. As crianças sempre se deram bem. Se separou, é porque cortou um barato, aconteceu. Os filhos ajudam nisso e vão mostrando como os adultos são bobos. A chegada da Luiza foi um presente para o casamento de Débora e Dênis e para todos nós. A Débora é maravilhosa. Luiza, hoje com 7 anos, chegou num momento em que havíamos perdido o Guilherme. É bonito ver uma família vivendo a saga dos que vêm, dos que vão. O sentido da vida é esse.

Vai se casar com o Inácio?
Sim, mas mantendo casas separadas. O casamento clássico é para uma fase de criação dos filhos. Quero hoje privacidade. Talvez, quando for mais velha, morar junto volte a fazer sentido, para me sentir protegida novamente. Me pego observando um casal de velhinhos e acho bonito o amor maduro. Defendo o sexo até a quinta idade, é um exercício físico e mental.

O sexo é o mais importante no casamento?
Nada que vem do amor e do corpo é imoral. Ensinei meus filhos a não terem nojo do corpo, do seu cheiro. Senão, como vão viver ao lado de uma mulher que se liqüefaz todo mês?

Você já foi símbolo de mulher liberada, chegou a ser chamada de amante do Brasil. Ainda se acha liberada?
Liberada do quê? Não adianta queimar sutiãs ou dançar na boca da garrafa e achar que é ser liberado. Infelizmente, a mulher tem uma performance externa liberal, mas em casa está apanhando. Fisicamente e moralmente. É torturada em jogos de ciúme, poder. Há algemas muito arraigadas na psiquê da mulher.

Faz análise?
A terapia é uma viagem psíquica que se começa e nunca mais se deixa. Comecei aos 18 e aos 42 ainda faço.

De mulher liberada você se tornou musa das Diretas. Como foi?
Não havia intenção de me tornar um símbolo. Participar das Diretas foi uma necessidade. Sou filha da revolução, fazia papéis no cinema que eram a revolução na arte, como em O Bom Burguês. Quando ouvi o boato de que a coisa ia abrir, quis participar.

Vestiria hoje a camisa de um candidato ou causa política?
Só se fôssemos ameaçados por um retrocesso na democracia. A democracia não é só um conceito político. Não dá para pregar liberdade se dentro de casa você dá porrada na cara da sua mulher ou se enfia dois pares de chifres na cabeça do seu marido.

As mulheres estão traindo mais?
Estão se desvalorizando mais, só saem com os homens pensando em sexo. Deve ter alguma relação com Q. I., porque só mulher muito burra se desvaloriza tanto. A emancipação feminina não está só no sexo. Bundificar tudo é chato. A primeira vez que ouvi o Gabriel, o Pensador cantando Cachorrada fiquei meio chocada. Depois vi que ele estava certo.

Não é contraditório quem já posou nua falar em bundalização?
Posei lindamente para a Playboy três vezes, feliz da vida. Não por protesto, claro. Teve gente confusa de me ver na Playboy e nas Diretas. Mas dei seis páginas de entrevista numa época em que mulheres mostravam a bunda e os homens, as idéias.

Voltaria a posar nua?
Parei de fotografar aos 27. De repente, aos 50 volto a pensar sobre isso.

O homem brasileiro é machista?
O homem brasileiro é o melhor homem do mundo. É quente, assim como a mulher brasileira é quente e é muito feliz com o homem brasileiro. Por isso dizem que no Brasil até prostituta goza.

Passou pela crise dos 40?
Não tive crise nem aos 30 nem aos 40. A vida ficou melhor, a minha observação talvez tenha ficado até mais serena, apesar de tudo o que me aconteceu. As danças orientais me ajudaram a compreender mais o meu corpo. A mulher ocidental é travada, os buracos são tensos, fechados. Ela tem a respiração truncada porque tem que botar para dentro a bundinha. As danças orientais trabalham a respiração. Melhora tudo, a sexualidade, a TPM.

Seu filho vai ser ator?
O Leo está fazendo Jornalismo e acaba de se matricular num curso de teatro. Como o pai é diretor de tevê, os avós e mãe atores, me espantaria se quisesse ser engenheiro civil.

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