Entrevista  
“As pessoas se surpreendem em me ver no meio da night. Danço pelo menos uma vez por mês. Gosto de chorinho, techno, não tenho preconceito”, diz Nívea
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Nívea Maria
‘‘Não tem que ter sexo para a pele ficar boa’’
Com a auto-estima recuperada após a separação do diretor Herval Rossano, ela curte a noite carioca e passa a vida a limpo em uma biografia que será lançada em breve
texto: Clarissa Monteagudo
fotos: leandro pimentel

Os traços delicados são eloqüentes ao revelar a história profissional de Nívea Maria. A beleza suave a credenciou a viver uma sucessão de heroínas românticas na tevê. Aos 58 anos, 40 deles dedicados à carreira, precisou reinventar sua imagem e se despojar da vaidade para brilhar na pele de mulheres maduras em produções como América e A Casa das Sete Mulheres. Agora, Nívea sonha em voltar aos palcos ao lado de Francisco Cuoco no próximo ano. Também verá suas memórias contadas em uma biografia escrita pelo pesquisador Mauro Alencar. A obra da coleção Aplauso, que tem lançamento previsto para março, funcionou como uma espécie de libertação. Disposta a apaziguar todas as mágoas, a atriz quer reconquistar a amizade do ex-marido, o diretor de tevê Herval Rossano, com quem foi casada durante 27 anos e teve uma ruidosa separação. “Adoraria sentar com ele e Mayara em uma mesa para conversar”, diz, referindo-se à atual mulher de Herval, a atriz Mayara Magri.

Como se sentiu revivendo sua história pessoal e profissional
no livro?

Minha primeira reação foi dizer que não queria. Foi uma forma de orgulho falar que eu não tinha essa vaidade. O Mauro Alencar me convenceu enumerando os momentos da tevê brasileira em que eu estava presente, como Maria, Maria, A Moreninha, O Feijão e o Sonho, Olhai os Lírios do Campo. Quem não leu esses romances conheceu suas heroínas personificadas no meu rosto? Passei por todas as emissoras, trabalhei com todos os autores.

Foi bom reviver sua biografia?
Foi como fazer uma análise. Aprendi a não me reprimir mais. Hoje vejo que podia falar de algumas coisas, não há nada de absurdo. Posso sentir orgulho de mim e pensar: “Que puta mulher, que puta mãe que eu fui”, apesar dos meus defeitos, das minhas chatices.

Há uma nova abertura de espaço na tevê para atrizes da sua faixa etária?
Não. É resultado de um trabalho de perseverança. Quando não me oferecem, eu procuro. Me redescobri novamente empolgada com o trabalho aos 50 anos, após uma época de falta de motivação. Estou conquistando minhas chances, mas não é fácil. Faço um autor me pedir desculpas se ele não chegar com seu texto ao mesmo ponto que eu alcanço com a minha interpretação. É vaidade.

Algum autor já lhe pediu desculpas?
Em Celebridade, o Gilberto Braga me disse lindamente: “Não tenho mais nada para escrever para a Corina”. Foi sinal de carinho e respeito dele, e eu entendi porque a história dela se fechou no capítulo 70 – e uma novela tem vários personagens para se desenvolver. Interpretar
é um trabalho de formiguinha. Quando não tem uma chance, você precisa cavar.

Sua personagem em América viveu uma redescoberta da própria beleza. Essa mudança influenciou sua auto-estima?
Comecei a novela quase seis quilos mais gorda, não sei dizer o porquê. Fui perdendo peso naturalmente. Sou uma mulher que está numa menopausa prolongada. Tinha mudado minha reposição hormonal e essa troca mexeu com meu peso. Poderia arrancar os cabelos como a maioria das mulheres que, quando engordam, se sentem horrorosas. Mas eu não. Fui lá e botei minhas gordurinhas dentro da personagem. Tive a sorte de o trabalho ser uma terapia.

Por que se sentiu desmotivada aos 50 anos?
Quando cai a ficha, você percebe que não está mais tão bonita, nem tão apetitosa. Dá uma sensação de fim de linha, de que não há mais nada para aprender. Tinha filhos (é mãe de Edson, 38, Viviane, 34, e Vanessa, 26), casa e marido, mas me sentia só. Depois da separação, foi difícil reverter o sentimento de perda. Fiquei desestruturada. Não foi uma depressão diagnosticada, nem tomei remédios. Sentia uma melancolia doída. Não como uma ferida aberta, mas um sentimento de solidão. Foi a época em que mais fumei. Meus amigos eram o cigarro, a música e o silêncio.

Como superou essa fase?
Através do trabalho. Comecei a me ver na tevê e percebi que tinha outras capacidades além da beleza estética. Me entreguei aos personagens. Não me preocupo com corte de cabelo, luz e maquiagem. Exercitei o desapego, me libertando da mocinha romântica, de traços meigos e ingênuos e carinha bonita. Sem perceber, eu tinha ficado aprisionada por essa imagem. É uma bênção descobrir outros talentos.