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As pernas bem torneadas, que mantém douradas à base de cremes autobronzeadores,
são resultado de 32 anos de dedicação à dança
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Música
Nem aí para as críticas

Aos 40 anos, Daniela Mercury lança novo disco, gosta de estar no controle da carreira, conta que aprendeu a lidar com os críticos e diz que ótima reputação é sinal de que não se fez
nada na vida
texto: clarissa monteagudo
foto: leandro pimentel
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Com voz enérgica, Daniela Mercury interrompe o burburinho dos assessores. Exige silêncio para se concentrar na entrevista. Dez pessoas se calam e deixam a sala. Mal a porta se fecha, ela se esvazia da postura de comandante para assumir pose de estrela e abre um daqueles sorrisos de capa de disco. A atitude espelha a maior característica da personalidade da cantora: o perfeccionismo levado ao extremo, como tudo na vida. “Não gosto de nada mais ou menos. Vivo sempre no máximo das emoções. Ou estou chorando, ou estou me acabando.”

O lançamento de Balé Mulato, seu último CD, é a prova mais recente dessa faceta. Daniela escolhe os figurinos, é autora de três faixas do disco, faz pesquisa musical e detalha todos os passos da produção. Até mesmo durante a entrevista a musa tenta manter o controle desviando o foco de outros assuntos para a música. Daniela gosta de emendar respostas cantarolando sucessos seus e de outros artistas.

Aos 40 anos, a cantora que domina seus passos não se importa com as críticas. “Se você tem uma ótima reputação é sinal de que não fez nada na vida. Quem faz, é amado ou odiado”, diz. E completa, rindo: “Depois de mais velho, a gente mesmo já destruiu a própria reputação e não precisa se preocupar”. O passar do tempo, ela garante, lhe trouxe mais leveza. Daniela aprendeu a rir de seus defeitos, como das crises de mau humor. “Não me escravizei por ser uma pessoa pública e vivo com minhas alegrias, tristezas, rompimentos e minha falta de sono. Seria a mesma pessoa se não fosse famosa.”

A única concessão que não gostaria de fazer à idade é perder o vigor físico de bailarina. As pernas bem torneadas, que mantém douradas mesmo nas temporadas na Europa à base de cremes autobronzeadores, são resultado dos 32 anos de dedicação à dança. “Não tenho medo de morrer. Acho um saco viver a vida eterna. Só não quero sentir dores no corpo. Bailarina tem dor a vida inteira.”

Devotada ao trabalho, Daniela diz que lhe falta tempo para lamentar a atual fase solteira. “Posso ficar dois ou três anos solteira. Às vezes, tenho um cachinho, depois termino. Estou solteira e sem grilo”, conta ela. Depois da maratona de divulgação do disco no Brasil, ela viaja a Roma para cantar para o papa no concerto de Natal do Vaticano. Depois, segue para uma semana de compromissos entre Espanha e Portugal. Foi na Europa que a carreira dela se ancorou nos últimos dez anos. A solidão nas turnês é compensada pela constante companhia dos filhos, Gabriel, 19, e Giovanna, 18, frutos do casamento com o engenheiro eletrônico Zalther Povoas. Desde crianças, acompanham a mãe nas viagens. Daniela nunca se sentiu ausente. “Tenho olhar vigilante e amoroso com meus filhos. Mãe demais estraga.” A cantora não titubeia ao enumerar seus acertos. Os erros, aprendeu a relevar. “A gente precisa rir da gente mesma. Tirar o peso. O caminho de curtir a vida é ter leveza.”