Lúcido de dar
inveja depois de 6 casamentos, 9 filhos (5 reconhecidos
e 4 assumidos por outros homens), uma porção
de presepadas e 75 anos, o fluminense de Murundu (município
de Campos) Jece Valadão vai contando suas peripécias
da época em que era o machão-mor do cinema
brasileiro. Fala, fala, e chega à fase atual,
em que, evangélico convertido há 10 anos,
uma aventura é deixar a esposa Vera Lúcia
em casa e viajar até Macapá para pregar
a palavra. Primogênito de 5 filhos de pais semi-analfabetos,
oriundos do campesinato, ele sofre com a tosse, o diabetes,
a visão, mas não perde a pose. “Ainda
sou machão.” No plano artístico,
fez uma participação em Bang Bang
como o bandido Joe Wayne. No teatro, todas
as terças está em cartaz com A Paixão
Segundo os Rodrigues, na qual interpreta conceitos
de Nelson Rodrigues e músicas de Lupicínio
Rodrigues. No cinema, onde computa, segundo suas contas,
mais de 100 filmes – seja como ator, produtor
ou diretor – está em fase de captação
para um último longa. E aguarda em casa, ao lado
de retratos de época e prêmios espalhados
pela parede, a publicação de sua biografia,
prevista para o próximo mês.
Como foi voltar às novelas?
Uma surpresa. Nem ligava mais de estar
esquecido. Meu último trabalho artístico
foi o filme Tieta do Agreste, há dez
anos. Esse retorno é mais para justificar a produção
do filme que tô fazendo. Não estava atrás
de nada e nem mesmo frustrado, pois já tenho
um trabalho realizado. Fiz uma participação
em A Diarista, a produção da
novela (Bang Bang) viu e o (diretor) Ricardo
Waddington me convidou.
Arrepende-se de ter
feito pornochanchadas?
Nunca fiz pornochanchada, que é
o sexo sem razão de ser. Fiz comédias
urbanas eróticas baseadas na literatura. Não
renego ou reprovo nada que fiz, mas não repetiria
certas coisas. Bebia um litro de uísque numa
sentada! O Jece Valadão morreu dez anos atrás
e eu renasci espiritualmente.
Até onde vai
sua vaidade?
Você tem todo direito de consertar
as mazelas que o tempo cria no corpo. Se eu tiver
que fazer plástica amanhã, farei. Não
faço plástica antecipada só para
não ficar velho. A pessoa tem de envelhecer
com dignidade. Com 60 anos, não pode querer
estar como 18. Nunca fiz plástica, mas acho
que tô começando a precisar no rosto.
Mas é plástica como correção.
O que pensa sobre os
metrossexuais?
É sinal dos tempos, o fim
do mundo. Não tenho nada contra, mas considero
uma agressão. Deus fez o homem para ser homem.
O metrossexual não é outra coisa senão
a falta de coragem de o homem assumir a feminilidade.
Faz alguma tarefa doméstica?
Nada. Não sei esquentar café,
acender fogão. Entro no chuveiro e, quando
saio, minha roupa, toalha, estão preparados
pela minha esposa. Todas (esposas) fizeram
isso. Às vezes, minha mulher não está
em casa e fico revirando tudo para achar uma cueca.
Mas já ajudou
a trocar fralda, dar banho nos filhos?
O quê?! Filho meu eu só
cuidava pronto. E raramente. Procurava compensar minha
falta com eles com bens, como passagem para Disney.
Estava mais preocupado com o meu bem-estar. Dei um
Fusca para meu último filho, aos 7 anos, só
para ele poder chamar os coleguinhas e mostrar o brinquedinho.
Errei muito.
Como se sente?
Sinto um arrependimento por ter
sido um pai ausente. Uma mágoa pelo fato de
meus filhos não terem por mim o amor que eu
tinha pelo meu pai. Meu pai foi a pessoa que mais
amei no mundo. Eu esperava meu pai voltar do trabalho
para tomar banho com ele no rio. Fim de semana a gente
pescava. Tinha uma ligação forte com
meu pai, mas não consegui fazer o mesmo com
meus filhos. Nunca fui de sair com filho para jogar
futebol.
Você chora?
Feito um bezerro desmamado! O meu
pai, então, lembro dele... de coisas que...
eu gostaria de ter feito por ele e não fiz.
Sou tão parecido com meu pai que, às
vezes, vou tomar banho, olho no espelho e levo um
susto. Meu pai morreu com 90 anos. Minha mãe,
com 98. Meu pai completaria dia três de outubro
100 anos. Chorei sozinho. Continuo achando que homem
não deve usar brinco. Mas chorar, deve.
O que era ser macho?
Usar a mulher. Antes, conquistar
uma mulher por dia era importante. Hoje, conquistar
a mesma mulher todos os dias é o que vale.
Continuo machão, impondo minhas regras. Não
sou machista, que usa a mulher como objeto de manipulação.
Hoje, se uma mulher me pedir, não bato nela.
A não ser que ela implore, porque aí
é fazer a vontade dela.
Já foi traído?
Claro. Basta ter mulher (sentada
ao seu lado está a esposa Vera Lúcia).
O seu caso é diferente, Vera! A Dulce Rodrigues
(irmã de Nelson Rodrigues) tenho certeza
de que não me traiu. Agora, a Vera Gimenez!?
Claro que me traiu, como eu a traí! Meu casamento
de 13 anos com a Vera foi movido pela paixão
até o sexto ano. Daí em diante foi uma
relação neurótica, que pelo meu
comodismo não acabou antes. Todas as vezes
que me separei só saí com a roupa
do corpo.