Reportagens  
“Você tem todo direito de consertar as mazelas que o tempo cria no corpo. Se eu tiver que fazer plástica amanhã, farei”,
diz ele
• • •
Carreira
O cafajeste hoje é evangélico

Jece Valadão, o eterno machão do cinema nacional, fez uma participação em Bang Bang, chora e se arrepende por ter sido um pai ausente e conta como a religião o transformou
texto: rodrigo cardoso
foto: piti reali
 Deixe aqui o seu comentário
 Envie esta matéria para um amigo
Lúcido de dar inveja depois de 6 casamentos, 9 filhos (5 reconhecidos e 4 assumidos por outros homens), uma porção de presepadas e 75 anos, o fluminense de Murundu (município de Campos) Jece Valadão vai contando suas peripécias da época em que era o machão-mor do cinema brasileiro. Fala, fala, e chega à fase atual, em que, evangélico convertido há 10 anos, uma aventura é deixar a esposa Vera Lúcia em casa e viajar até Macapá para pregar a palavra. Primogênito de 5 filhos de pais semi-analfabetos, oriundos do campesinato, ele sofre com a tosse, o diabetes, a visão, mas não perde a pose. “Ainda sou machão.” No plano artístico, fez uma participação em Bang Bang como o bandido Joe Wayne. No teatro, todas as terças está em cartaz com A Paixão Segundo os Rodrigues, na qual interpreta conceitos de Nelson Rodrigues e músicas de Lupicínio Rodrigues. No cinema, onde computa, segundo suas contas, mais de 100 filmes – seja como ator, produtor ou diretor – está em fase de captação para um último longa. E aguarda em casa, ao lado de retratos de época e prêmios espalhados pela parede, a publicação de sua biografia, prevista para o próximo mês.



Como foi voltar às novelas?
Uma surpresa. Nem ligava mais de estar esquecido. Meu último trabalho artístico foi o filme Tieta do Agreste, há dez anos. Esse retorno é mais para justificar a produção do filme que tô fazendo. Não estava atrás de nada e nem mesmo frustrado, pois já tenho um trabalho realizado. Fiz uma participação em A Diarista, a produção da novela (Bang Bang) viu e o (diretor) Ricardo Waddington me convidou.

Arrepende-se de ter feito pornochanchadas?
Nunca fiz pornochanchada, que é o sexo sem razão de ser. Fiz comédias urbanas eróticas baseadas na literatura. Não renego ou reprovo nada que fiz, mas não repetiria certas coisas. Bebia um litro de uísque numa sentada! O Jece Valadão morreu dez anos atrás e eu renasci espiritualmente.

Até onde vai sua vaidade?
Você tem todo direito de consertar as mazelas que o tempo cria no corpo. Se eu tiver que fazer plástica amanhã, farei. Não faço plástica antecipada só para não ficar velho. A pessoa tem de envelhecer com dignidade. Com 60 anos, não pode querer estar como 18. Nunca fiz plástica, mas acho que tô começando a precisar no rosto. Mas é plástica como correção.

O que pensa sobre os metrossexuais?
É sinal dos tempos, o fim do mundo. Não tenho nada contra, mas considero uma agressão. Deus fez o homem para ser homem. O metrossexual não é outra coisa senão a falta de coragem de o homem assumir a feminilidade.

Faz alguma tarefa doméstica?
Nada. Não sei esquentar café, acender fogão. Entro no chuveiro e, quando saio, minha roupa, toalha, estão preparados pela minha esposa. Todas (esposas) fizeram isso. Às vezes, minha mulher não está em casa e fico revirando tudo para achar uma cueca.

Mas já ajudou a trocar fralda, dar banho nos filhos?
O quê?! Filho meu eu só cuidava pronto. E raramente. Procurava compensar minha falta com eles com bens, como passagem para Disney. Estava mais preocupado com o meu bem-estar. Dei um Fusca para meu último filho, aos 7 anos, só para ele poder chamar os coleguinhas e mostrar o brinquedinho. Errei muito.

Como se sente?
Sinto um arrependimento por ter sido um pai ausente. Uma mágoa pelo fato de meus filhos não terem por mim o amor que eu tinha pelo meu pai. Meu pai foi a pessoa que mais amei no mundo. Eu esperava meu pai voltar do trabalho para tomar banho com ele no rio. Fim de semana a gente pescava. Tinha uma ligação forte com meu pai, mas não consegui fazer o mesmo com meus filhos. Nunca fui de sair com filho para jogar futebol.

Você chora?
Feito um bezerro desmamado! O meu pai, então, lembro dele... de coisas que... eu gostaria de ter feito por ele e não fiz. Sou tão parecido com meu pai que, às vezes, vou tomar banho, olho no espelho e levo um susto. Meu pai morreu com 90 anos. Minha mãe, com 98. Meu pai completaria dia três de outubro 100 anos. Chorei sozinho. Continuo achando que homem não deve usar brinco. Mas chorar, deve.

O que era ser macho?
Usar a mulher. Antes, conquistar uma mulher por dia era importante. Hoje, conquistar a mesma mulher todos os dias é o que vale. Continuo machão, impondo minhas regras. Não sou machista, que usa a mulher como objeto de manipulação. Hoje, se uma mulher me pedir, não bato nela. A não ser que ela implore, porque aí é fazer a vontade dela.

Já foi traído?
Claro. Basta ter mulher (sentada ao seu lado está a esposa Vera Lúcia). O seu caso é diferente, Vera! A Dulce Rodrigues (irmã de Nelson Rodrigues) tenho certeza de que não me traiu. Agora, a Vera Gimenez!? Claro que me traiu, como eu a traí! Meu casamento de 13 anos com a Vera foi movido pela paixão até o sexto ano. Daí em diante foi uma relação neurótica, que pelo meu comodismo não acabou antes. Todas as vezes que me separei só saí com a roupa
do corpo.