Entrevista  
Fotos: Alexandre Sant’anna
“Eu e meus filhos estamos ligados mais intensamente. Saio sempre com rádio e telefone celular, em qualquer lugar a gente está sempre se ligando”, diz Reginaldo
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Reginaldo Faria
‘‘Foi um renascimento’’
Um ano depois de passar 20 dias em coma, conseqüência de uma angioplastia malsucedida, o ator se diz vítima de erro médico, processa a clínica que o atendeu e fala de sua volta à tevê
texto: Clarissa Monteagudo
fotos: alexandre sant'anna

Reginaldo Faria não consegue enxergar outra metáfora, além de um renascimento, para explicar os últimos onze meses. No dia 29 de novembro, o ator sofreu uma parada cardíaca durante uma angioplastia – procedimento para desobstruir artérias do coração. Ficou 33 dias internado, dos quais 20 em coma. Hoje, enfrenta uma batalha judicial contra a Clínica São Vicente, no Rio, por acreditar ter sido vítima de um erro médico, que lhe rendeu traumas físicos e emocionais. A dolorosa recuperação do ator mobilizou a família. Reginaldo se mudou para a casa do filho, Marcelo Faria, onde recuperou a dicção perfeita, a agilidade dos movimentos das pernas e desenvolveu uma nova forma de encarar o cotidiano. Aos 68 anos, o ator acaba de participar de América e está no ar na reprise de Força de um Desejo. De férias na tevê, capta recursos para dois longas que planeja dirigir: Festa dos Libertos e a comédia Arraial, me Ajuda!. E volta ao ar na nova versão de Sinhá Moça, em 2006. Em um tom sensível e apaixonado, conta que reconstruiu a vida amorosa, após o fim do terceiro casamento com a cantora Rosa Ventura, 35, em outubro de 2004. Ao lado da administradora gaúcha Vânia Dotto Alves, 49, com quem está casado há um mês, o ator reencontra o equilíbrio e o prazer do cotidiano.

Em América você fez um caipira, um tipo diferente dos galãs de sua carreira. Isso reflete uma mudança?
Se eu posso falar em metáfora, foi um renascimento. Cheguei muito perto da morte. Eu fui do lado de lá e voltei. As pessoas sempre têm uma visão de que certos atores televisivos têm que ter postura do
galã, do homem poderoso. Compor o Adalberto com ternura, singeleza, foi uma ousadia em função da minha maturidade, não só profissional, mas de vida. Nunca tinha encontrado um personagem que pudesse dizer essas verdades puras. Consegui essa liberdade no texto da
Glória Perez.

É um ator mais completo hoje?
Depois de passar o que eu passei, estou mais aberto, tranqüilo e relaxado. Hoje vejo o quanto os outros estão sofrendo para chegar nesse ponto. Não digo que sou um ator maravilhoso, mas que sou maduro, eu sou. A vida é isso, você começa verde, amadurece e cai do pé depois de maduro. E acabou. Essa é a regra da natureza. Se eu não morri ali, vou morrer lá, mas pelo menos eu aprendi a não ser tão rigoroso e injusto comigo mesmo.

Seu novo casamento é fruto desse amadurecimento?
Eu não quero confundir carência com amor. Sei que não consigo viver sozinho, mas é preciso ser alguém muito especial para estar ao lado, senão teria me casado com outras pessoas com quem convivi. A Vânia não só me ajuda nessa solidão como me dá o amor que eu necessito. E eu retribuo. Estamos juntos desde maio, a gente se conheceu no Rio Grande do Sul, numa cidadezinha maravilhosa, chamada Santa Maria.

Qual a importância de tê-la a seu lado nesse momento?
Eu me sinto mais vivo, mais equilibrado. É muito triste acordar e ter a solidão do quarto. É muito bom estar com alguém do seu lado. Não é só o beijinho, o sexo e a paixão. Tem o companheirismo, a parceria, saber levar a relação de forma adulta e inteligente. É preciso discutir tudo, todas as idéias e problemas. Esse é o discurso do amor. Somar na discussão de todas as coisas.

Como tem sido a experiência de morar novamente com
seu filho?

Não perdemos a privacidade porque praticamente não dividimos muito o espaço. A casa é tão grande que eu quase não vejo o Marcelo. O problema seria se tivéssemos que ficar nos esbarrando.

Seu problema de saúde uniu mais a família?
Hoje a gente tem mais zelo um pelo outro. Eu e meus filhos (o diretor Régis Faria e os atores Marcelo e Carlos André) estamos ligados mais intensamente. Não é que o amor tenha ampliado, mas hoje existe mais dedicação. Saio sempre com rádio e telefone celular, em qualquer lugar a gente está sempre se ligando.

Por que quis processar a clínica?
Meu médico sugeriu que eu fizesse um cateterismo e mais nada. Já tinha passado por esse procedimento na época de Força de um Desejo. Fiz, saí andando e gravando novela. Dessa vez, fui ao hospital e eles começaram a querer fazer angioplastia (procedimento para desobstrução do vaso sangüíneo) e resolveram botar um stent (mola metálica que ajuda na circulação) sem me consultar. Porque, se falaram, eu estava inconsciente e não lembro de ter respondido.