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“Ninguém é mais cruel comigo do que eu mesma. Me exijo muito mais do que exijo dos outros. Perdôo tudo nos outros, mas não perdôo nada em mim’’, diz Lavínia Vlasak
Ex-modelo, ela não gostava da profissão: “Eu era paga para fotografar, desfilar e ficar quieta. E isso me angustiava”, diz
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A virada de Lavínia

Lavínia Vlasak completa 10 anos de carreira, troca a Globo pela Record, interpreta sua primeira protagonista e conta que em casa gosta de ser Amélia
texto: Mariana Kalil
fotos: Leandro Pimentel
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 Ensaio: a exuberância da nova musa da Record
“Ela tem o brilho especial e raro da grande estrela, a beleza da diva do cinema, a disciplina e a dedicação necessárias”, diz Tiago Santiago, autor de Prova de Amor
Legítima filhinha de papai – não há nada de pejorativo na afirmação –, Lavínia sempre foi a primogênita companheirona de Robert, o patriarca dos Vlasak, em programas ecléticos. De idas à oficina mecânica a finais de semana dedicados à pesca no litoral fluminense, lá estavam os dois, de mãos dadas, em mútua companhia. Partindo desta premissa, torna-se mais compreensível avaliar o choque do pai diante da postura irredutível da filha de 16 anos quando anunciou que sairia de casa para viver com um homem 11 anos mais velho – o ator Jorge Pontual. “Falei: ‘Pai, sinto muito, mas estou apaixonada e vou curtir a minha história’.” Treze anos se passaram, aquela história de amor acabou, outra começou e Lavínia lembra do episódio com a serenidade de quem aprendeu em 12 anos de análise a dar ao tempo o tempo que ele precisa para transformar momentâneas tormentas em lembranças. Essa história também é exemplo para Lavínia na hora de ilustrar
sua principal característica: a coragem de se jogar no abismo das novas paixões.

A última delas se chama Clarice, a heroína de Prova de Amor, a nova novela das 19h da Rede Record, que estreou na segunda-feira 24. Com jeito e cara de global, a trama vem garantindo média de 10 de Ibope e o segundo lugar na audiência para a emissora. Consentir em dar vida à personagem significou uma audácia semelhante àquela de 13 anos atrás. Dona de uma trajetória sólida na Globo, onde teve a oportunidade de viver papéis tão distintos como a rebelde Lia Mezenga, de O Rei do Gado, a maquiavélica Alice, de Força de um Desejo, e a socialite Estela, de Mulheres Apaixonadas, Lavínia Vlasak completa uma década de carreira em plena transformação.

A troca de emissora lançou a atriz de 29 anos no desafio de interpretar sua primeira protagonista. Tratava-se de um desejo antigo que a Globo, até então, não lhe havia proporcionado. “Qual ator não gostaria de protagonizar uma novela?”, pergunta. “Seria hipocrisia da minha parte dizer que não. Sinto como se estivesse reestreando na profissão”, diz a musa da Record. A saída da emissora carioca, ela jura, foi sem ressentimentos. “Sem raiva nem mágoas”, assegura, de olho no futuro. “Entrei em uma nova etapa e tenho certeza que continuarei sendo feliz na minha carreira, esteja onde estiver.”

Para Tiago Santiago, autor de Prova de Amor, Lavínia é a atriz ideal. “Ela tem o brilho especial e raro da grande estrela, a beleza da diva do cinema, a inflexão natural, o rosto expressivo, a emoção na dose perfeita, a disciplina e a dedicação necessárias”, elogia. Atingir essa excelência no mais alto grau é uma busca constante de Lavínia, algo que já custou à atriz uma série de gastrites. “Me cobro tanto que às vezes meu corpo reclama”, diz. “Sou extremamente perfeccionista. Ninguém é mais cruel comigo do que eu mesma. Me exijo muito mais do que exijo dos outros. Perdôo tudo nos outros, mas não perdôo nada em mim.”

A afirmação é corroborada por duas normas que regem sua vida – e que a fazem, pela primeira vez, alterar o tom suave e quase inaudível da voz para assumir a posição de porta-voz de si própria. “Tenho poucos lemas na vida – e esses lemas servem para tudo”, anuncia. “Um deles é: já que você se predispõe a fazer, o mínimo que se espera é que seja bem feito. O outro: bom não é ótimo. Essa história de que ‘ah, tá bom’ não existe. Tem que estar ótimo.” São as mesmas regras que ditam as relações amorosas. Se não forem 100%, Lavínia prefere a companhia do cachorro Ataulfo, de uma boa pizza e do controle remoto.

Não é o caso no momento. Há cinco anos, namora o economista Celso Colombo Neto, de 28 anos. A união foi oficializada no ano passado, quando passaram a viver sob o mesmo teto – um confortável apartamento no Leblon. Desfrutam de simples prazeres juntos: jogam buraco na companhia de uma garrafa de vinho, Celso prepara para a atriz o melhor macarrão à carbonara que ela jura já ter experimentado na vida e assistem a uma coleção de DVDs. Nesses momentos, Lavínia gosta de deitar no colo do namorado. Quando a história pede lágrimas, ela derrama uma enxurrada. “Na hora que o filme acaba, eu levanto com uma poça de água no peito. O Celso me olha e brinca: ‘Ô, meu Piscinão de Ramos...’”, diverte-se. “Adoro dormir e acordar junto da pessoa que eu amo. Gosto de cuidar dela. Em casa, gosto de ser Amélia”, revela. O casamento vai bem e, em Prova de Amor, a personagem Clarice mexe com o instinto maternal da atriz. Mas ela sabe refreá-lo, está segura de que o momento para ser mãe não é agora. “Estou numa fase egoísta”, diz. “Quero tempo para priorizar minha profissão.”

Lavínia Vlasak, porém, não quer ser a mocinha para sempre. Ela não pretende mascarar a passagem do tempo com cirurgias plásticas. Ex-modelo, não gostava da profissão. “Eu era paga para fotografar, desfilar e ficar quieta. E isso me angustiava”, lembra. A atriz diz que as rugas farão parte da sua história – e com eles virão personagens cada vez mais sábios e densos. Deseja personificar a matriarca e a avó com todas as marcas que as personagens exigirem. A estréia como protagonista na Record permitirá que avalie (e seja avaliada) se tem vocação para que a vida profissional lhe reserve uma longa trajetória de papéis principais pela frente.

Make-up: Edna Soares; Agradecimentos: Espaço Ásia (Recreio dos Bandeirantes, 14002), Bob Store e Cristiane Zveiter