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Música
Abençoados pelo Rei

O Jota Quest volta à cena com Até Onde Vai, rebate a acusação de oportunismo pela regravação de “Além do Horizonte”, de Roberto Carlos, e diz que a versão da banda para a canção foi aprovada por ele
texto: Mariana Kalil
fotos: leandro pimentel
Flausino (primeiro à esq.), Márcio Buzelin (segundo em sentido horário), PJ e Paulinho Fonseca. Dos cinco, apenas Flausino
ainda não é pai
Três anos se passaram desde o lançamento de Discotecagem Pop Variada, em 2002. O disco foi para a lojas, e o Jota Quest enfiou o pé na estrada. Só interrompeu as viagens para o lançamento do MTV ao Vivo em 2003. A turnê prosseguiu até abril deste ano. Foi quando Rogério Flausino (voz), Marco Túlio Lara (guitarra), Marcio Buzelin (teclado), PJ (baixo) e Paulinho Fonseca (bateria) sentaram a poeira em Belo Horizonte para compor o novo trabalho. Voltaram à clausura do estúdio de gravação da banda e de lá trouxeram as 13 canções inéditas de Até Onde Vai, o sexto CD.

São ao todo 14 faixas, incluindo a regravação de “Além do Horizonte”, um clássico de Roberto e Erasmo Carlos da década de 70 – escolhida pela banda como música de trabalho. Oportunistas? “A gente tinha certeza que nos chamariam assim, mas não podíamos perder essa chance”, zomba Flausino, dando de ombros à crítica. “É mais importante fazer algo que atenda aos nossos anseios do que se preocupar com o que os outros vão dizer”, resume Marco Túlio. “Se não tivéssemos canções próprias, poderia ser um problema. Mas não é o nosso caso”, finaliza Marcio Buzelin.

Virada esta página, resta saber se Roberto e Erasmo Carlos ouviram e gostaram da homenagem. Gostaram – e muito. Roberto recebeu o Jota Quest a pedido da própria banda. O grupo queria sentir de perto a franqueza do cantor. “Você ouviu nossa regravação?”, perguntou Flausino. “Pô, bicho... Claro que ouvi”, respondeu Roberto. “E gostou?”, insistiu o vocalista. “Pô, bicho... Jota Quest não tem erro, né?”, devolveu o rei. Flausino usa toda sua veia cômica para lembrar do episódio e faz uma imitação irrepreensível da voz do Rei.

De óculos escuros dentro da sala de reuniões do Hotel Sheraton Barra, no Rio, Flausino recosta-se na cadeira estofada e relembra o encontro. “Juro que pensei: ‘Será que esse cara está falando sério’?”, conta. “Só posso acreditar que depois deste aval o disco está totalmente abençoado.” Até Onde Vai inclui parcerias novas e antigas, como o rapper mineiro Evandro MC, Lulu Santos, Nando Reis e a banda mineira Tianastácia. Em 10 anos de Jota Quest, Flausino se mostra mais receptivo a intervenções em suas letras. “Eu era muito vaidoso, estou mais modesto”, admite. “Se você sabe ouvir, as intervenções são sempre para o bem.”

Nascidos, criados e residentes em Belo Horizonte, nenhum se imagina trocando Minas Gerais por qualquer outro Estado. Do grupo, apenas Flausino ainda não é pai. A característica de viver na estrada, garantem, não atrapalha a relação familiar. “Claro que quando seus filhos nascem, estar longe de casa fica mais difícil”, avalia Marcio Buzelin. “Mas tudo tem um preço e estar na estrada é nossa opção”. Bem-humorado, Marco Túlio sintetiza o espírito reinante no Jota Quest – e prefere rir do alto preço a pagar. “Quando passo 10 dias em casa, minha mulher me olha atravessado e diz: ‘Vai viajar, vai...’”, conta ele, puxando o coro para a gargalhada geral da mineirada.