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Na última proposta de acordo, Collor ofereceu R$ 12 mil mensais: “Da noite para o dia, ela ficou simplesmente sem nada”, diz o decorador Carlos Ostronoff,
amigo do casal
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O Impeachment de Rosane

Depois de 21 anos de casamento, a ex-primeira-dama recebeu de surpresa, na mansão de Maceió, 101 caixas com seus pertences, teve cartões de crédito e cheques cancelados, virou evangélica e agora briga para ter 50% do patrimônio de Fernando Collor
Texto: Rodrigo Cardoso
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Ana Paula Paiva /  Piti Reali
Collor na sua casa em São Paulo, onde Rosane não pode mais entrar. “Tudo o que era dela – roupas, bolsas, sapatos – e estavam nas casas de São Paulo, Brasília e Miami, o Fernando encaixotou e mandou para Maceió”, conta uma amiga dela
Era o mês de abril e fazia 15 dias que Fernando Collor não aparecia na mansão do bairro de Murilópolis, em Maceió. Rosane Collor estava na casa da irmã, Rosânea, quando seu celular tocou. Do outro lado da linha, Ana, a empregada do casal, despachou rapidamente a novidade:

– Dona Rosane, tem um caminhão da Granero aqui. Chegaram
caixas para a senhora vindas de São Paulo. E são muitas caixas. Cento e uma!

Rosane voou para casa, viu as caixas e ligou imediatamente para a residência que o casal mantinha em São Paulo. Miguel, o copeiro da mansão alugada no bairro do Morumbi, transmitiu um recado tão duro quanto irônico:

– O patrão tinha dado essa ordem: de encaixotar tudo e não avisar nada. Era uma surpresa que o patrão estava fazendo para a madame – disse, informando ainda que, a partir daquele momento, Rosane estava proibida de entrar na residência do Morumbi.

“Tudo o que era de Rosane – roupas, bolsas, sapatos – e estavam nas casas de São Paulo, Brasília e Miami, o Fernando encaixotou e mandou para ela em Maceió”, conta uma confidente da ex-primeira-dama que acompanhou toda a separação desde o primeiro dia. “Rosane caiu em desespero, começou a chorar, não entendia porque ele havia feito aquilo. Ele praticamente a expulsou.” Pior: segundo esta pessoa, Collor devolveu os pertences de Rosane menos as jóias.

Sete meses sem se falar

Depois de 21 anos convivendo juntos na alegria (da eleição para a Presidência da República, das viagens ao redor do mundo e de um casamento folclórico no Tahiti), na tristeza (do impeachment, de uma gravidez interrompida e de dois insucessos num tratamento de fertilização) e na doença (uma crise de depressão) foi assim, avisada pelo telefone pelos empregados, que Rosane Malta Collor de Mello, 40 anos, soube que seu casamento com Fernando Affonso Collor de Mello, 56, chegara ao fim. Na próxima semana se completarão sete meses que Guidu e Quinha, como se tratavam na intimidade nos tempos da paixão, conversam apenas por meio de seus advogados.

A turbulenta separação pegou os amigos de surpresa. A personal stylist Beth Szafir recorda a harmonia do casal. “Fernando era um príncipe com ela e em contrapartida ela o tratava superbem. Nunca vi nenhuma amiga minha, nem família, ninguém ter tanta consideração pelo outro”, diz. “Então, quase caí de costas quando soube. Não entendi nada e continuo não entendendo.” Talvez por isso, Rosane tenha acreditado que esta briga, apesar do gesto espetaculoso de Collor, seria passageira. “Ela deixou vários recados no celular de Fernando. Dizia: ‘Vamos terminar como começou: de uma forma bonita. Pelos 21 anos de relacionamento, me dê o direito de pelo menos uma conversa’”, conta uma pessoa próxima a Rosane.

Compartilhando da esperança inicial de Rosane, muitos amigos e parentes tentaram interceder. O decorador paulista Carlos Ostronoff, amigo do casal há seis anos, foi um deles. “Tentei ligar para o Fernando”, conta. “Não queria fazê-los voltar, mas uma intermediação para acabar com esse clima. Ligava, falava com assessores dele, mas Fernando não me atendeu mesmo.”

Duas sobrinhas prediletas do ex-presidente foram mais incisivas na abordagem. Rafaela e Gabriela, uma filha da irmã e outra filha do irmão de Rosane, foram ao prédio da Gazeta de Alagoas, o jornal da família Collor, em Maceió. Saíram de lá chorando, sem nem terem sido recebidas pelo tio. Gabriela ainda escreveu uma carta, colocou-a dentro de um envelope cor-de-rosa e pôs por baixo da porta do apartamento do primo Arnon, onde Fernando se encontrava. “Gabriela falava do amor que ele tinha por ela, do carinho e respeito que ela sempre teve por Fernando”, conta uma amiga do casal. “Dizia que a tia estava mal e pedia que, pelo menos, ele atendesse as ligações dela.”

Na verdade, há pelo menos dois anos a relação entre Fernando e Rosane Collor vinha se desgastando. Além dos insucessos nas tentativas de gravidez que deixaram à ex-primeira-dama um pouco deprimida, Rosane, como conta uma fonte ligada a ex-primeira-dama, irritava-se com o fato de o ex-marido querer ostentar um padrão de vida que não tinha mais. “Ela brigava muito com ele por causa disso. Ele usava indevidamente cartões de crédito e deixava de pagar funcionários. Mandou pintar a casa de São Paulo e não pagou o pintor. Mas queria que a Rosane só usasse do melhor”, conta. “Ela ficava muito nervosa com isso. A Rosane queria ter uma vida mais dois pés no chão”, confirma o decorador Ostronoff.

Pacto Nupcial

Chateou muito Rosane o fato de Collor ter vendido, há cerca de dois anos, a residência do casal em Miami e “não ter dado a chance dela ir na casa se despedir”, como relatou um familiar. Mas a crise se instalou de vez após a morte da mãe de Rosane, em maio de 2004. Ela entrou numa depressão que a fez perder 8 quilos e lhe tirava a vontade de sair do quarto. “Rosane começou a rejeitar o Fernando. Evitava o contato. Dizia que ele era um traidor, um monstro, que tudo que falavam dele era verdade, que não tinha mais admiração por ele”, relata uma confidente de Rosane.

Antes da missa de sétimo dia da mãe de Rosane, Collor mostrou preocupação com o estado da mulher ao falar por telefone com os decoradores Carlos Ostronoff e Fernando Rodrigues Alves, que estavam indo para Maceió. “É bom vocês virem mesmo. Quem sabe a Rosane se anima, porque ela não está saindo do quarto”, disse. “Nós fomos e conseguimos tirá-la do quarto”, diz Ostronoff. Recuperada do luto, Rosane não abandonou a idéia de se separar. Antes de Fernando completar 55 anos, em agosto do ano passado, parentes dela disseram, numa conversa no escritório da mansão do ex-presidente, em Maceió, que queriam discutir a partilha dos bens. “Não quero me separar. Ela é a mulher da minha vida, está nessa fase depressiva, mas não quero me separar de jeito nenhum”, teria afirmado Collor, segundo o relato de uma pessoa ligada à família. A um desses parentes, o ex-presidente apresentou outro motivo para demovê-la da idéia: “Ela não tem direito a nada”, contou. “No dia em que nos casamos, ela e o pai dela assinaram um pacto abrindo mão de tudo o que eu tivesse. Vou dar a ela o que eu quiser.”

Um dos parentes pediu uma cópia desse documento e mandou chamar imediatamente Rosane, que se encontrava no quarto. “Diga.
O que é?”, falou ela, já no escritório. Fernando confirmou o pacto, Rosane negou e começou a chorar: “Não é possível que você que você fez uma barbaridade dessa, uma monstruosidade comigo. Que pacto é esse?”. A pessoa próxima de Rosane garante que ela desconhecia o teor do documento revelado pelo ex-presidente: “Ela foi casar, na hora assinou e não leu nada. Achou que fosse separação de bens – o que tinham antes do casamento seria de cada um e o que construíssem juntos 50% para cada”.