Entrevista  
“Adoro levar meu filho ao estádio de futebol e acho que pago caro quando compro aquele cachorro-quente de um R$ 1 porque não vale”, diz Atala
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Alex Atala
‘‘Levo meus filhos ao McDonald’s’’
Ele foi punk, DJ, pintou paredes na Europa, descobriu a cozinha por acaso e, considerado o melhor chef de São Paulo, diz que tem prazer em comer coisas simples
texto: jonas furtado
fotos: piti reali

Ele apresenta programa de televisão, já desfilou para o estilista Ricardo Almeida e está na lista dos 25 homens mais sexy do Brasil. Apesar de todas as credenciais de celebridade, o verdadeiro lugar do paulistano Alex Atala, 37 anos, é na cozinha. Apresentador do Mesa para Dois, do canal a cabo GNT, Atala foi recentemente eleito o melhor chef de São Paulo pelo trabalho à frente do seu conceituadíssimo e badalado restaurante D.O.M. – onde um jantar sem vinho não sai por menos de R$ 100 por pessoa e algumas refeições, como o menu-degustação, composto por oito pratos, podem ultrapassar os R$ 200. Ex-punk e ex-DJ do Rose Bom Bom (boate ícone da noite paulistana dos anos 80), Atala tem três filhos: Pedro, 11 anos, de seu primeiro casamento, e os gêmeos Joana e Tomás, de 3 anos, da relação com a estilista Márcia Lagos, sua mulher há seis anos. Na sexta-feira 30, o chef dará uma das aulas mais concorridas do Boa Mesa, tradicional evento gastronômico que acontece até 1º de outubro, em São Paulo.

Cozinhar é uma arte?
Cozinhar é muita coisa, trabalhar é outra. Fazer comida e servir implica uma tremenda generosidade. Você se entrega para o prazer das pessoas, é muito prazeroso. Trabalhar com cozinha é outro mundo.

Quais são as diferenças?
Cozinhar implica praticamente só prazer e a possibilidade de uma frustração. Quando você está atuando profissionalmente na cozinha, você sofre duas pressões. A primeira é pela perfeição: ficar bom ou muito bom é só a sua obrigação. A segunda é a do tempo: a pessoa não veio assistir a um espetáculo, ela veio para comer, e a fome e o mau humor estão muito próximos. As pessoas vêm com fome, uma expectativa alta, e você tem que servir uma comida muito boa e muito rápido. Multiplique isso pelo número de mesas, pelo de pessoas e pratos que elas vão experimentar, e você vai ver que isso é um ponto de tensão absurda. Essa tensão rouba muito a beleza de cozinhar.

Hoje você é uma celebridade. Essa exposição é boa para divulgar o chef Alex Atala?
Tenho um duplo sentimento com essa coisa de ter virado um personagem. O que implica a palavra celebridade não me é bem-vindo. Mas foi muito prazeroso, por exemplo, desfilar para o (estilista) Ricardo Almeida. Essas ações tem o ônus e o bônus. O reconhecimento profissional é bônus. O lado celebridade é mais ônus do que bônus. O excesso de exposição não me encanta. Não é legal também ter uma imagem distorcida do que você é e do que você faz todo dia. Infelizmente acho que acabo externando uma riqueza que não tenho. As pessoas acham que o restaurante é uma fonte de milhões, e não é. É um negócio como outro qualquer, não é mais importante nem mais rentável do que uma loja.

Como se interessou por cozinhar?
Minha história é nada ortodoxa. Era garotão, tinha 19 anos e trabalhava como DJ em São Paulo para viver. Juntei uma grana e fui para a Europa. No meio da viagem meu dinheiro acabou, e eu queria ficar. Comecei a pintar paredes. Mas, para conseguir um visto, tinha que fazer um curso e resolvi fazer uma escola de cozinha porque tinha um amigo que também fazia. Atirei no que vi e acertei no que não vi.

O que gosta de comer no dia-a-dia?
A boca é um instrumento do cozinheiro. Como de tudo e tenho um tremendo prazer em comer a coisa mais simples. Adoro levar meu filho ao estádio de futebol e acho que pago caro pra caramba quando compro aquele cachorro-quente de um R$ 1 porque ele não vale R$ 1. O pão é ruim, a salsicha é ruim. Mas é um tremendo prazer comer um hot-dog ruim e caro com meu filho no estádio. É pelo momento. Prefiro mil vezes comer uma comida ruim com quem me dá prazer a comer bem com um bando de chatos. Comer não é só o que está no prato, é um momento de prazer e implica muito mais do que a boca, é o que está em volta.