13 de março de 2000
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Testemunhas do Século

Isaías Golgher, 94 anos
Um historiador do tempo das utopias

Ele ouviu os primeiros discursos de Lênin pelo rádio, fugiu dos romenos depois de torturado e trouxe os primeiros textos completos de Marx para o Brasil

Leonardo Coutinho

Fotos:WashingtonAlves
“Eu não posso parar. Sou um sujeito histórico e sigo no movimento das engrenagens do tempo”, diz Isaías Golgher

Dezembro de 1924. Um jovem judeu de 19 anos desembarcou no porto do Rio de Janeiro, foragido da perseguição policial em seu país. Carregado de idealismo e expectativas, Isaías Golgher chegou em busca de asilo político, depois de ter militado na luta pela libertação da Bessarábia (atual Moldova), que havia sido ocupada pela Romênia em 1917. Começou assim sua relação com o Brasil.

Formado em História pela universidade francesa de Sorbone, ele cultivou o inabalável gosto pelos estudos. Uma paixão que pode ser traduzida em dezenas de livros e ensaios e na incrível capacidade de ler em 15 idiomas –, incluindo até a escrita cuneiforme, criada na Antigüidade pelo povo sumério, há cerca de 10 mil anos. Para isso, ele visitou várias vezes a cidade de Haifa em Israel, na década de 60. Aos 94 anos, radicado em Belo Horizonte, Golgher se apresenta como um protagonista de uma era de incertezas e utopias.

Em 1917, com 12 anos, Golgher se reuniu com acadêmicos e ativistas políticos para ouvir, pelo rádio de galena, o líder revolucionário Vladimir Lênin. Eram os primeiros discursos que antecederam a revolução encabeçada pelo líder socialista. Foi assim que recebeu a notícia do fim do império russo e da criação da União Soviética. Era a vitória dos bolcheviques – como eram conhecidos os revolucionários. Alguns meses após a tomada do poder pelos comunistas, Golgher viu as tropas romenas marcharem sobre seu país. Empolgados pelo ideal revolucionário, ele e os demais estudantes e intelectuais da Bessarábia iniciaram um movimento armado contra os invasores. Eles acreditavam que, por lutarem em defesa da revolução, seriam apoiados pelo poder central comunista em Moscou. A ajuda não chegou e as prisões e massacres foram cada vez mais intensos.

Fotos: Reprodução
Isaías Golgher visita a cidade de Haifa, em Israel, em 1962

Em 1924, foi preso pelo aparelho militar romeno, a Securatate. Nas mãos dos militares, foi espancado e torturado diante de seus familiares. Os policiais romenos optavam pela tortura “pública” para amedrontar e chantagear as famílias das vítimas. Solto, rumou à América do Sul. O Brasil foi escolhido pelas notícias que partiam daqui e percorriam o mundo. “Nós, na Rússia, achávamos que o Brasil caminhava para o comunismo”, afirma. No Rio de Janeiro, Isaías Golgher foi hospedado por um primo. A nova terra que ele encontrou, após dois meses de viagem, era totalmente diferente.

Os primeiros meses no País foram de isolamento e estudo. O exercício que mais lhe ajudou no aprendizado do idioma foi a tradução de textos marxistas para o português. Golgher foi o primeiro a trazer os textos completos de Karl Marx para o Brasil. Até então, apenas os militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) tinham acesso a fragmentos e artigos publicados na Europa. Mais familiarizado com a língua, passou a publicar artigos em jornais e revistas ligadas ao partido. Nos anos 30, com o surgimento do grupo de direita da Ação Integralista, que iniciou uma campanha contra os comunistas, foi perseguido, mesmo não sendo filiado ao PCB. Percebeu, então, que o Brasil passava por período de perseguição aos comunistas e judeus. Duplamente segregado, ele e sua mulher, Suzana, partiram para a França, onde iniciou seus estudos acadêmicos.

Fotos: Reprodução
Ao lado do filho Romain, a mulher Suzana, uma sobrinha, a cunhada e o irmão Isaac, em 1952

De volta ao País, após a Segunda Guerra Mundial, radicou-se em Belo Horizonte, onde vive até hoje. Em 1950, Golgher encontrou um novo rumo para seu trabalho. A pedido de um amigo americano, que pesquisava a presença dos judeus no Nordeste do Brasil, o historiador começou a vasculhar o Arquivo Público Mineiro. Não encontrou uma linha sequer que ajudasse no trabalho do colega, mas impressionou-se com os documentos que relatavam a história de Minas. Decidiu pesquisar diversos arquivos em Portugal, Holanda, Espanha, França e Inglaterra, onde recolheu uma rica base de dados. Apaixonado pelo tema, escreveu Guerra dos Emboabas, um dos clássicos da história de Minas.

A obra retrata um dos primeiros levantes da história do Brasil contra o domínio da coroa portuguesa, ocorrido no princípio do século XVIII. “O sentimento de liberdade demonstrado pelo povo de Minas remontava à experiência dos primeiros meses de vitória da revolução russa, quando cada pessoa passou a ser um grajdanin (cidadão)”. Todas as manhãs, ele trabalha em seu escritório no centro de Belo Horizonte. A rotina continua inalterada, mesmo depois da morte de sua mulher, em julho de 1997. Incansável, ele colabora com jornais locais e segue na produção de seus ensaios. O mais recente, publicado no final do ano com o título O Anticomunismo do Comunismo Chinês, faz uma reflexão sobre os 50 anos da Revolução Chinesa. “Eu não posso parar. Mais que um historiador, sou um sujeito histórico. Sigo no movimento das engrenagens do tempo.”

 

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