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Testemunhas do Século
Isaías
Golgher, 94 anos
Um
historiador do tempo das utopias
Ele ouviu
os primeiros discursos de Lênin pelo rádio, fugiu dos romenos depois
de torturado e trouxe os primeiros textos completos de Marx para
o Brasil
Leonardo Coutinho
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Fotos:WashingtonAlves
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“Eu não posso parar. Sou um sujeito
histórico e sigo no movimento das engrenagens do tempo”, diz
Isaías Golgher
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Dezembro de
1924. Um jovem judeu de 19 anos desembarcou no porto do Rio de Janeiro,
foragido da perseguição policial em seu país. Carregado de idealismo
e expectativas, Isaías Golgher chegou em busca de asilo político,
depois de ter militado na luta pela libertação da Bessarábia (atual
Moldova), que havia sido ocupada pela Romênia em 1917. Começou assim
sua relação com o Brasil.
Formado em
História pela universidade francesa de Sorbone, ele cultivou o inabalável
gosto pelos estudos. Uma paixão que pode ser traduzida em dezenas
de livros e ensaios e na incrível capacidade de ler em 15 idiomas
–, incluindo até a escrita cuneiforme, criada na Antigüidade pelo
povo sumério, há cerca de 10 mil anos. Para isso, ele visitou várias
vezes a cidade de Haifa em Israel, na década de 60. Aos 94 anos,
radicado em Belo Horizonte, Golgher se apresenta como um protagonista
de uma era de incertezas e utopias.
Em 1917, com
12 anos, Golgher se reuniu com acadêmicos e ativistas políticos
para ouvir, pelo rádio de galena, o líder revolucionário Vladimir
Lênin. Eram os primeiros discursos que antecederam a revolução encabeçada
pelo líder socialista. Foi assim que recebeu a notícia do fim do
império russo e da criação da União Soviética. Era a vitória dos
bolcheviques – como eram conhecidos os revolucionários. Alguns meses
após a tomada do poder pelos comunistas, Golgher viu as tropas romenas
marcharem sobre seu país. Empolgados pelo ideal revolucionário,
ele e os demais estudantes e intelectuais da Bessarábia iniciaram
um movimento armado contra os invasores. Eles acreditavam que, por
lutarem em defesa da revolução, seriam apoiados pelo poder central
comunista em Moscou. A ajuda não chegou e as prisões e massacres
foram cada vez mais intensos.
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Fotos: Reprodução
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Isaías Golgher visita a cidade de Haifa,
em Israel, em 1962
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Em 1924, foi
preso pelo aparelho militar romeno, a Securatate. Nas mãos dos militares,
foi espancado e torturado diante de seus familiares. Os policiais
romenos optavam pela tortura “pública” para amedrontar e chantagear
as famílias das vítimas. Solto, rumou à América do Sul. O Brasil
foi escolhido pelas notícias que partiam daqui e percorriam o mundo.
“Nós, na Rússia, achávamos que o Brasil caminhava para o comunismo”,
afirma. No Rio de Janeiro, Isaías Golgher foi hospedado por um primo.
A nova terra que ele encontrou, após dois meses de viagem, era totalmente
diferente.
Os primeiros
meses no País foram de isolamento e estudo. O exercício que mais
lhe ajudou no aprendizado do idioma foi a tradução de textos marxistas
para o português. Golgher foi o primeiro a trazer os textos completos
de Karl Marx para o Brasil. Até então, apenas os militantes do Partido
Comunista Brasileiro (PCB) tinham acesso a fragmentos e artigos
publicados na Europa. Mais familiarizado com a língua, passou a
publicar artigos em jornais e revistas ligadas ao partido. Nos anos
30, com o surgimento do grupo de direita da Ação Integralista, que
iniciou uma campanha contra os comunistas, foi perseguido, mesmo
não sendo filiado ao PCB. Percebeu, então, que o Brasil passava
por período de perseguição aos comunistas e judeus. Duplamente segregado,
ele e sua mulher, Suzana, partiram para a França, onde iniciou seus
estudos acadêmicos.
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Fotos: Reprodução
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Ao lado do filho Romain, a mulher Suzana,
uma sobrinha, a cunhada e o irmão Isaac, em 1952
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De volta ao
País, após a Segunda Guerra Mundial, radicou-se em Belo Horizonte,
onde vive até hoje. Em 1950, Golgher encontrou um novo rumo para
seu trabalho. A pedido de um amigo americano, que pesquisava a presença
dos judeus no Nordeste do Brasil, o historiador começou a vasculhar
o Arquivo Público Mineiro. Não encontrou uma linha sequer que ajudasse
no trabalho do colega, mas impressionou-se com os documentos que
relatavam a história de Minas. Decidiu pesquisar diversos arquivos
em Portugal, Holanda, Espanha, França e Inglaterra, onde recolheu
uma rica base de dados. Apaixonado pelo tema, escreveu Guerra dos
Emboabas, um dos clássicos da história de Minas.
A obra retrata
um dos primeiros levantes da história do Brasil contra o domínio
da coroa portuguesa, ocorrido no princípio do século XVIII. “O sentimento
de liberdade demonstrado pelo povo de Minas remontava à experiência
dos primeiros meses de vitória da revolução russa, quando cada pessoa
passou a ser um grajdanin (cidadão)”. Todas as manhãs, ele trabalha
em seu escritório no centro de Belo Horizonte. A rotina continua
inalterada, mesmo depois da morte de sua mulher, em julho de 1997.
Incansável, ele colabora com jornais locais e segue na produção
de seus ensaios. O mais recente, publicado no final do ano com o
título O Anticomunismo do Comunismo Chinês, faz uma reflexão sobre
os 50 anos da Revolução Chinesa. “Eu não posso parar. Mais que um
historiador, sou um sujeito histórico. Sigo no movimento das engrenagens
do tempo.”
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