13 de março de 2000
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Negócios

O fiel rebanho de Robério de Ogum

O vidente que ficou famoso como conselheiro de Wanderley Luxemburgo e por acertar previsões políticas chegou a receber eletrochoques para tratar as visões que tinha e hoje ganha dinheiro como pecuarista e produtor de leite

Cesar Guerrero,
de Tietê (SP)

Fotos:Rogerio Albuquerque
“Eu sei a hora certa de comprar ou vender gado”, afirma Robério de Ogum, que tem 1,5 mil cabeças da raça limousin. “Sou um empresário de visão.”

Flick de Ouro. Este é o nome do bezerro campeão da exposição agropecuária Expocorte 1997. Como de costume nessas ocasiões, o proprietário orgulhoso posou sorridente ao lado do animal na entrega do prêmio. O criador em questão é Robério Alexandre Bavilone, 45 anos, dono de uma fazenda de 1.137 hectares em Cáceres, Estado de Mato Grosso, e outra de 169 hectares em Tietê, no interior de São Paulo. Mas a pecuária não é sua atividade principal. Ele ficou conhecido em todo o Brasil como Robério de Ogum, o místico que orienta espiritualmente o técnico Wanderley Luxemburgo.


Robério não é criador de carteirinha, do tipo que vai a todas exposições de gado. Mas tem motivos para se orgulhar de seus feitos nessa área. Só na fazenda Ilê Megê, na região de Cáceres, noroeste de Mato Grosso, possui rebanho com 1,5 mil cabeças da raça limousin, uma das mais nobres para corte. Uma fêmea premiada dessa raça pode custar até R$ 150 mil. A propriedade em São Paulo tem outra atribuição: a produção de leite como matéria-prima para uma pequena fábrica de iogurte e de doce de leite. “É tudo feito com leite tipo A de vacas holandesas premiadas”, diz Robério, que tem 220 vacas para a produção. “Temos capacidade para processar mil litros de leite por dia”, diz.


O gosto para lidar com gado é uma herança de família. O pai de Robério, Alexandre Bavilone, era um próspero pecuarista da cidade de Itápolis, no interior de São Paulo. “Eu gostava muito de cuidar dos animais”, lembra. Outro legado da infância foi a religiosidade. “A minha família era católica fervorosa”, conta Robério. “Fui coroinha e aos 13 anos já estudava para ser padre”, diz.


“Fui coroinha e aos 13 anos já estudava para ser padre”, diz

Robério deu os primeiros passos como vidente aos 15 anos, época em que começou a ter visões no seminário Santo Antônio, na cidade de Agudos, no interior de São Paulo. “Eu via padres que não existiam no plano físico”, afirma. Ele acordava no meio da noite aos gritos. “Sentia que alguém puxava o meu cabelo”, lembra. As visões, cada vez mais freqüentes, começaram a perturbar o sono dos outros seminaristas, o que acabou irritando os padres. Robério foi obrigado a deixar o seminário.


Em casa, as visões continuaram. A família de Robério optou pela internação dele no hospital psiquiátrico de Marília, no interior de São Paulo. O rapaz passou dias numa sala vazia tomando eletrochoques e sedativos. “Só depois que eu deixei a clínica é que eu descobri que não era uma doença, e sim um dom.” Foi iniciado em um centro de umbanda e descobriu que seu santo era Ogum, o orixá que corresponde a São Jorge na religião católica. A partir daí, sua família passou a apoiá-lo.

Mediunidade é a palavra preferida de Robério para definir sua capacidade de antever os fatos. Sem usar qualquer tipo de ornamento, ele franze a sobrancelha, abaixa a cabeça e faz uma oração. Depois de alguns segundos de meditação, dispara, com a voz sempre rouca, uma série de revelações. Foi assim que previu de uma só vez a vitória do ex-presidente Tancredo Neves sobre Paulo Maluf no Colégio Eleitoral e a morte do político mineiro antes da posse. Da mesma forma, profetizou num programa da Rede Record de televisão, em julho de 1985, que o senador Fernando Henrique Cardoso, líder nas pesquisas de opinião para a Prefeitura de São Paulo, perderia a eleição. “O vencedor será o dr. Jânio”, afirmou. Jânio Quadros realmente ganhou a disputa. A princesa Anne, irmã da rainha Elizabeth II da Inglaterra, esteve no Brasil em 1996 e quis conhecer o médium. Robério não conta o que previu, mas depois do encontro embarcou para Londres para uma nova conversa com a princesa.


A primeira celebridade que reconheceu publicamente a ajuda do vidente foi o técnico da seleção Wanderley Luxemburgo. Robério participou de um programa de rádio em Bragança Paulista e disse que o time local, o Bragantino, seria o campeão paulista no final dos anos 80. O técnico da equipe ouviu a previsão e quis conhecer o vidente. Nos dez anos seguintes, Robério benzeu as camisas dos times que o técnico dirigiu. “Ele teve coragem de dizer publicamente que recebeu ajuda de um pai-de-santo”, diz Robério. “As pessoas têm muito preconceito.”


Com a amizade de Luxemburgo, Robério ficou conhecido nacionalmente. O computador de seu templo espiritual, que funciona num amplo sobrado na zona sul de São Paulo, registra 29 mil clientes. A lista abrange empregadas domésticas, atores, atletas e políticos. Em outro arquivo figura uma lista com cerca de 80 empresas de médio e grande portes que não tomam decisões importantes sem antes ouvir o médium.


Apesar da clientela poderosa, Robério não nega aconselhamento a ninguém. “Eu não cobro por consulta e não faço discriminação”, afirma. “Não dá para estabelecer um valor para o que não tem preço.” Ele afirma que recebe doações das empresas que aconselha. Robério diz que a renda que lhe permite viver numa confortável casa no condomínio fechado de Alphaville, ter dois carros de luxo (um Audi A8 e uma Blazer) e manter o templo e um apartamento no Rio de Janeiro vem das cabeças de gado que cria e dos laticínios que vende. “Eu sei a hora certa de comprar e de vender o gado”, afirma Robério. “Sou um empresário de visão.”

Veja também:

Robério de Ogum e suas previsões

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