13 de março de 2000
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Entrevista

“Não existe amizade na Fórmula 1”
Na abertura da temporada 2000, o piloto diz que a solidão é o preço do mundo glamouroso das corridas e que não namoraria moças que transitam pelos boxes

Cesar Guerrero

Foto: MARCELO ABATE/AE
O piloto em ação: prestes a iniciar a sexta temporada nas pistas de corrida

Pedro Paulo Diniz, 29 anos, é herdeiro de um dos maiores grupos privados do Brasil. Seu pai, Abilio Diniz, está à frente do Pão de Açúcar, a segunda maior rede de supermercados do País, com 40 mil funcionários em 347 lojas espalhadas por 11 Estados – e faturamento de R$ 6,9 bilhões no ano passado. Desde garoto, Pedro quis ficar longe das maquininhas de marcar preços em arroz e enlatados para abraçar a carreira da velocidade. Começou pilotando kart aos 15 anos e durante os 13 anos seguintes teve a vida custeada pelo pai. Por quatro anos, o piloto foi visto como um playboy que se divertia nas pistas do automobilismo. Nesta semana, quando iniciar sua sexta temporada na Fórmula 1 – a partir do Grande Prêmio da Austrália, na madrugada de domingo 12 –, ele pretende mostrar como a experiência acumulada e um carro melhor fizeram desta imagem algo já ultrapassado.

A trajetória, que agora se inicia, foi construída à base de penosas etapas. Entre 1997 e 1998, Pedro Paulo chegou em quinto lugar em duas corridas, pilotando um carro ruim, da Arrows. No ano passado, chegou em sexto em três delas. Correu pela Sauber, a mesma escuderia que defenderá nesta temporada. É uma equipe com melhor potencial para concorrer com tubarões como a Ferrari, de Michael Schumacher e Rubens Barrichello, e a McLaren, de Mika Hakkinen e David Coulthard.

Pedro Paulo engorda sua conta bancária com US$ 2 milhões por ano com o salário da Sauber – o que ainda é pouco se comparado com os ganhos do alemão Schumacher, que no ano passado faturou US$ 46 milhões. O piloto brasileiro fatura outros US$ 200 mil anuais como garoto-propaganda da marca de relógios suíça Longines. Em entrevista a Gente, ele diz não acreditar em relacionamento sério com mulheres que transitam nos bastidores dos boxes, apesar de saber que Adriane Galisteu conheceu Ayrton Senna quando a apresentadora de tevê era uma das loiras que seguravam o guarda-sol dos pilotos antes da largada da corrida.

Ser piloto de Fórmula 1 parece a melhor de todas as profissões. É ter muito dinheiro, ser assediado por belas mulheres e viver de glamour.Há face ruim?
Se sentir sozinho é a parte ruim. Eu acho que tudo tem um preço.

Como assim, sozinho?
Fico o tempo todo viajando. Passo mais tempo em hotéis do que na minha própria casa. Mas esse é o preço de se fazer o que se ama. Muita gente pensa que é fácil. Mas não é.

Por quê?
A gente tem de se concentrar nos testes e trabalhar pesado. Muitas vezes eu trabalho das 6 da manhã até 10 horas da noite direto na pista.

Dá para ter amigos na mesma proporção que se tem mulheres aos seus pés?
Em 1991, eu dividia um apartamento com o Rubens Barrichello na Inglaterra. Ele corria na Fórmula 3.000 e eu disputava a F-3. Nós nos dávamos muito bem desde aquela época. O Jean Alesi foi meu companheiro de equipe e também é um cara legal.

Eles são seus melhores amigos?
É difícil falar em amizade num ambiente competitivo. Lá não há espaço para esse tipo de relacionamento. Você é considerado um dos mais elegantes pilotos da F-1.

É muito assediado?
Tenho tanto trabalho que eu acabo nem notando o assédio porque, durante os testes e as provas, eu fico muito concentrado no trabalho. Mas nas corridas há uma legião de mulheres bonitas que transitam pelo box. Muitas se aproximam dos pilotos.

Dá para ter relação séria com alguma delas?
Eu acho que não. As mulheres de Grande Prêmio admiram é a atmosfera da Fórmula 1. Admiram o cara que está de macacão. Só isso. Além disso, eu tenho namorada.

Você mora com a modelo Cássia Ávila?
Eu a conheci há dois anos, num desfile em Roma, e ela me acompanha na maioria das corridas. Hoje, ela mora comigo em Mônaco.

Pretende se casar?
É melhor pular essa pergunta.

Acha que mulher de piloto de F-1 não pode ter espaço para vida própria porque tem de acompanhar o marido nas viagens?
Eu acho que é um sacrifício. Mas a gente tem organizado um pouco as coisas. Cássia tem se esforçado para arrumar a sua vida pessoal nos intervalos das minhas corridas. Estou fazendo tudo para diminuir o sacrifício dela e ter uma vida melhor com ela.

Vê sua família com freqüência?
O João (irmão mais velho) viaja muito e por isso a gente tem mais convivência. A Ana Maria, minha irmã mais velha, sempre que pode está comigo. O meu pai, sempre que viaja, desvia o caminho para me visitar e assistir a algumas corridas.

Seu pai, Abílio Diniz, nunca pediu para você trabalhar à frente da rede de supermercados?
Meu pai gosta e fica orgulhoso com o que eu faço.

Sua família não se preocupa com sua segurança?
É claro que eles têm um pouco de medo. Acidentes e coisas ruins podem acontecer dentro e fora das pistas. O importante é acreditar que a gente tem uma proteção divina.

Sentiria isso com um filho seu?
Claro. Se eu tivesse um filho na Fórmula 1, também ficaria preocupado.

Seu pai foi seqüestrado.Você se sente seguro no País e fora dele?
Em Mônaco, onde eu vivo, a segurança é maior. Eu estava no Brasil quando meu pai foi seqüestrado. Foi um pesadelo. Mas mesmo vivendo na Europa eu tenho uma equipe de seguranças que anda comigo.

Como começou a pilotar?
Eu comecei, como um hobby, a andar de kart com um amigo meu que corria. Andei no kart dele, fiz uma corrida e descobri que tinha jeito para a coisa. Depois comecei a levar mais a sério.

Com quantos anos você aprendeu a dirigir?
Quando entrei no kart, eu já sabia dirigir. Aprendi com 13 anos. Mas é proibido por lei uma criança dirigir. Só que eu dirigia na fazenda do meu pai, em Rio Claro, no interior de São Paulo. Lá eu dirigia até trator. Tudo o que tinha motor me interessava.

No início da F-1, você andava em último lugar e era motivo de chacota. Como sobreviveu?
Meu início foi através da Forti Corse, uma equipe que estreava naquele ano de 1995 na F-1. A gente andava lá atrás mesmo. O único parâmetro que eu tinha era meu companheiro de equipe, Roberto Pupo Moreno – que já era piloto experiente, com passagem pela Benetton. E eu conseguia andar no mesmo nível dele. Mas você saiu dessa equipe e continuou com desempenho fraco nas competições. As críticas foram muito duras comigo desde o início da minha carreira. Acho que fui injustiçado. Depois eu fui para a Arrows e pilotava junto com Damon Hill, que tinha sido campeão mundial. Eu me classificava melhor do que ele e mesmo assim as críticas continuaram. Só quando eu fui para a Ligier é que passaram a me respeitar. No ano passado, já na Sauber, marquei três pontos, chegando em sexto lugar em três grandes prêmios.

Por que você escolheu morar em Mônaco?
Moro lá há seis anos. É cômodo porque fica no centro da Europa e existe facilidade de deslocamento para qualquer lugar do mundo. Lá eu tenho a possibilidade de praticar esportes náuticos nas folgas.

Qual o esporte de que você mais gosta?
Gosto muito de esqui aquático e sempre que eu posso vou até a marina.

Com uma vida assim, você pensa em voltar para seu país?
Se pudesse escolher, ficaria no Brasil. Gostaria muito de morar perto de minha família. Infelizmente, não dá.

 

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