Saúde  
Vale a pena fazer check-up neurológico?
A cirurgia cerebral a que se submeteu a atriz Malu Mader levanta a discussão se exames neurológicos devem ser feitos periodicamente
Pedro Paulo Porto Júnior *
Murillo Constantino
Porto: prevenção não pode virar neurose

Atenção é a palavra-chave quando o assunto é detectar problemas neurológicos. Ainda assim, vale ressaltar, uma fatalidade pode surgir e pegar a pessoa desprevenida, como aconteceu com a atriz Malu Mader, que no mês passado foi operada para a retirada de um cisto intracraniano e extracerebral (dentro do crânio, mas fora do cérebro) num hospital no Rio de Janeiro. A atriz dormia num hotel em Florianópolis quando teve uma crise convulsiva pela primeira vez na vida e foi levada a um hospital. Lá, os médicos fizeram os exames (ressonância magnética de crânio, eletroencefalograma e exames séricos, como o de sangue), detectaram a lesão e indicaram a cirurgia, que foi feita no Rio. A atriz não havia feito nenhuma queixa antes da convulsão e nem mesmo um check-up prévio apontava algum problema neurológico. Era impossível prevenir sua doença.

Dores de cabeça que mudam de escala, sinais como dormência e dificuldade de movimento em um dos lados do corpo, dificuldades de raciocínio, alteração de consciência e desfalecimento são sinais que devem levar uma pessoa a se submeter a uma ressonância magnética. Anticonvulsivos são indicados quando o exame aponta convulsão. No caso de o exame apontar lesões é importante avaliar a necessidade de uma cirurgia. Percebo, na minha experiência clínica, que a freqüência das doenças vasculares cerebrais tem diminuído – por conta, possivelmente, de uma boa alimentação, dos exercícios físicos regulares e de uma vida mais saudável, com menos estresse e sem drogas, verificada principalmente nas classes sociais mais altas.

O diagnóstico precoce de um problema neurológico só pode ser feito a partir de uma queixa do paciente ou de um check-up geral que aponte alguma evidência laboratorial. É preciso tomar muito cuidado para que não se crie uma neurose atrás de exames, como ressonância magnética de crânio e eletroencefalograma. Vale ressaltar também que o histórico familiar é uma evidência não laboratorial que deve levar uma pessoa a se submeter a uma ressonância e a uma angiorressonância, esta última para que se observem os vasos sangüíneos do cérebro.

São inúmeros os casos de pessoas que têm os sintomas, mas não correm atrás de uma avaliação
mais apurada. É preciso motivá-las para que em caso de mal-estar, desfalecimento ou, num mesmo quadro, febre, dor de cabeça e vômitos, elas procurem um profissional especializado. E não há idade
para que isso ocorra. Por isso, todo check-up geral, feito de ano em ano, é importante para tentar
prevenir patologias.

* Pedro Paulo Porto Júnior é neurologista do Hospital Albert Einstein em São Paulo e membro da Academia Americana de Neurologia

Pílulas
 

» Dores de cabeça que mudam de escala, sinais como dormência, alteração de consciência indicam a necessidade de ressonância magnética do crânio

» Nos pacientes com enxaqueca, 0,5% deles apresentam alterações patológicas na ressonância magnética, como, por exemplo, um cisto intracerebral hipertensivo

» Numa primeira crise convulsiva até os 23 anos, há 95% de chance de ser decorrente de atividade irritativa cerebral, tratada com remédios. Sendo mais de uma crise, essa atividade irritativa é chamada
de epilepsia

» Acima dos 23 anos, a chance de a convulsão ser sinal de outra doença é maior