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Dáblio Moreira (à esq.) faz dupla sertaneja com o amigo Daniel, e Marcos Henrique canta com o irmão Santiel: por causa do filme, vão gravar disco
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Revelação
W com D

Dáblio Moreira, que foi batizado assim porque o pai pensou em muitos nomes com a letra W, interpreta Zezé Di Camargo quando criança, e Marcos Henrique faz Emival, o irmão morto aos 11 anos, em Dois Filhos de Francisco
texto: mariane morisawa
foto: piti reali
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As lágrimas vêm aos olhos de Dona Helena, mãe de Zezé Di Camargo e Luciano, toda vez que encontra Marcos Henrique. “Ela disse que eu pareço muito o Emival”, conta o garoto, que interpreta em Dois Filhos de Francisco o irmão que fazia dupla com Zezé e morreu aos 11 anos de idade. Luciano constatou a semelhança com o irmão que não conheceu na foto emoldurada que decora sua sala. Chama Marcos Henrique de Emival e Dáblio Moreira, de Mirosmar – o nome verdadeiro de Zezé Di Camargo, que o menino vive no filme. Os dois são a grande surpresa do longa-metragem de Breno Silveira.

Dáblio e Marcos Henrique nunca tinham pensado realmente em atuar. Dáblio, 17 anos, forma dupla sertaneja com o amigo Daniel. E Marcos Henrique, 12, com o irmão Santiel. Foram descobertos entre centenas de crianças, em várias peneiras. “A cada vez que passavam, eles ajoelhavam, agradeciam”, conta o diretor Breno Silveira. Sem experiência, fizeram 25 dias de laboratório com a preparadora de elenco Lais Corrêa. Mas a música corre nas veias desde moleques.

Quando Dáblio tinha 8 anos, seu pai, o fotógrafo Adesir, percebeu que o guri tinha talento. E também muita vergonha. A primeira vez que cantou em público, foi obrigado. “Meu pai me inscreveu no festival de música do colégio, sem eu saber”, conta Dáblio, com os “erres” carregados típicos dos nascidos em Morrinhos, Goiás. Tal como Francisco, pai de Zezé e Luciano, foi Adesir quem ensinou o menino a cantar direito. “Ele dizia: abre a boca, você está cantando pelo nariz. Dava vontade de chorar, de jogar o violão no chão”, diz o garoto, que tem dois irmãos. Foi Adesir quem escolheu o nome exótico. “Via aqueles livros de nomes e tinha um monte com ‘w’. Pensei: por que não Dáblio?”, conta ele, que sem saber interessou-se por uma letra fartamente utilizada na família Camargo. Luciano é Welson, e há Wellington, Walter e Werley também.

Marcos Henrique foi ainda mais precoce. Aos três, já cantava Mamonas Assassinas e dançava Gera Samba. Dois anos mais tarde, fez dupla com o irmão. Como a família Camargo, os Souza Venâncio venderam tudo na roça, em Mararosa, e mudaram-se para Goiânia atrás do possível sucesso. “Nossa história, se for fazer um filme, só troca o final”, diz Marcos. Teve dia que faltou comida, e parentes trouxeram uma panelinha para servir João Caetano, Joana e as crianças Santiel, Marcos Henrique e Larissa. O pai quis ir embora, mas a mãe disse: “É o sonho dos nossos filhos, e nosso também”.

O sonho de cantar se realizou. Por causa do filme, vão gravar um disco, cada um com seu parceiro, e os dois juntos. Dáblio deseja finalmente poder lucrar com seus shows, já que até agora só deu para pagar os instrumentos. Marcos Henrique quer comprar uma casa e um carro e, bom aluno da 6ª série, guardar para fazer a faculdade de Administração de Empresas. Além, é claro, de seguir revertendo o dinheiro em bens materiais para si mesmo, como diz. O sucesso do filme deve facilitar.