Entrevista  
“Tenho muita vontade de ter mais filhos, mas não agora. Tenho vontade de adotar, sempre tive”,
diz Paloma
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Paloma Duarte
‘‘Estamos encurralados’’
A atriz que deu cara ao PT na campanha de 2002 volta ao teatro após oito anos, fala pela primeira vez das acusações contra o partido e diz que “José Dirceu não quer largar o osso”
texto: Jonas Furtado
fotos: claudio gatti

No auge da campanha para a eleição presidencial de 2002, a atriz Paloma Duarte tornou-se a musa dos petistas ao dar um depoimento, voluntário e gratuito, contra o que chamou de “terrorismo” utilizado pelo PSDB na época. A declaração era uma resposta à aparição da atriz Regina Duarte no programa político de José Serra, no qual ela dizia ter medo de uma vitória de Lula. Hoje, quase três anos depois, Paloma Duarte acompanha a série de denúncias de corrupção que atinge o governo e dirigentes do PT. Assiste pela televisão a todos os depoimentos nas CPIs, devora jornais e revistas, navega dia e noite pela internet. “Minhas filhas já não agüentam mais. Elas entram no meu quarto e dizem: “Ai, mãe, está vendo isso de novo?”, conta a atriz, namorada do músico Oswaldo Montenegro há dois anos, mãe de Maria Luiza, 10, e Ana Clara, 7, e que está em cartaz no teatro com As Mulheres da Minha Vida. A entrevista foi realizada em três etapas: a primeira, há quase um mês, a segunda no sábado 13 e a última na sexta-feira 19, data do fechamento desta edição.

Qual é sua visão geral sobre a crise do governo Lula?
Estou com muita dor. O primeiro pensamento é: se o PT está fazendo isso, o que não fazem os outros partidos? A situação do PT não faz dos acusadores pessoas honestas. Acho engraçado ver a panca da oposição. Estamos encurralados. Quem são os acusadores? Tenho muitas dicotomias sentimentais em relação à crise. Nos últimos cinco anos a balança comercial registra mais de US$ 110 bilhões, são 104 mil empregos criados por mês de carteira assinada, são 7 milhões de famílias atendidas pelo bolsa-família. Quer dizer, é inquestionável que esse governo teve avanços importantes. Mas é inquestionável que a dor que ele está dando é imensa. Cabe ressaltar que normalmente a Procuradoria Geral da República e a Polícia Federal estão um passo à frente da CPI. Isso demonstra a intenção de esclarecimento que não se pode ignorar.

Como essa mistura de emoções tem afetado o seu dia-a-dia?
Tive todas as fases que você possa imaginar. Uma situação dessas é muito perigosa, tenta a gente a partir para o ceticismo. E a pior coisa que pode acontecer para um país, politicamente, é isso – é você abdicar realmente das suas crenças, das suas esperanças. Me assusta muito a situação do PT. Estou muito preocupada desse partido sangrar até o fim e morrer de hemorragia porque o senhor José Dirceu não quer largar o osso. Toda e qualquer medida que o Tarso (Genro, atual presidente do PT) tenta fazer para remoralizar o partido, ter o apoio da população novamente, apaixonar de novo a militância, o senhor José Dirceu vai lá e derruba com seus aliados. É incompreensível que esse homem ainda tenha tanto poder dentro deste partido, o que me leva a perguntar: o que é que esse homem sabe? O que ele está escondendo, o que não chegou ao nosso conhecimento? Acho feio os políticos todos abandonando o partido que eles ajudaram a construir. Entendo que é uma situação difícil, sim, mas é hora de lutar pelo partido. Acho injusto ver esse partido morrer, são 25 anos de história, de militância, o PT representa uma esquerda no mundo inteiro, é um partido observado no mundo inteiro. Li outro dia em O Globo que o Lula estava tentando, junto com o Tarso e com o (Aloizio) Mercadante, uma maneira de isolar o José Dirceu. Espero que dê certo. Espero honestamente que o Lula esteja confortável para conseguir fazer isso.

Você acha que o presidente Lula não sabia de nada?
Essa resposta eu não sei, mas eu tenho esperanças.

Há algo de positivo nisso tudo?
A parte boa é que nunca houve um governo tão investigado. Vamos aproveitar o momento e arrancar de vez essa couraça de ingenuidade da população brasileira e mostrar como é feita política nesse país. Tenho direito de saber como foram feitas as privatizações no governo Fernando Henrique, eu quero saber das teles. Estava lendo que não vão convocar o (banqueiro) Daniel Dantas. Estou indignada. Exijo a convocação de Daniel Dantas, como cidadã brasileira e eleitora. Li na Carta Capital que ele não vai depor porque não seria bom para o PT e porque não seria bom para os laços fraternos que este senhor tem com o PSDB e com o PFL. Quero conhecer os laços fraternos, quero saber que tipo de amizade é essa. Quero ver o sr. (Luiz) Gushiken depondo também. Quero aproveitar para investigar a relação do Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998, e ver como o PT estava nessa época também. Estou a fim da faxina geral. É a nossa única chance de entender onde está o limite da nossa ingenuidade, da nossa hipocrisia, do nosso real moralismo.