No auge da campanha para a eleição
presidencial de 2002, a atriz Paloma Duarte tornou-se a musa
dos petistas ao dar um depoimento, voluntário e gratuito,
contra o que chamou de “terrorismo” utilizado
pelo PSDB na época. A declaração era
uma resposta à aparição da atriz Regina
Duarte no programa político de José Serra, no
qual ela dizia ter medo de uma vitória de Lula. Hoje,
quase três anos depois, Paloma Duarte acompanha a série
de denúncias de corrupção que atinge
o governo e dirigentes do PT. Assiste pela televisão
a todos os depoimentos nas CPIs, devora jornais e revistas,
navega dia e noite pela internet. “Minhas filhas já
não agüentam mais. Elas entram no meu quarto e
dizem: “Ai, mãe, está vendo isso de novo?”,
conta a atriz, namorada do músico Oswaldo Montenegro
há dois anos, mãe de Maria Luiza, 10, e Ana
Clara, 7, e que está em cartaz no teatro com As
Mulheres da Minha Vida. A entrevista foi realizada em
três etapas: a primeira, há quase um mês,
a segunda no sábado 13 e a última na sexta-feira
19, data do fechamento desta edição.
Qual é sua visão geral sobre a crise do governo Lula?
Estou com muita dor. O primeiro pensamento é: se o PT está fazendo isso, o que não fazem os outros partidos? A situação do PT não faz dos acusadores pessoas honestas. Acho engraçado ver a panca da oposição. Estamos encurralados. Quem são os acusadores? Tenho muitas dicotomias sentimentais em relação à crise. Nos últimos cinco anos a balança comercial registra mais de US$ 110 bilhões, são 104 mil empregos criados por mês de carteira assinada, são 7 milhões de famílias atendidas pelo bolsa-família. Quer dizer, é inquestionável que esse governo teve avanços importantes. Mas é inquestionável que a dor que ele está dando é imensa. Cabe ressaltar que normalmente a Procuradoria Geral da República e a Polícia Federal estão um passo à frente da CPI. Isso demonstra a intenção de esclarecimento que não se pode ignorar.
Como essa mistura de emoções tem afetado o seu dia-a-dia?
Tive todas as fases que você possa imaginar.
Uma situação dessas é muito perigosa,
tenta a gente a partir para o ceticismo. E a pior coisa que
pode acontecer para um país, politicamente, é
isso – é você abdicar realmente das suas
crenças, das suas esperanças. Me assusta muito
a situação do PT. Estou muito preocupada desse
partido sangrar até o fim e morrer de hemorragia porque
o senhor José Dirceu não quer largar o osso.
Toda e qualquer medida que o Tarso (Genro, atual presidente
do PT) tenta fazer para remoralizar o partido, ter o
apoio da população novamente, apaixonar de novo
a militância, o senhor José Dirceu vai lá
e derruba com seus aliados. É incompreensível
que esse homem ainda tenha tanto poder dentro deste partido,
o que me leva a perguntar: o que é que esse homem sabe?
O que ele está escondendo, o que não chegou
ao nosso conhecimento? Acho feio os políticos todos
abandonando o partido que eles ajudaram a construir. Entendo
que é uma situação difícil, sim,
mas é hora de lutar pelo partido. Acho injusto ver
esse partido morrer, são 25 anos de história,
de militância, o PT representa uma esquerda no mundo
inteiro, é um partido observado no mundo inteiro. Li
outro dia em O Globo que o Lula estava tentando,
junto com o Tarso e com o (Aloizio) Mercadante, uma
maneira de isolar o José Dirceu. Espero que dê
certo. Espero honestamente que o Lula esteja confortável
para conseguir fazer isso.
Você acha que o presidente Lula não sabia de nada?
Essa resposta eu não sei, mas eu tenho esperanças.
Há algo de positivo nisso tudo?
A parte boa é que nunca houve um governo tão
investigado. Vamos aproveitar o momento e arrancar de vez
essa couraça de ingenuidade da população
brasileira e mostrar como é feita política nesse
país. Tenho direito de saber como foram feitas as privatizações
no governo Fernando Henrique, eu quero saber das teles. Estava
lendo que não vão convocar o (banqueiro)
Daniel Dantas. Estou indignada. Exijo a convocação
de Daniel Dantas, como cidadã brasileira e eleitora.
Li na Carta Capital que ele não vai depor
porque não seria bom para o PT e porque não
seria bom para os laços fraternos que este senhor tem
com o PSDB e com o PFL. Quero conhecer os laços fraternos,
quero saber que tipo de amizade é essa. Quero ver o
sr. (Luiz) Gushiken depondo também. Quero
aproveitar para investigar a relação do Fernando
Henrique Cardoso em 1994 e 1998, e ver como o PT estava nessa
época também. Estou a fim da faxina geral. É
a nossa única chance de entender onde está o
limite da nossa ingenuidade, da nossa hipocrisia, do nosso
real moralismo. |