| O intertexto é a alma da obra
de Alberto Manguel. Com uma proposta de reinterpretação
para clássicos em Uma História de Leituras
e Os Livros e os Dias, o escritor argentino
radicado no Canadá oferece ferramentas para o público
elaborar a própria visão de seus livros e
de outros autores.
Em O Amante Detalhista (Companhia das Letras,
96 págs, R$ 28), Manguel desafia a imaginação
do público com um personagem que busca um mínimo
de felicidade na decodificação de códigos
alheios. Desta vez, não apenas através de
palavras, mas também de imagens.
Anatole Vasanpeine é um pacato funcionário
de uma casa de banhos na França do final da década
de 10. Com uma máquina fotográfica nas mãos,
ele registra partes do corpo de freqüentadores dos
banheiros públicos e encontra algum sentido para
sua vida reprimida. Detalhes de dedos e unhas, pernas, cabelos
e protuberâncias, sempre insuficientes para identificar
sexo ou idade do fotografado, trazem satisfação
ao protagonista e inspiram seus escritos.
Manguel parte do fetiche do voyeurismo para instigar o
leitor. Com exímias descrições das
fotografias e uma costura de seus textos com aqueles supostamente
escritos por Vasanpeine, o autor, propositadamente, confunde
o limite de realidade e ficção. O Amante Detalhista
fala da insatisfação das pessoas com os semelhantes
e seus corpos, um assunto tão atual no nosso fútil
cotidiano, e deixa uma amarga moral: a fantasia é
sempre mais simples e conveniente que a realidade. Close
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