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“Sempre escolho a personagem com menos atributos físicos, mas ninguém quer me dar o papel de feia”, diz a atriz
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Teatro
A bela é uma fera

Karina Bacchi comemora sua estréia no teatro, o prêmio pelo primeiro livro infantil e a exportação das peças em jeans recicladas pela sua ONG
texto: Clarissa Monteagudo
fotos: Alexandre Sant’Anna
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Em apenas dez minutos sob o sol forte da praia da Barra da Tijuca, Karina Bacchi provoca um verdadeiro congestionamento de olhares. Dos garotões a sóbrios senhores com seus cachorrinhos, ninguém fica impassível diante da atriz de 28 anos. Todos os pedidos de autógrafo partem de mãos masculinas. Ciente do apelo de sua beleza, Karina tenta fugir como pode do estereótipo de mulherão. Não é mais contratada da Rede Globo e já negou papéis oferecidos pela emissora. Não quer alicerçar a carreira sobre uma sucessão de louras exuberantes. “Sempre escolho a personagem com menos atributos físicos, mas ninguém quer me dar o papel de feia. Dizem que tevê gosta de gente bonita.”

A saída para fugir da mesmice foi enveredar para o teatro. No mês passado, Karina estreou nos palcos na peça Minha Vida de Solteiro, sucesso da Broadway assinado pelo dramaturgo Neil Simon. Na comédia em cartaz na casa de espetáculos Garden Hall, no Rio, a atriz encarna uma socialite obcecada pela idéia de se tornar atriz famosa. “É uma Jessica Rabbit desglamourizada, atrapalhada”, define a atriz, que aprendeu a humanizar suas personagens com o humor. Na novela Da Cor do Pecado, os trejeitos ingênuos da lutadora Tina Sardinha agradaram até as crianças. “As pessoas chegavam a ter pena dela. Eu evito que me rotulem misturando o lado mulherão das personagens a um jeito de menininha.”

A identificação com o universo infantil vai além da teledramaturgia. Em maio, Karina foi agraciada com o prêmio Quality of Business pelo seu livro de estréia, Feliska, voltado para crianças. E agora, a atriz concorre ao Prêmio Jabuti em três categorias. A renda da publicação foi revertida para a ONG Florescer, presidida pela mãe da atriz, Nádia Bacchi. A instituição beneficia 750 crianças da comunidade Paraisópolis, em São Paulo. “A Karina é a minha sucessora, trabalhamos na ONG há 15 anos. As crianças são apaixonadas por ela”, diz Nádia.

Todas as semanas, Karina visita a favela. Uma de suas maiores conquistas como presidente do conselho consultivo da Florescer é o projeto Recicla Jeans. As 15 mil peças confeccionadas mensalmente pelas artesãs na oficina de reciclagem já são exportadas para Itália, Portugal e Líbano. O envolvimento social é um dos pilares da vida da atriz, que, aos quatro anos, já se apresentava em shows beneficentes na cidade natal, São Manuel, em São Paulo. “Não dá para virar uma deslumbrada se você vai toda semana a uma comunidade onde as crianças muitas vezes não têm o que comer”, compara.

Karina também conserva os pés no chão na vida amorosa. Há um ano e meio, reatou o namoro com o publicitário Sérgio Amon. “Já me sinto casada”, diz. O casal já mantinha uma relação de oito anos quando rompeu no início de 2003. Acertaram os ponteiros e hoje a convivência é tranqüila. “Dizem que ciúme apimenta, mas só estraga. Gosto de apreciar as especiarias na relação. Detesto pimenta.”