Entrevista  
“Sou cigano, mudo muito de casa. Mudei seis vezes nos últimos quatro anos”, conta
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Walcyr Carrasco
‘‘Vou ao analista porque sou neurótico’’
O autor da novela Alma Gêmea, sucesso na Globo, já foi hippie, trabalhou como lavador de pratos nos Estados Unidos e se inspira na mãe para escrever
texto: Rodrigo Cardoso
fotos: Claudio gatti

O sol das 17h vai baixando e começa a entrar na casa de Walcyr Carrasco. Na cozinha, um filete de luz natural repousa na panela de pressão, que está a todo vapor. Daquele fogão, já, já, sairia o almoço do autor, escritor e jornalista, que mora na tranqüilidade de um condomínio paulista. Natural de Bernardino de Campos (SP), Walcyr se diz notívago de carteirinha desde sempre – dorme às 5h, acorda ao meio-dia e faz a principal refeição no fim do dia. Segundo de três filhos de um ferroviário e uma comerciante, o autor de Alma Gêmea, novela das 18h da Globo que atinge incríveis 40 pontos de média de audiência, ganhou a primeira máquina de escrever aos 12. Hoje, solteiro aos 53, coleciona sucessos como Xica da Silva, O Cravo e a Rosa e Chocolate com Pimenta, e nove mil livros em sua biblioteca.

Humor é o carro-chefe de seus textos?
Minha mãe era muito risonha, ria o tempo inteiro, era muito alegre. Na tevê, quando escrevo, lembro dela, porque era um padrão de telespectadora comum: dona de casa, gostava de determinadas histórias, de rir. Às vezes, falo: “Minha mãe morreria de rir dessa história”. O meu humor é mais crítico. Ou a gente arranca os cabelos, ou dá risada, porque o mundo é difícil. Procuro olhar a vida sob o prisma do humor. O drama também é presente. Alma Gêmea é dramática e mística. Eu sou místico, estudei e li muito sobre reencarnação. Era um tema que me apaixonava.

No dia-a-dia, você interage com os personagens que cria?
Quando se está fazendo uma novela ou um livro, aqueles personagens tornam-se pessoas que você conhece e passa a conviver. E qual o problema de uma novela? Você conversa com os personagens mentalmente durante um ano, aí um dia acaba a novela e eles todos vão embora juntos. Eu já tive depressão por isso. É um navio que afunda e só você sobrevive. Você vive um luto. Eu fico de cama, deprê, com saudade. Porque o grande prazer do autor é o ato de escrever, não é o sucesso, a venda do livro ou o ibope da novela. Aí, o prazer acaba subitamente e o mundo continua. Você liga a televisão e há outros personagens, que não são os seus, fazendo outras coisas.

Sente vontade de voltar logo ao ar?
Sempre quero estar no ar. Estou no ar com duas novelas, Xica da Silva (SBT) e Alma Gêmea. Já estive com duas outra vez, com Chocolate com Pimenta e Fascinação (no SBT). Desde 2000 eu estou na Globo e tenho tido uma novela por ano. Transmito minha paixão por escrever para a Globo. Também não faço questão de férias longas, nada disso. E apresento projetos.

Você é o autor da vez? Dá para compará-lo a autores tarimbados como Gilberto Braga e Manoel Carlos?
Eu apresento projetos em seqüência, mas não sou o da vez. O Manoel Carlos, se quisesse, faria uma novela por ano. Ele só escreve sucesso. O Gilberto Braga também. Eu admirei novelas do Gilberto e do Manoel, quando ainda não escrevia. Eles têm experiência mais sólida, mais tempo fazendo, mais sucesso. Vale Tudo (de Gilberto Braga) é inesquecível pra mim. O Manoel tem um tom de crônica que não sei repetir. O Benedito Ruy Barbosa lida com a emoção de uma maneira desbragada, é de chorar mesmo. Eu tenho feito (novelas) bem ligadas à época, tenho traço de humor forte. E busco a explosão de emoção à flor da pele e uma quantidade grande de acontecimentos, para a história correr depressa. Eu, por modéstia, não me colocaria no mesmo
patamar deles.

Quando há novela sua no ar, dorme a que horas?
Às 4h, 5h da manhã e acordo ao meio-dia. Me sinto mais inteligente, criativo, à noite. Tem algo da luz da lua que ajuda.

Você dá autógrafos?
É estranho quando alguém fala que adora o que eu faço, ou me reconhece. Já dei muitos autógrafos e não me sinto mal, apesar de achar uma bobagem total. O que a pessoa vai fazer com aquele papel? Guardar? Num primeiro momento, meu ego resplandece, ergo as penas como uma cauda de pavão! É uma mentira dizer que não tá nem aí. Num segundo momento, me cansa. Num terceiro, quero sair correndo. Depois que uma pessoa fez um elogio e eu achei ótimo, ou o papo rola, ou não tem mais nada a dizer. Em festa é terrível, porque às vezes passo de pessoa em pessoa e todas me elogiando. E eu tô querendo mais é curtir a festa, falar de outras coisas. Aí, tento mudar o papo devolvendo com outros elogios: “Poxa, seu vestido tá lindo”.