Entrevista  
“Quero trabalhar só mais cinco anos”, diz Mesquita, que começou como engraxate aos nove anos e na tevê está há 20 sem sair do ar
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Otávio Mesquita
‘‘Faltaram sandálias da humildade para mim’’
O apresentador estréia programa aos domingos, diz que não desistiu da ex, Janaína Barbosa, conta como reconheceu a paternidade do filho e admite que tinha imagem negativa nos
anos 80 e 90
texto: Rodrigo Cardoso
fotos: claudio gatti

Com a mesma naturalidade com que sorri e faz sorrir, Otávio Mesquita se emociona e chora. É assim ao falar do sonho que o levou a assumir um filho fora do casamento, da ex-mulher, Janaína Barbosa, de quem está separado há três meses, e ao contar as dificuldades da infância em Guarulhos (SP), onde começou a trabalhar aos 9 anos engraxando sapatos. Aos 45, pai de John, 12, a mesma idade de Luiz Otávio – o filho que assumiu –, o apresentador estréia no dia 7 de agosto o Cidade Nota Dez, na Band, aos domingos. Fora essa gincana – uma releitura do Cidade x Cidade que Silvio Santos comandou nos anos 80, no SBT –, Otávio segue à frente do A Noite É uma Criança, na Band, e é piloto de Stock Car e da categoria GT3 Cup, guiando um Porsche.

Por que brigar pela audiência dos domingos?
O fato de Faustão e Gugu serem líderes fez com que ficassem acomodados. Eles têm o público deles, não estão preocupados. Quem tem de se preocupar é a Record, a Rede TV!. E a Bandeirantes tem de brigar pelo terceiro e, quem sabe, o segundo lugar. Eu vou ao ar às 15h, para sair da briga dos dois (Faustão e Gugu), para não brigar com o Pânico – não sou besta! – e pegar as pessoas que acabam de almoçar e vão para a televisão. O Cidade... terá uma hora e meia de duração.

Quais serão seus trunfos?
Cada vez mais o que vai dar audiência é o formato e não o apresentador. É uma gincana de quatro meses com 16 equipes. Duas se enfrentam por domingo e, se der certo, faço uma segunda temporada. Há provas beneficentes também. A cidade terá de juntar o maior número de latinhas de alumínio. Uma empresa irá comprar o alumínio e o dinheiro irá para uma instituição da cidade. Em outra prova, a cidade terá de apresentar uma solução para o maior problema social da concorrente. Há provas de natação, corridas, competições entre o cara mais inteligente de cada cidade, entre as mulheres mais bonitas. A cidade vencedora ganha um carro.

Quais os seus planos futuros?
Quero trabalhar só mais cinco anos, até os 50, e, aí, morar em Itacaré (BA), onde já comprei um terreno. Preciso viver um pouco, trabalho desde os nove anos! Meu primeiro emprego foi, aos 11, como carregador em supermercado. Com 9, montei uma caixa de engraxate e engraxava sapatos na vizinhança. Com o dinheiro eu comprava docinhos e vareta para fazer pipa, que eu vendia. Meu negócio já era fazer dinheiro. Também adoraria entrar para a política, já recebi propostas, sou filiado ao PPS. Tenho pretensões de sair candidato a deputado federal.

Você é rico?
Não. Tenho uma vida boa. Gasto dinheiro com cultura, viagens, vinhos. Prefiro pagar uma classe executiva à vista do que dividir a primeira classe em dez vezes. Vou aos mesmos lugares que meus amigos trilhardários, mas em vez de jatinho, vou de avião de carreira. Meu maior patrimônio é a minha imagem. Já cheguei a ganhar no SBT o equivalente a US$ 100 mil. Essa era acabou. Hoje, mantêm-se no ar os que são artistas e também empresários de comunicação.

Enquanto empresário de comunicação, como ganha dinheiro?
Recebo projetos para captar recursos para teatro, cinema – pretendo fazer uma parceria com o (diretor) Daniel Filho. Ano passado, comprei o enredo da (escola de samba) Grande Rio – um enredo custa cerca de US$ 1 milhão. Criei (Alimentar o Corpo e Alma Faz Bem) e apresentei para a Nestlé, que o comprou. Este ano, ajudei (a Grande Rio) a vender o enredo para o governo de Manaus e tem outros enredos que estou negociando (mostra uma pasta com mais de meia dúzia de enredos criados por ele e oferecidos a empresas). Também estou empresariando o astronauta brasileiro que vai para o espaço, em 2006. Estou negociando parcerias com Vivo, Gillette, TAM e Terra.

Como reage às críticas de que não fala coisas sérias no ar?
Vou fazer 20 anos na tevê, em 2006, ininterruptamente, sem sair do ar. Quantos estão assim? Não dá para encher os dedos da mão. Virei apresentador sem querer. Aprendi a fazer televisão sozinho. Talvez ainda haja uma rejeição em função da imagem do Otávio dos anos 80 e 90. Eu era um moleque, metido a besta, achava que era engraçado. Faltaram sandálias da humildade para mim.