6 de março de 2000
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Testemunha do Século

O arquiteto das curvas e dos grandes palácios

Oscar Niemeyer, 92 anos, projetou Brasília por um salário de 40 mil
cruzeiros por mês, decidiu assinar alguns trabalhos com o nome completo, para homenagear o avô, e dedica-se uma vez por semana ao estudo do cosmo

Márcia Montojos

Foto: Leandro Pimentel
“As idéias marxistas continuam perfeitas, os homens que deveriam ser mais fraternos”, diz o arquiteto Oscar Niemeyer, que faz questão de trabalhar todos os dias em seu escritório em Copacabana

Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares. É assim que o arquiteto Oscar Niemeyer tem assinado alguns de seus últimos trabalhos. Utilizar o nome completo foi a forma que encontrou para homenagear o avô, o ministro do Supremo Tribunal Federal Antônio Augusto Ribeiro de Almeida, com quem morou na infância e teve, segundo conta, os primeiros exemplos de solidariedade e justiça. “Meu avô foi um homem útil e morreu pobre”, lembra. Foi inspirado no exemplo do avô que ele entrou para a militância do PCB (Partido Comunista Brasileiro).

Aos 92 anos, o arquiteto de Brasília, da Pampulha, em Belo Horizonte, e da sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, considera que seu maior feito foi ter ingressado no PCB. E foi com essa convicção que, em 1945, doou seu ateliê na Rua Conde Lages, no Centro do Rio, para a primeira sede do comitê metropolitano do partido. Anos mais tarde, também daria de presente um apartamento ao amigo Luiz Carlos Prestes. “As idéias marxistas continuam perfeitas, os homens é que deveriam ser mais fraternos”, analisa.

Foi na arquitetura que ele encontrou a solução para não se rebelar a ponto de participar da luta armada. “A solução natural é a curva, presente em tudo, no raciocínio, no universo, na democracia e na vida”, filosofa Niemeyer, que chegou a ser convocado algumas vezes ao Dops para prestar depoimento. Em 1959, quando deu seu segundo depoimento, o presidente da República Juscelino Kubitschek tentou evitar, telefonando para o general Kruel, chefe da polícia, sob a alegação de que a presença do arquiteto era fundamental em Brasília. Em vão. Dias depois, lá estava ele para falar de seu envolvimento com os comunistas.

Foto:Reprodução
Niemeyer, Jean-Paul Sartre, James e Jorge Amado

A opção pela arquitetura veio quando ele se casou, aos 21 anos, com Annita Balbo, 86 anos. Foi uma época em que teve de largar a boemia e as noitadas na companhia do maestro Heitor Villa-Lobos na Lapa, centro do Rio, para se dedicar a uma profissão. Como gostava de desenhar, entrou para a Escola Nacional de Belas Artes, onde se formou em 1934. Logo procurou o escritório de Lúcio Costa para estagiar. E foi lá que que Niemeyer encontrou a solução para o projeto do Ministério da Educação, no Rio, de autoria do arquiteto francês Le Corbusier, que não fora aprovado. Inaugurado em 1936, no centro do Rio, o prédio virou um marco na história da arquitetura contemporânea mundial. Sua genialidade, então, começou a aparecer.

Foi o então ministro da Educação, Gustavo Capanema, que o apresentou a Juscelino, que sonhava com a Prefeitura de Belo Horizonte. Eleito, chamou o arquiteto para projetar um cassino para o bairro da Pampulha, dando-lhe o prazo de uma noite para concluir o trabalho. A obra cresceu e se tornou o Complexo da Pampulha, que hoje abriga a igreja de São Francisco, a Casa de Baile, o Iate Clube e o cassino, que se transformou em museu.

Em 1947, Oscar Niemeyer foi convidado pelo arquiteto norte-americano Wallace Harisson para apresentar um projeto para a sede das Nações Unidas. Seu estudo foi aprovado por unanimidade, mas o francês Le Corbusier o pressionou delicadamente para ser o co-autor. Os dois fizeram pequenas modificações e o projeto foi reapresentado. Anos depois, Le Corbusier, grato, diria a Niemeyer: “Você é generoso”.

Niemeyer foi convocado pelo presidente Juscelino, recém-eleito, para projetar os palácios e monumentos da nova capital e Lúcio Costa ficou encarregado de fazer o plano piloto. “A arquitetura é feita para trazer funcionalidade para quem vai usar e beleza e impacto para quem apenas vai ver”, explica, acrescentando que o princípio o norteou na construção de Brasília. “Pobre não entra em palácio, então se diverte vendo algo diferente”, acredita. Para elaborar a nova capital, o arquiteto recebeu, como funcionário público, parcos 40 mil cruzeiros mensais.

É com saudade que Niemeyer se recorda de suas viagens. Numa delas, em 1944, demorou dez dias para chegar a Porto Alegre. Partira do Rio a bordo de um Ford 30. Mas o gasogênio – os carros eram movidos a gás – enguiçou várias vezes e o arquiteto teve que alugar um táxi em São Paulo para chegar ao seu destino.

Foi em 1964, num quarto de hotel em Lisboa, que ele soube pelo rádio que a ditadura militar fora instaurada no Brasil. Seu escritório foi invadido e vasculhado no Rio. Seus projetos, tais como o do aeroporto de Brasília, começaram a ser rejeitados no Brasil. Mudou-se para Israel, onde projetou a cidade vertical no deserto de Genev. Um decreto especial de De Gaulle lhe deu o direito de trabalhar como arquiteto na França. Em 1967, projetou a sede do Partido Comunista Francês. Niemeyer só voltou a morar definitivamente no País no início dos anos 80, com a abertura política.

Foto:Reprodução
Com o dirigente cubano Fidel Castro no ateliê do arquiteto, encontro que foi acompanhado por Barbosa Lima Sobrinho

Com muitos projetos em andamento, ele chega diariamente a seu escritório, com vista para o mar de Copacabana, às 9h e só volta para casa após as 21h. “Gosto de me sentir útil”, explica. Um de seus últimos trabalhos foi encomendado por Fidel Castro: um monumento contra o bloqueio econômico a Cuba, que o general pretende erguer em frente à antiga embaixada americana, em Havana. Computador em seu escritório serve apenas como arquivo. Atualmente, está apaixonado pelos mistérios do universo. Um amigo cientista tenta lhe explicar o cosmo uma vez por semana. “Sempre vi o homem como um bicho terreno, um ser biológico, genético. Hoje, acredito que possa ter vindo das estrelas, seria melhor”, diz Niemeyer, pai de Anna Maria, que lhe deu cinco netos.

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