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Testemunha do Século
O arquiteto
das curvas e dos grandes palácios
Oscar
Niemeyer, 92 anos, projetou Brasília por um salário de 40 mil
cruzeiros por mês, decidiu assinar alguns trabalhos com o nome completo,
para homenagear o avô, e dedica-se uma vez por semana ao estudo
do cosmo
Márcia Montojos
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Foto: Leandro Pimentel
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“As idéias marxistas continuam perfeitas, os homens que deveriam
ser mais fraternos”, diz o arquiteto Oscar Niemeyer, que faz
questão de trabalhar todos os dias em seu escritório em Copacabana
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Oscar Ribeiro
de Almeida de Niemeyer Soares. É assim que o arquiteto Oscar Niemeyer
tem assinado alguns de seus últimos trabalhos. Utilizar o nome completo
foi a forma que encontrou para homenagear o avô, o ministro do Supremo
Tribunal Federal Antônio Augusto Ribeiro de Almeida, com quem morou
na infância e teve, segundo conta, os primeiros exemplos de solidariedade
e justiça. “Meu avô foi um homem útil e morreu pobre”, lembra. Foi
inspirado no exemplo do avô que ele entrou para a militância do
PCB (Partido Comunista Brasileiro).
Aos 92 anos, o
arquiteto de Brasília, da Pampulha, em Belo Horizonte, e da sede
da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, considera
que seu maior feito foi ter ingressado no PCB. E foi com essa convicção
que, em 1945, doou seu ateliê na Rua Conde Lages, no Centro do Rio,
para a primeira sede do comitê metropolitano do partido. Anos mais
tarde, também daria de presente um apartamento ao amigo Luiz Carlos
Prestes. “As idéias marxistas continuam perfeitas, os homens é que
deveriam ser mais fraternos”, analisa.
Foi na arquitetura
que ele encontrou a solução para não se rebelar a ponto de participar
da luta armada. “A solução natural é a curva, presente em tudo,
no raciocínio, no universo, na democracia e na vida”, filosofa Niemeyer,
que chegou a ser convocado algumas vezes ao Dops para prestar depoimento.
Em 1959, quando deu seu segundo depoimento, o presidente da República
Juscelino Kubitschek tentou evitar, telefonando para o general Kruel,
chefe da polícia, sob a alegação de que a presença do arquiteto
era fundamental em Brasília. Em vão. Dias depois, lá estava ele
para falar de seu envolvimento com os comunistas.
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Foto:Reprodução
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Niemeyer, Jean-Paul Sartre, James e Jorge Amado
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A opção pela arquitetura
veio quando ele se casou, aos 21 anos, com Annita Balbo, 86 anos.
Foi uma época em que teve de largar a boemia e as noitadas na companhia
do maestro Heitor Villa-Lobos na Lapa, centro do Rio, para se dedicar
a uma profissão. Como gostava de desenhar, entrou para a Escola
Nacional de Belas Artes, onde se formou em 1934. Logo procurou o
escritório de Lúcio Costa para estagiar. E foi lá que que Niemeyer
encontrou a solução para o projeto do Ministério da Educação, no
Rio, de autoria do arquiteto francês Le Corbusier, que não fora
aprovado. Inaugurado em 1936, no centro do Rio, o prédio virou um
marco na história da arquitetura contemporânea mundial. Sua genialidade,
então, começou a aparecer.
Foi o então ministro
da Educação, Gustavo Capanema, que o apresentou a Juscelino, que
sonhava com a Prefeitura de Belo Horizonte. Eleito, chamou o arquiteto
para projetar um cassino para o bairro da Pampulha, dando-lhe o
prazo de uma noite para concluir o trabalho. A obra cresceu e se
tornou o Complexo da Pampulha, que hoje abriga a igreja de São Francisco,
a Casa de Baile, o Iate Clube e o cassino, que se transformou em
museu.
Em 1947, Oscar
Niemeyer foi convidado pelo arquiteto norte-americano Wallace Harisson
para apresentar um projeto para a sede das Nações Unidas. Seu estudo
foi aprovado por unanimidade, mas o francês Le Corbusier o pressionou
delicadamente para ser o co-autor. Os dois fizeram pequenas modificações
e o projeto foi reapresentado. Anos depois, Le Corbusier, grato,
diria a Niemeyer: “Você é generoso”.
Niemeyer foi convocado
pelo presidente Juscelino, recém-eleito, para projetar os palácios
e monumentos da nova capital e Lúcio Costa ficou encarregado de
fazer o plano piloto. “A arquitetura é feita para trazer funcionalidade
para quem vai usar e beleza e impacto para quem apenas vai ver”,
explica, acrescentando que o princípio o norteou na construção de
Brasília. “Pobre não entra em palácio, então se diverte vendo algo
diferente”, acredita. Para elaborar a nova capital, o arquiteto
recebeu, como funcionário público, parcos 40 mil cruzeiros mensais.
É com saudade
que Niemeyer se recorda de suas viagens. Numa delas, em 1944, demorou
dez dias para chegar a Porto Alegre. Partira do Rio a bordo de um
Ford 30. Mas o gasogênio – os carros eram movidos a gás – enguiçou
várias vezes e o arquiteto teve que alugar um táxi em São Paulo
para chegar ao seu destino.
Foi em 1964, num
quarto de hotel em Lisboa, que ele soube pelo rádio que a ditadura
militar fora instaurada no Brasil. Seu escritório foi invadido e
vasculhado no Rio. Seus projetos, tais como o do aeroporto de Brasília,
começaram a ser rejeitados no Brasil. Mudou-se para Israel, onde
projetou a cidade vertical no deserto de Genev. Um decreto especial
de De Gaulle lhe deu o direito de trabalhar como arquiteto na França.
Em 1967, projetou a sede do Partido Comunista Francês. Niemeyer
só voltou a morar definitivamente no País no início dos anos 80,
com a abertura política.
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Foto:Reprodução
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Com o dirigente cubano Fidel Castro no ateliê do arquiteto,
encontro que foi acompanhado por Barbosa Lima Sobrinho
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Com muitos projetos
em andamento, ele chega diariamente a seu escritório, com vista
para o mar de Copacabana, às 9h e só volta para casa após as 21h.
“Gosto de me sentir útil”, explica. Um de seus últimos trabalhos
foi encomendado por Fidel Castro: um monumento contra o bloqueio
econômico a Cuba, que o general pretende erguer em frente à antiga
embaixada americana, em Havana. Computador em seu escritório serve
apenas como arquivo. Atualmente, está apaixonado pelos mistérios
do universo. Um amigo cientista tenta lhe explicar o cosmo uma vez
por semana. “Sempre vi o homem como um bicho terreno, um ser biológico,
genético. Hoje, acredito que possa ter vindo das estrelas, seria
melhor”, diz Niemeyer, pai de Anna Maria, que lhe deu cinco netos.

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