6 de março de 2000
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Por onde anda

Cacique Juruna longe do poder
O único índio que virou deputado vive doente
num casebre no Guará I, cidade-satélite de Brasília

André Barreto

Foto:Roberto Jaime
“Fui infeliz e vou morrer infeliz”, diz Juruna,
prostrado em seu quarto, onde passa a maior
parte do tempo deitado.

Triste, infeliz e esquecido. É assim que se sente hoje o ex-deputado federal Mário Juruna, único índio na história brasileira a assumir um mandato no Congresso Nacional, pelo PDT. Aos 60 anos, ele vive em um casebre no Guará I, cidade-satélite de Brasília. Ganha R$ 3 mil como secretário do partido. O dinheiro é utilizado para sustentar 15 pessoas, entre filhos e netos, que dividem o mesmo teto.

Mas Juruna, na prática, não exerce sua função. Ele tem apenas um rim funcionando e está condenado a uma cadeira de rodas por causa de uma cirurgia que extraiu parte do fêmur infeccionado. Passa a maior parte do tempo deitado na cama, onde exala seu descontentamento com o presidente Fernando Henrique Cardoso, ex-companheiro de tribuna. “Esse presidente é um cínico. Seria melhor que continuássemos no regime militar”, desabafa. Juruna foi eleito deputado federal e cumpriu mandato de 1983 a 1987.

Como parlamentar, criou a Comissão do Índio. Irreverente, chamava dinheiro de “lixo” e jamais conversava com uma autoridade sem a companhia de um gravador, para não correr o risco de ser chamado de mentiroso. Foi fundamental na eleição de Tancredo Neves, em 1985, ao denunciar a tentativa de compra de voto, feita por Calim Eid, tesoureiro de Paulo Maluf. Decepcionado, acha que seu trabalho em favor de seu povo foi em vão. “Já sofremos demais. Fui infeliz e vou morrer infeliz”, diz.

O primeiro contato que o xavante teve com um branco foi aos 17 anos. Queria aprender com o “tal povo civilizado” e foi estudar em uma missão religiosa. Não falava português, mas ainda assim pediu permissão para sair da escola e trabalhar na cidade. Quando retornou à aldeia, em 1964, foi recebido com a ira do padre que catequizava os índios. Chegou a ser expulso da tribo, mas continuou na luta.

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