6 de março de 2000
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Especial

Saúde a baixo preço

O infectologista Eugênio Scannavino Netto reduziu a mortalidade infantil de Santarém ao mesmo padrão de São Paulo, gastando R$ 40 por pessoa no ano, e foi eleito pela mídia internacional como um dos 21 pioneiros do século XXI

Fábio Bittencourt
de Santarém (PA)

Fotos: Pio Figueiroa
“Só tenho a metade do que preciso para melhorar a qualidade de vida da população ribeirinha”, diz o infectologista, premiado pela World Media

Quando “dotô Ogêno” chega, o tumulto é inevitável. Os 20 mil habitantes das 17 comunidades ribeirinhas de Santarém, no interior do Pará, se aglomeram e não há quem não queira cumprimentá-lo ou trocar uma palavrinha rápida com ele. Eugênio Scannavino Netto, 40 anos, é infectologista e levou 13 anos para alcançar tamanha popularidade num local que não tem rádio nem televisão – até porque a eletricidade é rara e gerada por óleo diesel ou energia solar. Nesse tempo, ele fez pela população o que a maioria dos políticos promete em época eleitoral. Reduziu pela metade a mortalidade infantil, que caiu de 47 crianças que morriam a cada 1.000 para 26 - número próximo ao de metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro. Acabou com a desnutrição, zerou a evasão escolar e organizou formas de trabalho comunitário. O impressionante é que fez isso com R$ 40 ao ano para cada um das comunidades. O reconhecimento do trabalho do médico atravessou fronteiras. No final do ano passado, Scannavino Netto ganhou o prêmio da World Media, uma organização formada por jornais do mundo inteiro, como um dos 21 pioneiros do século que se inicia. O médico foi notícia no The New York Times e em agências internacionais. “Os R$ 40 anuais, por pessoa, são metade do que precisamos para dar maior qualidade de vida à população”, diz.

Nas mãos de Scannavino Netto, o pouco dinheiro rende muito. Há 13 anos, ele criou o Projeto Saúde e Alegria, uma Organização Não-Governamental (ONG) que capta verbas oficiais e da iniciativa privada. Com os recursos, os mocorongos – cidadãos nascidos em Santarém – passaram a ter, em suas casas, acesso a água tratada com cloro, fundamental para reduzir os casos de disenteria, que provocava desidratação e elevava a mortalidade infantil. O Saúde e Alegria também é responsável por melhorias educacionais, que vão da implantação de escolas propriamente ditas ao lazer através do circo e de peças teatrais. “Não existem crianças sem estudar”, diz o médico, que ensinou às lideranças comunitárias como aproveitar melhor os recursos para educação das crianças. “Foi só depois de nos organizarmos que os políticos nos escutaram”, diz a professora Zulmira Tapajós Conceição, 43 anos.

Scannavino Netto também arrumou emprego para muita gente. Em Urucureá, uma das comunidades ribeirinhas, 25 mulheres passaram a produzir cestas e outros objetos de palha. Elas aumentaram a renda doméstica, que antes era sazonal. Hoje as vendas chegam a R$ 8 mil no semestre. Rosângela Tapajós, gerente de vendas, saiu do Brasil, há dois anos, e foi a Nova York, nos Estados Unidos, para participar de uma feira sobre a Amazônia. “Agora, meu sonho é ir para o Rio”, diz.

O médico foi notícia no The New York Times e em várias agências internacionais

Para dar conta de toda a população ribeirinha – algumas comunidades ficam em distâncias medidas por 20 horas de barco –, Scannavino Netto organizou grupos praticamente voluntários de trabalho, com 25 profissionais. “É difícil contratar gente especializada sem dinheiro”, diz. Há um mês, a enfermeira Francesca de Stefani, 24 anos, deixou o conforto de Lugano, na Suíça, para dormir no barco e tomar banho no rio. Ela soube do projeto através de uma prima que trabalhou na Amazônia e destacou a seriedade do médico. “Quero me especializar em saúde pública e o melhor exemplo no mundo hoje está aqui”, diz Francesca.

No início de fevereiro, cinco diretores do Banco Mundial (Bird), uma das entidades que fornecem recursos para a região, visitaram as comunidades. “É fascinante ver como vivem essas pessoas”, afirmou Nick Van Praag, diretor de relações externas de meio ambiente do Bird. Até quem parece não ter nada a ver com o assunto foi acompanhar os resultados do trabalho do médico. A atriz Giulia Gam e o apresentador de televisão Marcelo Tas já estiveram lá e conheceram o Projeto. O ator José de Abreu também. Mas ele nunca imaginou ser anônimo no país da novela.“Ninguém me reconheceu.”

O infectologista Scannavino Netto tinha acabado de receber o canudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1983, quando decidiu arrumar as malas e mergulhar no interior do Brasil. Fazia estágio na Fundação Oswaldo Cruz e, por conta do trabalho, viajou para fazer pesquisas na região Norte. Chegou a Santarém em 1984 e arrumou trabalho na Prefeitura. Acabou debruçando-se num projeto para atender os habitantes das comunidades ribeirinhas. Colocou o projeto debaixo do braço e saiu à caça de um patrocinador. Um ano depois, estava de volta à cidade, com financiamento do governo federal. A fonte secou no governo de Fernando Collor. “Tive de buscar recursos fora do Brasil”, diz Scannavino Netto. Além do calvário atrás de dinheiro para seus projetos, enfrentou a resistência que a população local tinha dos forasteiros vindos das metrópoles. Na comunidade de São Francisco, distante seis horas de barco de Santarém pelo rio Arapiuns, as pessoas o viam como uma espécie de espião que queria comprar a Amazônia para empresas internacionais. “Ele chegou dizendo que vinha de São Paulo para nos ajudar”, recorda o agricultor Manoel Edivaldo Santos Matos, 36 anos, uma das lideranças da comunidade. “Mas todos desconfiaram.” Scannavino Netto levou seis meses para convencer Edivaldo, por exemplo, a deixá-lo examinar sua família. “Hoje vemos que seu objetivo era outro”, diz o agricultor. Na cidade, suas ações repercutiram. As autoridades de saúde, desconfiadas, acusaram o médico de estar distribuindo veneno para os habitantes, quando na realidade se tratava apenas de cloro para tratar a água. Superado o primeiro boato, veio então a cisma de que a mandioca aconselhada pelo médico para ser consumida, rica em nutrientes, era alimentação de animais. “Diziam que distribuía comida de porco”, recorda.

“Em nossa área de atuação, já não existem mais crianças sem estudar”, diz Eugênio, sobre uma canoa, num igapó. “Mas continua difícil contratar gente especializada para nos ajudar”

Scannavino Netto aparenta estar preparado para participar de um show de Woodstock. Seus cabelos, sem corte, caem sobre os ombros. A barba está sempre por fazer. Veste bermuda e camiseta surradas. Calça chinelos ou tênis encardidos. “É o charme dele”, diz a professora Zulmira Tapajós, de Urucureá. Filho de um engenheiro do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), Scannavino Netto era um rapaz de classe média alta. Nasceu em Campinas (SP) e mudou-se para São Paulo com o pai, Caetano Scannavino, já falecido, a mãe, Glória Munaiar, 70, e os irmãos Lívia, 49, e Caetano Filho, 34, hoje braço direito e vice-coordenador no projeto. Scannavino Netto estudou no Colégio Santa Cruz e, aos 17 anos, entrou em Medicina.

O médico é casado com a designer paulista Débora Laruccia, 36. Os dois se conheceram em Santarém, há quatro anos, quando ela trabalhou como intérprete para visitantes estrangeiros. Ele tem uma filha, Adhara Gama Scannavino, 13, do primeiro casamento, com Márcia Gama, 35. Ambas moram no Rio de Janeiro. Scannavino Netto garante que vai ficar menos em Santarém. Quer levar seu projeto a outros cantos do País. De Santarém, leva consigo a lembrança de uma mocoronga que examinou em seus primeiros dias: “Dotô Ogêno, a saúde é a alegria do corpo. E a alegria é a saúde da alma.”

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