|
Especial
Saúde a baixo
preço
O
infectologista Eugênio Scannavino Netto reduziu a mortalidade infantil
de Santarém ao mesmo padrão de São Paulo, gastando R$ 40 por pessoa
no ano, e foi eleito pela mídia internacional como um dos 21 pioneiros
do século XXI
Fábio Bittencourt
de Santarém (PA)
|
Fotos: Pio Figueiroa
|
|
|
|
“Só tenho a metade do que preciso para melhorar a qualidade
de vida da população ribeirinha”, diz o infectologista, premiado
pela World Media
|
Quando “dotô
Ogêno” chega, o tumulto é inevitável. Os 20 mil habitantes das 17
comunidades ribeirinhas de Santarém, no interior do Pará, se aglomeram
e não há quem não queira cumprimentá-lo ou trocar uma palavrinha
rápida com ele. Eugênio Scannavino Netto, 40 anos, é infectologista
e levou 13 anos para alcançar tamanha popularidade num local que
não tem rádio nem televisão – até porque a eletricidade é rara e
gerada por óleo diesel ou energia solar. Nesse tempo, ele fez pela
população o que a maioria dos políticos promete em época eleitoral.
Reduziu pela metade a mortalidade infantil, que caiu de 47 crianças
que morriam a cada 1.000 para 26 - número próximo ao de metrópoles
como São Paulo e Rio de Janeiro. Acabou com a desnutrição, zerou
a evasão escolar e organizou formas de trabalho comunitário. O impressionante
é que fez isso com R$ 40 ao ano para cada um das comunidades. O
reconhecimento do trabalho do médico atravessou fronteiras. No final
do ano passado, Scannavino Netto ganhou o prêmio da World Media,
uma organização formada por jornais do mundo inteiro, como um dos
21 pioneiros do século que se inicia. O médico foi notícia no The
New York Times e em agências internacionais. “Os R$ 40 anuais, por
pessoa, são metade do que precisamos para dar maior qualidade de
vida à população”, diz.
Nas mãos de Scannavino
Netto, o pouco dinheiro rende muito. Há 13 anos, ele criou o Projeto
Saúde e Alegria, uma Organização Não-Governamental (ONG) que capta
verbas oficiais e da iniciativa privada. Com os recursos, os mocorongos
– cidadãos nascidos em Santarém – passaram a ter, em suas casas,
acesso a água tratada com cloro, fundamental para reduzir os casos
de disenteria, que provocava desidratação e elevava a mortalidade
infantil. O Saúde e Alegria também é responsável por melhorias educacionais,
que vão da implantação de escolas propriamente ditas ao lazer através
do circo e de peças teatrais. “Não existem crianças sem estudar”,
diz o médico, que ensinou às lideranças comunitárias como aproveitar
melhor os recursos para educação das crianças. “Foi só depois de
nos organizarmos que os políticos nos escutaram”, diz a professora
Zulmira Tapajós Conceição, 43 anos.
Scannavino Netto
também arrumou emprego para muita gente. Em Urucureá, uma das comunidades
ribeirinhas, 25 mulheres passaram a produzir cestas e outros objetos
de palha. Elas aumentaram a renda doméstica, que antes era sazonal.
Hoje as vendas chegam a R$ 8 mil no semestre. Rosângela Tapajós,
gerente de vendas, saiu do Brasil, há dois anos, e foi a Nova York,
nos Estados Unidos, para participar de uma feira sobre a Amazônia.
“Agora, meu sonho é ir para o Rio”, diz.
|
|
|
O médico foi notícia no The New York Times e em várias agências
internacionais
|
Para dar conta
de toda a população ribeirinha – algumas comunidades ficam em distâncias
medidas por 20 horas de barco –, Scannavino Netto organizou grupos
praticamente voluntários de trabalho, com 25 profissionais. “É difícil
contratar gente especializada sem dinheiro”, diz. Há um mês, a enfermeira
Francesca de Stefani, 24 anos, deixou o conforto de Lugano, na Suíça,
para dormir no barco e tomar banho no rio. Ela soube do projeto
através de uma prima que trabalhou na Amazônia e destacou a seriedade
do médico. “Quero me especializar em saúde pública e o melhor exemplo
no mundo hoje está aqui”, diz Francesca.
No início de fevereiro,
cinco diretores do Banco Mundial (Bird), uma das entidades que fornecem
recursos para a região, visitaram as comunidades. “É fascinante
ver como vivem essas pessoas”, afirmou Nick Van Praag, diretor de
relações externas de meio ambiente do Bird. Até quem parece não
ter nada a ver com o assunto foi acompanhar os resultados do trabalho
do médico. A atriz Giulia Gam e o apresentador de televisão Marcelo
Tas já estiveram lá e conheceram o Projeto. O ator José de Abreu
também. Mas ele nunca imaginou ser anônimo no país da novela.“Ninguém
me reconheceu.”
O infectologista
Scannavino Netto tinha acabado de receber o canudo da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, em 1983, quando decidiu arrumar as malas
e mergulhar no interior do Brasil. Fazia estágio na Fundação Oswaldo
Cruz e, por conta do trabalho, viajou para fazer pesquisas na região
Norte. Chegou a Santarém em 1984 e arrumou trabalho na Prefeitura.
Acabou debruçando-se num projeto para atender os habitantes das
comunidades ribeirinhas. Colocou o projeto debaixo do braço e saiu
à caça de um patrocinador. Um ano depois, estava de volta à cidade,
com financiamento do governo federal. A fonte secou no governo de
Fernando Collor. “Tive de buscar recursos fora do Brasil”, diz Scannavino
Netto. Além do calvário atrás de dinheiro para seus projetos, enfrentou
a resistência que a população local tinha dos forasteiros vindos
das metrópoles. Na comunidade de São Francisco, distante seis horas
de barco de Santarém pelo rio Arapiuns, as pessoas o viam como uma
espécie de espião que queria comprar a Amazônia para empresas internacionais.
“Ele chegou dizendo que vinha de São Paulo para nos ajudar”, recorda
o agricultor Manoel Edivaldo Santos Matos, 36 anos, uma das lideranças
da comunidade. “Mas todos desconfiaram.” Scannavino Netto levou
seis meses para convencer Edivaldo, por exemplo, a deixá-lo examinar
sua família. “Hoje vemos que seu objetivo era outro”, diz o agricultor.
Na cidade, suas ações repercutiram. As autoridades de saúde, desconfiadas,
acusaram o médico de estar distribuindo veneno para os habitantes,
quando na realidade se tratava apenas de cloro para tratar a água.
Superado o primeiro boato, veio então a cisma de que a mandioca
aconselhada pelo médico para ser consumida, rica em nutrientes,
era alimentação de animais. “Diziam que distribuía comida de porco”,
recorda.
|
|
|
“Em nossa área de atuação, já não existem mais crianças sem
estudar”, diz Eugênio, sobre uma canoa, num igapó. “Mas continua
difícil contratar gente especializada para nos ajudar”
|
Scannavino Netto
aparenta estar preparado para participar de um show de Woodstock.
Seus cabelos, sem corte, caem sobre os ombros. A barba está sempre
por fazer. Veste bermuda e camiseta surradas. Calça chinelos ou
tênis encardidos. “É o charme dele”, diz a professora Zulmira Tapajós,
de Urucureá. Filho de um engenheiro do Departamento de Estradas
de Rodagem (DER), Scannavino Netto era um rapaz de classe média
alta. Nasceu em Campinas (SP) e mudou-se para São Paulo com o pai,
Caetano Scannavino, já falecido, a mãe, Glória Munaiar, 70, e os
irmãos Lívia, 49, e Caetano Filho, 34, hoje braço direito e vice-coordenador
no projeto. Scannavino Netto estudou no Colégio Santa Cruz e, aos
17 anos, entrou em Medicina.
O médico é casado
com a designer paulista Débora Laruccia, 36. Os dois se conheceram
em Santarém, há quatro anos, quando ela trabalhou como intérprete
para visitantes estrangeiros. Ele tem uma filha, Adhara Gama Scannavino,
13, do primeiro casamento, com Márcia Gama, 35. Ambas moram no Rio
de Janeiro. Scannavino Netto garante que vai ficar menos em Santarém.
Quer levar seu projeto a outros cantos do País. De Santarém, leva
consigo a lembrança de uma mocoronga que examinou em seus primeiros
dias: “Dotô Ogêno, a saúde é a alegria do corpo. E a alegria é a
saúde da alma.”

|