6 de março de 2000
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Entrevista

“Na cama, com homem é mais fácil”
O cantor revira vida pelo avesso, diz que viu pela primeira vez dois homens se beijando no quartel da Aeronáutica e que tremeu de medo ao ter sua estréia homossexual aos 21 anos

Adriana Barsotti e Rosângela Honor

Fotos:Leandro Pimentel
Ney em sua cobertura no Rio: “Não namoro há dez anos, não transo há dois. Sem pegar, pôr na cama e dizer: ‘Você só sai daqui quando roncar trovoada’”

Faz 28 anos que ele surgiu, escandalizando platéias com a voz aguda, o corpo seminu e requebros sensuais. Aos 30 anos, depois de ter sido soldado da Aeronáutica, artesão e enfermeiro, Ney Matogrosso encontrou sua vocação. Por meio de uma amiga, foi indicado para ser o vocalista do então recém-criado Secos e Molhados, em 1973. Na ditadura, Ney desafiava o conservadorismo disseminado pelos militares, rebolando com suas plumas e paetês. Um de seus discos, Feitiço, de 1978, só pôde ser vendido lacrado. Na capa, ele aparecia nu. Mas o tempo provou que seu talento ia além da irreverência. Vestido com um comportado terno branco, também fez sucesso com shows românticos, como Seu Tipo e Pescador de Pérolas, na década de 80. Hoje, aos 58 anos, ele está lançando seu terceiro disco ao vivo – Vivo – e o 26.º de sua carreira. Segundo dos cinco filhos do militar Antônio Matogrosso Pereira, já falecido, e da dona-de-casa Beita de Souza Pereira, 76 anos, Ney recebeu Gente em seu apartamento, uma ampla cobertura localizada a duas quadras da Praia do Leblon, onde mora sozinho. De lá, pode contemplar a Lagoa Rodrigo de Freitas e a praia, que já não freqüenta há dez anos, quando avistou sujeira maior que a habitual na beira do mar. Com um ar maroto, quase juvenil, contou como foi sua primeira experiência homossexual, revelou que já quis ter filhos, que está há dez anos sem namorar e há dois sem manter relações sexuais. Transpareceu tristeza ao relembrar dos amigos que morreram de Aids e bom humor ao falar sobre a proximidade dos 60 anos. Condenou a exploração do corpo pelos grupos de pagode, como no hit da garrafa do É o Tchan. Isso mesmo: o transgressor Ney também se permite ficar chocado.

Você mora a duas quadras do mar. Freqüenta a praia?
Há dez anos não vou. Vemos essa maravilha e não dá para pisar na areia.

Você sempre gostou de animais. Cria algum atualmente?
Minha mãe mora no meu sítio e cria de tudo: pato, peru, ganso, cisne, pavão. Estou transformando o local numa reserva. Digo para os moradores de lá que eles não podem matar nem cobra, a não ser quando ameaçados. Já criei uma coral.

Como é sua alimentação?
Como pouco, mas de tudo. Não misturo arroz com batata, não tomo refrigerante regularmente. Adoro sorvete, mas escolho um dia na semana para tomar. Pesei 53 quilos dos 20 aos 40. Dos 40 aos 52, saí dos 53 para 63. Aí fiz uma dieta rigorosa e perdi quatro quilos. Hoje tenho 59 quilos. Quando passo disso, deixo de comer uma refeição.

E exercícios?
Faço há cinco anos. No verão, faço hidroginástica, todo dia, com um personal trainer, durante uma hora. No resto do ano, faço peso, alongamento e bicicleta. O peso máximo que peguei foi de cinco quilos. Não quero ser fortão, gosto de ser fininho.

Chegar aos 60 o preocupa?
Já me deixou mais pensativo do que agora. Hoje estou me sentindo muito bem. Venho de um ano muito positivo profissionalmente. Botei o nome do meu disco de Vivo. Me sinto vivo. Minha meta é chegar aos 80 bem.

A MPB está empobrecendo?
Está, mas não só a música. O consumo imediato gerou isso. Pagode é maravilhoso, mas tem 30 grupos e você já não sabe quem é quem. A questão é: vamos ganhar o que pudermos. As gravadoras não têm nenhum critério. Eu gravo o CD e eles só vão ver depois de pronto. Desde Pescador de pérolas, sou 100% responsável por tudo que apresentei.

E a cultura da bunda?
Uma coisa me chocou, me agrediu mesmo de eu ficar ofendido de ver.
Sabe aquela garrafinha?
Achava obsceno. Nunca tive pudores com o corpo. E pensar que ficavam escandalizados comigo...

O que ainda gostaria de fazer?
Ser ator de teatro. Mas é impossível conciliar música e teatro. Ainda não consigo abrir mão da música.

Ouve seus discos em casa?
Logo que gravo. Depois, não tenho vontade. Só anos depois. Mas canto em casa. Não era de cantar, mas me flagro cantarolando quando estou molhando as plantas. Estou feliz.

Uma vez seu pai ficou chocado ao vê-lo na tevê. Como foi?
Ele era militar e não queria filho artista. Quis estudar pintura aos 10 anos e ele disse: “Filho meu não vai ser artista”.

A relação melhorou quando você se alistou na Aeronáutica?
Eu me alistar foi o resultado de um conflito. Foi a maneira que encontrei de sair de casa. Ele não queria que eu saísse. Ele achava que iria me dobrar. Íamos acabar assim: ou ele me dava um tiro ou eu dava um tiro nele.

E sua passagem pelo quartel?
Era 1959 e eu tinha 17 anos. Era uma criança, um ingênuo, não sabia nada. Vim para o Rio para o quartel do Galeão. Foi onde vi o homossexualismo pela primeira vez, fora do estereótipo que tinha ouvido falar. Em Mato Grosso, havia o veado da cidade, que andava se requebrando todo, com a sobrancelha pintada. Isso para mim era homossexual. No quartel, numa madrugada, flagrei dois homens masculinos, gostosos, remadores, se beijando. O que me perturbou foi que existia alguma coisa maior do que aquele contato físico, que era amor envolvido na história. Isso me pirou.

Você teve alguma relação homossexual no quartel?
Não, absolutamente. Não tive coragem. Não faria só para matar uma curiosidade sexual.

E quando aconteceu?
Aos 21 anos. Até então só tinha me relacionado com mulheres. Ele era amigo da pessoa com quem eu morava em Brasília. Começou a ir em casa e um dia, de manhã, disse: “Ontem dormi aqui, passei no seu quarto e, só não fui dormir com você, porque estava muito gripado”. Aí eu disse: “Ah, você podia ter ido”. E ele disse: “Então, eu vou hoje”. Comecei a tremer e fiquei assim o dia inteiro.

Hoje você prefere os homens às mulheres?
Homem com homem, homem com mulher e mulher com mulher, é igual. Tudo de ruim e de maravilhoso que uma relação heterossexual tem, a homossexual tem. As coisas ruins são ciúmes, inseguranças, dúvidas. Me desagrada porque também fico exposto. Hoje, meu ideal é encontrar alguém que comece tudo além da paixão. Meu pavor é essa etapa. A paixão libera um lado que odeio em mim, perco o controle, tenho horror de sentir ciúme e sinto, tenho horror de ficar controlador e fico. Também tenho horror que sintam ciúme de mim e que queiram me controlar. Há dez anos não namoro ninguém.

Uma vez você disse que estava cansado de sexo. É verdade?
A minha vida era filtrada pelo sexo e hoje não é mais. Você pode ir se abrindo para outras coisas além do sexo. Como não tenho mais esse impulso me dominando, posso passar sem ele. Eu era muito disponível sexualmente. Falo isso sem nenhum remorso. Não sei te dizer com quantas pessoas transei na minha vida. Foram muitas. Mas eu nunca me levantei da cama com nojo de alguém com quem eu tivesse me deitado.

Foto:Leandro Pimentel
“Por causa da Aids, teve semana de eu ir três vezes ao cemitério enterrar pessoas que eu amava. Meu trabalho me manteve em pé. Fui poupado, não sei como”

Na cama, qual sua preferência?
É mais fácil com homem. Mas não tenho transado. Estou sem transar há uns dois anos. Sem pegar, botar na cama e dizer: “Agora, você só vai sair daqui quando o dia amanhecer, quando roncar trovoada”.

Mas você não sente falta de sexo?
Sofri um processo de amadurecimento. Primeiro, não podia mais. Se me mantivesse na disponibilidade sexual, era para correr riscos. Fui poupado, não sei como. Comecei a ver que havia nos seres humanos outras coisas que poderiam me atrair, que eu poderia desenvolver relacionamentos independentemente de sexo. Experimentei um amor platônico. Foi muito louco, muito excitante.

Perdeu muitos amigos de Aids?
Em 12 anos, perdi 13 pessoas que eram referências na minha vida havia 30 anos. Teve semana de eu ir três vezes ao cemitério enterrar pessoas que eu amava. Fiquei sem eira nem beira. O que me manteve de pé foi meu trabalho. Aí parei para refletir. A alternativa era usar camisinha. Nunca tive nenhum problema com camisinha, não me excita menos usar camisinha, muito pelo contrário. É ótimo alguém colocando a camisinha em você.

Qual a explicação para a Aids?
A minha tendência é achar que o vírus foi manipulado. Seres humanos capazes de fazer uma bomba atômica, jogar sobre uma cidade e matar milhares de seres humanos são capazes, sim, de pegar um vírus que já existia, envenenar esse vírus e experimentar em outros seres humanos. Não acredito em castigo. Deus para mim é um princípio amoroso, de coesão, e não de dispersão.

Você dorme bem?
Tive insônia desde criança. Aos 6 anos, todo mundo dormia e eu ficava andando pela casa. Tenho um pensamento acelerado. Estou viciado em calmantes. Já consegui parar de fumar. A próxima meta da minha vida é me livrar disso, mas não quero entrar nesse combate agora porque estou trabalhando muito e preciso do meu sono. Já fiquei três noites e dois dias sem dormir.

E para largar as drogas, foi muito difícil?
Nenhuma foi difícil. Nunca me senti viciado em drogas. Usava droga. Ela me servia, mas eu não estava a serviço dela. As minhas experiências com ácido lisérgico foram transformadoras, me deram uma percepção do mundo importantíssima. Agora, no momento em que percebi que ele não me oferecia nada além daquilo, falei: “Obrigado, LSD, você foi maravilhoso na minha vida, mas agora eu não quero mais”. Porra, gente, é uma mão de obra tomar uma coisa que te deixa 16 horas viajando!
Você acha que é mole?

Até quando usou drogas?
Até uns 40 anos. Maconha era muito bom. Que conversa é essa que neguinho fuma maconha e vai assaltar? Fumava maconha e ficava supersensível, criativo, artístico, sensível à natureza. Se vai assaltar é porque é assaltante, não porque fumou maconha. Minha experiência mais radical foi com o daime. Depois que tomei o daime, o resto foi bobagem. Hoje me interessa alcançar aquele grau de consciência estando careta.

Quantas vezes você se casou?
Dividindo o mesmo teto, uma vez. Acho um erro. Acho até que pode dividir o mesmo teto, mas não a mesma cama, nem os banheiros. Dois quartos é a solução. Um mínimo de privacidade é necessário.

Nunca quis ter filhos?
Quis até uns 40 anos. Depois comecei a achar que o mundo ficava tão horroroso que eu não queria ser responsável pela chegada de mais uma alma ao planeta Terra.

Sai à noite?
Pouco. Odeio boates, lugares para gays. Se há uma revolução a ser feita, é o convívio de todos os seres humanos independente de raça, religião e sexualidade.

Como gasta seu dinheiro?
Não sou muito consumista, mas tenho uma família enorme. Pago o colégio de todos os meus sobrinhos.

Há algo de que tenha se arrependido em sua carreira?
Algumas músicas eu não teria cantado. “Telma, Eu não Sou Gay”, por exemplo. Essa música fazia parte do disco dos Miquinhos Amestrados que, dentro do contexto do trabalho deles, era engraçada. Eu gravei a faixa para o disco deles. Quando fui gravar meu disco seguinte, que se chamava Pois É, recebi a seguinte chantagem da gravadora: “Se você não puser no seu disco, vamos tirar o disco dos Miquinhos Amestrados do mercado. Disse que tudo bem. Mas nunca assumi esta música. Não estava falando sério, absolutamente. Os gays ficaram revoltados, me cobrando. Dizia a eles: “Vocês ficaram loucos? Acham que quando eu canto ‘Homem com H’ estou me defendendo? Vocês não estão vendo que é uma brincadeira?”.

Acha esses grupos muito xiitas?
Azar deles. Acho que fui útil para abrir a mentalidade brasileira para uma diferença sexual. Ninguém pode dizer que eu não fui útil ao meu País nesse sentido. Isso eles não podem me tirar.

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