Ele não consegue dar um passo
sem ouvir um pedido de autógrafo, foto ou mesmo de
aperto de mão. Aos 52 anos, quase quinze longe dos
gramados brasileiros, Arthur Antunes Coimbra, o Zico, segue
idolatrado por senhores de cabeça branca, mulheres
leigas em futebol, crianças que aspiram a ser como
ele, sem nunca tê-lo visto jogar. É assim no
Rio, onde vive três meses por ano e mantém seu
centro de futebol (CFZ), e também no Japão,
nação que adotou após 20 anos de Flamengo
e 10 de Seleção Brasileira. Responsável
pela popularização do futebol no país
– jogou no Kashima Antlers por três anos e tornou-se
diretor técnico do clube – treina a Seleção
Japonesa há três anos. Casado há quase
30 com a primeira namorada, Sandra, 49, vê o caçula
dos três filhos, o meio-campista Thiago, de 22, sofrer
tentando seguir seus passos.
Como vê o status de celebridade
dado aos jogadores hoje?
Sou de uma época em que jogador não saía
em coluna social. Quando saía, era para ser sacaneado.
Jogador não era tão bem remunerado, não
tinha tanto destaque na mídia. O dinheiro abre portas
em diversas áreas: boates, grifes, carros, mulheres.
O jogador hoje é praticamente o que um socialite era.
Não vejo nada de mau, desde que não perca produtividade
em campo.
O frisson em volta de Ronaldo
atrapalha a carreira dele?
Pode atrapalhar. Ele estava de férias, podia fazer
o que bem entendesse. Com o começo da temporada na
Europa, terá de voltar a ser o profissional que o mundo
espera. Achei mal conduzido seu corte das eliminatórias.
Faltou conversa para não dar a impressão de
que foi punição por ter pedido liberação
da Copa das Confederações. Ronaldo não
é um profissional que mereça punição.
Ele é imprescindível
na Seleção?
É. Se tenho um Ronaldo na Seleção Japonesa,
posso afirmar que brigaria pela Copa do Mundo. Preciso de
um jogador assim, que tenha a constância de botar a
bola dentro do gol. Ele é o melhor do mundo. Quando
você precisa dele, ele comparece. É isso que
faz a diferença.
Aos 30 anos você dizia
que nunca seria técnico. O que mudou?
Ainda penso assim com relação a assumir um clube.
Minha vida como jogador foi desgastante. Quando vira técnico,
os compromissos aumentam. Mas o convite para dirigir a Seleção
Japonesa não deu para negar. Tenho uma grande ligação
com o Japão. Há duas estátuas com minha
imagem em Kashima.
Como é o Zico técnico?
Aberto e democrático. Isso assustou no começo.
Eles não estavam acostumados. No início das
eliminatórias, tive um problema com a Seleção
quando oito jogadores saíram à noite sem autorização.
Não convoquei nenhum deles para o jogo seguinte. Não
é beber e sair com mulheres que me aborrece. E sim,
terem saído sem autorização.
O Zico treinador é tão
bom quanto o jogador?
Como jogador, tive 25 anos de carreira. Como técnico,
só tenho três. O que me diferencia é o
trabalho de correção do atleta. Ensiná-lo
a chutar melhor, cabecear. Tem muito jogador que testa o treinador.
Quer saber se sabe fazer o que está mandando. Então,
você faz e o cara cala a boca. Isso impõe respeito
e é uma vantagem. Devido ao meu passado, eles me escutam
com mais atenção.
Qual a sensação
de ter classificado o Japão para a Copa
do Mundo?
De dever cumprido. Acima do compromisso profissional, encarava
como meta pessoal. Na Copa do Mundo, não me contentarei
em apenas participar. A Copa das Confederações
serviu para mostrar que podemos jogar de igual para igual
com qualquer seleção.
Como foi enfrentar o Brasil
na Copa das Confederações?
Estar do lado contrário, justamente em um dia decisivo,
foi o pior de tudo. Tive uma conversa com os jogadores antes
da partida. Expliquei a eles: “Vou cantar o Hino Brasileiro
e não quero que ninguém se surpreenda. Mas quando
acabar, quero ganhar do Brasil”.
E como foi cantar o hino?
Difícil. Quase chorei no hino do Brasil. Estava a ponto
de me emocionar quando cortaram o som. Foi a minha sorte.
Como ficaria o coração
numa final de Copa entre Brasil e Japão?
Não quero nem sonhar com isso! Foi muito sofrido!
Como está a relação
com Romário?
Não voltamos a nos falar. Há dois meses, venci
uma ação contra ele e está em avaliação
o valor da indenização. O que ele fez foi muito
sério, um desrespeito. (Romário mandou desenhar
uma caricatura de Zico entregando um rolo de papel higiênico
a Zagalo – que aparecia sentado num vaso sanitário
– na porta do banheiro de seu bar Café do Gol,
no Rio). Ele tem de pagar alto. Não construí
minha imagem para qualquer um ridicularizar.
Encontrou dificuldades no Japão?
Mudei o estilo de vida. Antes das 10h, não existe nada
aberto. O pão
do café da manhã tem de ser comprado na véspera.
Às 23h tudo pára. Não há trem,
o aeroporto fecha. À 1h da madrugada, há engarrafamento
de táxis.
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