Entrevista  
‘‘Fiz amizades na Rocinha. Meu melhor amigo era negro, e eu sofria na pele o preconceito. Quando íamos ao shopping, éramos barrados pelos seguranças’’
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Gabriel O Pensador
‘‘A música me salvou ’’
continuação

Suas canções agradam a adultos, crianças e adolescentes. Qual é a fórmula?
Não sei. Tinha 19 anos quando o primeiro disco saiu e as crianças começaram a cantar as letras. Eu não pretendia – e não pretendo – ser nenhum Mamonas Assassinas. Aquilo me pegou de surpresa. Não era para ser um disco para crianças. Fiquei em dúvida se as pessoas estavam, de fato, compreendendo o meu estilo. Até hoje as crianças opinam sobre meu trabalho.

Tom, seu filho mais velho, também opina?
Ele canta as letras, vê o DVD e fica imitando. Ainda é muito novo para entender as idéias, mas adora cantar. É supersensível para música, tem ritmo. O nome dele é Tom em homenagem a Tom Jobim.

Qual é a sua reação quando ele canta letras como “2,3,4,5,6,7,8 / tá na hora de molhar o biscoito...”?
Ah, normal! (risos) Ele canta uma pior, cujo refrão é “filha da puta, filha da puta, filha da puta”. Digo que ele não pode cantar isso para a mãe de nenhum amiguinho (risos). Eu e a Ana educamos o Tom muito bem. Falo bastante palavrão, mas raramente ofendo alguém. É esse respeito ao próximo que tentamos passar para ele.

Você pensa em publicar outro livro, seguir uma carreira literária?
Publico ainda este ano um livro infantil pela Cosac e Naif. Já está escrito e ilustrado. É uma historinha em forma de poesia infantil. Foi feito com emoção, capricho e cuidado. Também tenho vários poemas prontos para publicar outro livro para adultos. Mas será depois do lançamento infantil, possivelmente no ano que vem.

Que tipo de pai você é?
Sou carinhoso. Gosto de ensinar e educar. Tom gosta de aprender e eu tento aproveitar os momentos de brincadeira para ensinar. Ele já sabe as letras do alfabeto, aprendeu algumas coisas de música. Eu incentivo nas coisas que ele demonstra interesse.

Você foi flagrado roubando uma caixa de giz quando era criança. Se isso acontecesse com seu filho, o que você faria?
Faria o que meu pai fez. Seria rígido. Foi bom ter feito besteira para ver a reação do meu pai e aprender com ela. A imagem do pai envergonhado tem um impacto muito forte na criança. Eu não passaria a mão na cabeça do Tom. Seria bastante severo.

Seus pais se separaram quando você tinha 6 meses. Você está casado há 9 anos e tem dois filhos. Qual é a importância da família para você?
Enorme. Dá o maior prazer ver os filhos crescendo junto da gente. Gosto de poder educá-los junto com a Aninha. Sou romântico, acredito no amor para sempre. Minha história de vida foi diferente, cresci com pais separados. Para piorar, tinha muito ciúme dos padrastos.

Ciúme que levou você a fazer psicanálise com 12 anos de idade.
Não chegou a ser uma psicanálise no sentido estrito da palavra porque a gente mais brincava do que conversava. Mas a psicanalista foi uma pessoa fundamental para me manter calmo em um momento de confusão total. Era muito nervoso e o tratamento ajudou.

Como você lida com a vida doméstica?
Sou péssimo marido nesse sentido. Sobra muito para a Aninha. Sou desorganizado – e ela fica estressada de vez em quando, mas a gente se entende bem. Ela fica irritada com toda a razão. Eu não estou reclamando (risos).

Você se acha bonito?
Não... mas também não me acho feio... (gargalhadas). Estou na média. Nunca fui vaidoso. Teve uma época em que fui mais relaxadão. Comecei a usar barba por preguiça. Acho legal quando a Aninha cuida de mim, me dá uma roupinha bonitinha.

No livro Diário Noturno, a pergunta “quem sou eu ?” sempre foi uma das mais fatais da sua vida. Você já descobriu quem é você?
Estou descobrindo sempre. Quanto mais me conheço, mais dúvida tenho. A curiosidade aumenta e os dilemas também. É uma busca que não termina nunca. Eu sigo com a mesma pergunta: quem sou eu?
Não sei.

Se pudesse ter três desejos realizados, quais seriam?
Pô... Ah, não... Tem que pensar muito (risos).

Mas você não é “O Pensador”!
(Faz muito silêncio, afaga Marvin, o cachorro Golden Retriever, bebe água) Ah, não sei... Não quero falar besteira (risos).