Entrevista  
“Falo bastante palavrão, mas raramente ofendo alguém. É esse respeito ao próximo que tentamos passar para ele”, diz Gabriel sobre Tom, seu primogênito, de três anos
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Gabriel O Pensador
‘‘A música me salvou’’’
Sucesso com novo CD, o rapper diz ter encontrado na carreira a fórmula para escapar da rebeldia, irá lançar um livro infantil e conta como educa os filhos
texto: Mariana Kalil
fotos: alexandre sant’anna

Quatro anos depois de lançar seu último disco, Gabriel O Pensador está de volta. O Cavaleiro Andante, sexto álbum do cantor, já é um dos mais tocados nas rádios de todo o País. Os criativos refrões do rapper ecoam nas vozes de crianças, jovens e adultos. No novo trabalho, ele fala de injustiças, amor e vida, utilizando batidas de funk e beats eletrônicos. “Esse disco foi diferente dos outros porque trabalhei a maioria das letras no improviso”, conta ele, acomodado no sofá de sua espaçosa casa pendurada em um dos morros de São Conrado, no Rio. Aos 31 anos, casado há 9 anos com Ana Lima e pai de Tom, de 3 anos, e Davi, de 3 meses, Gabriel recebeu Gente, de pés descalços, no entardecer de uma sexta-feira para revelar muito além de um raro talento musical.

Seu CD inclui Carlos Drummond de Andrade, Legião Urbana, Vinicius de Moraes e Tim Maia. Por que essa escolha?
A idéia de homenagear a canção “Pais e Filhos”, do Legião Urbana, já estava no projeto. Os outros surgiram durante o processo de composição, como “Bossa 9” (construída a partir de “Garota de Ipanema”, sobre o desencanto de uma geração e a transformação do Rio de Janeiro). Eu estava sozinho no estúdio, em Nova York, de madrugada, ouvindo os grooves de base quando pintou a idéia de bater um papo com Tom e Vinicius. Assim surgiu a música.

A inspiração costuma vir de madrugada?
Rendo muito de madrugada. Com os versos do Drummond aconteceu algo semelhante. Não sabia que tema ia sair daquela batida. Falei sobre uma pedra, a pedra virou diamante... É assim que crio. Não tem nada
de mirabolante.

Em que momento as idéias vêm mais facilmente?
É comum eu acordar de manhã com alguma idéia que trago do sonho, seja um tema ou uma rima. Há um lado misterioso no ato de compor que acho bacana.

Você diz que o fato de ser O Pensador tem tudo a ver com seu jeito de parar e ficar viajando. Em quê?
Pô, em tudo. Ainda mais quando tenho insônia, o que é muito freqüente. Mas não penso só sobre coisas importantes. Sou meio maluco, ansioso. As idéias vêm na hora errada, fico querendo anotar. Costumo viajar nas coisas da vida. Não sei dizer exatamente em quê. Acho que em tudo.

Você nasceu na elite, mas boa parte de suas canções só encontram paralelo em músicos oriundos de favelas e minorias. De onde vem essa identificação?
Eu tinha 12 anos quando me mudei com minha mãe (a jornalista Belisa Ribeiro) para São Conrado. Com o lance da praia e do surfe, fiz grandes amizades na Rocinha. Meu melhor amigo era negro, e eu sofria na pele o preconceito. Quando íamos ao shopping, éramos barrados pelos seguranças. Situações como essa proporcionaram uma preocupação social que acabou refletindo na carreira.

Sua mãe não se preocupava com você na Rocinha?
Minha mãe era liberal. Me deixava livre para pegar onda, andar de skate e bicicleta com meus amigos. Eles freqüentavam minha casa. Existe o preconceito da favela, da droga, mas ela via que meus amigos eram uma galera do bem, que gostava de esporte. Confiava neles.

Você não teve a fase adolescente rebelde?
Fiquei rebelde quando me mudei, aos 15 anos, para a Barra da Tijuca. Não gostava daquele estilo de vida de playboy, das festinhas de marombeiros, das brigas de um condomínio contra o outro, da porrada gratuita. Gostava da Rocinha, onde a gente se divertia de um jeito mais moleque. Minha revolta com a Barra me fez um pichador de muros em potencial. Até na delegacia fui parar.

Foi nessa época que você escreveu “Lôrabúrra”?
Foi uma das minhas primeiras canções compostas na Barra da Tijuca. O lado bom de ter morado lá é que comecei a me introduzir mais no universo musical, conheci outros rappers. Passei a levar a música a sério. A música me salvou (risos).