Saúde  
Os perigos do salto alto
Aprenda a dosar o uso dos sapatos e sandálias de salto para evitar problemas crônicos nos pés, nos joelhos e na coluna
André Pedrinelli*
Murillo Constantino
Pedrinelli: compressão dos dedos pode causar lesões

Não é de hoje que os saltos estão na moda. Na corte de Luís XIV, marco do absolutismo francês, o charme era calçar chamativos sapatos com saltos vermelhos. Por muito tempo, os calçados com salto foram privilégio da nobreza, e importante marca de status. O tempo passou, o calçado se sofisticou, ganhou novos modelos e os saltos foram ganhando outra função: sensualidade. Pode-se dizer que o apogeu veio nos anos 50, quando Roger Vivian desenhou o salto agulha para Christian Dior. O resultado: bumbum empinado e seios para frente. Elegância e sensualidade combinadas.

Infelizmente, muitas vezes o uso freqüente do salto traz alguns problemas. Nem toda mulher que usa salto alto, porém, os terá. Mas muitas poderão sofrer dores nos pés, tendinites, joanetes e dores na região lombar. Não se trata de condenar ou defender o uso do salto alto. Ele é uma realidade dos nossos dias, um fator estético. A mulher se sente mais bonita quando usa salto alto numa festa. E muitas necessitam do seu uso por causa
do trabalho.

Cada um dos pés possui 28 ossos, que formam várias articulações sustentadas por centenas de ligamentos e dezenas de músculos. Se a pessoa está descalça, o peso do corpo é distribuído por toda essa estrutura. Mas se calça sapatos com saltos, ela coloca praticamente todo o peso no antepé, nome dado à parte da frente do pé e aos dedos. Quanto mais alto o salto, maior o peso na região. Ao caminhar, aumenta ainda mais a pressão. Ao correr na ponta dos pés então, estas forças são multiplicadas várias vezes. A pressão é imensa.

Daí, surgirem dores nos pés ou doenças como o neuroma de Morton, inflamação dos nervos da planta do pé. A reação inflamatória é pior no sapato de bico fino. A compressão dos dedos favorece ainda mais o surgimento de problemas. Exemplo típico é o joanete, desvio angular do hállux (dedão), que, de tão comprimido, desvia sobre os outros.

Se por um lado a pressão é grande na ponta do pé, falta a mobilidade adequada da parte de trás da perna. Com o calcanhar nas alturas, o tendão de Aquiles fica encurtado. Habituado com a retração, pode surgir a tendinite. Os principais sintomas básicos são a dor e a dificuldade para andar descalça.

Os problemas não param nos pés. Podem comprometer até os joelhos que, por causa do salto,
são flexionados o tempo todo. Um caso habitual é a condromalácia patelar, dor nos joelhos causada
pelo desgaste articular provocado pela posição. Muitas vezes, os problemas também alcançam a
região lombar.

Ao alterar o centro da gravidade corporal, o salto também aumenta a lordose. O mesmo efeito que faz com que o salto empine o bumbum pode tornar-se gatilho de crises de problemas na coluna, caso extremo com o aparecimento das hérnias de disco.

Mas, como já disse acima, não é o caso de abandonar os saltos. Não se pode mudar uma sociedade. Mas é possível modificar o uso. Nos Estados Unidos, por exemplo, é comum as mulheres irem ao trabalho de tênis e calçar os saltos só no escritório. Aqui no Brasil, é comum observar que, nas festas, as jovens simplesmente tiram os sapatos de salto e se divertem.

* André Pedrinelli é cirurgião ortopedista do Hospital Santa Catarina, em São Paulo, e especialista em medicina esportiva

Pílulas
 

» Quem não pode ficar sem usar sapatos de salto deve optar pelos modelos com saltos mais largos, que distribuem melhor o peso e estabilizam o tornozelo. Bico quadrado também é o mais recomendado para evitar deformidades dos dedos

» Os sapatos plataforma, com a mesma altura do calcanhar à ponta, não pressionam excessivamente o antepé. Mas a chance de torcer o tornozelo é maior

» Se puder, deixe a sandália e opte pelo sapato. Assim, o calcanhar estará mais seguro. O reforço lateral proporcionado pelas botas é ainda mais eficiente

» Evite saltos muito altos no dia-a-dia. Quanto menor o salto, melhor para a saúde