| Foi-se o tempo em que Gerald Thomas
fazia muito barulho por nada. Aos 50 anos, o mais polêmico
nome do teatro brasileiro se obrigou a ser mais cauteloso.
O espetáculo Um Circo de Rins e Fígados,
em cartaz em São Paulo e estrelado por Marco Nanini,
mostra um Gerald divertido sem deixar de ser crítico.
Os últimos anos não foram fáceis para
ele. Uma depressão causada por imprevistos profissionais
e pelo processo de “ato obsceno” que respondeu
depois de baixar as calças no palco na estréia
da ópera Tristão e Isolda no Rio, em
2003, levou suas energias. O homem que viveu relacionamentos
com Daniela Thomas, Bete Coelho, Fernanda Torres, Giulia Gam
e Camila Morgado, todas suas colegas de trabalho, está
casado há quatro anos com a atriz e bailarina Fabiana
Guglielmetti, do elenco de Um Circo de Rins e Fígados.
Como surgiu a parceria com Marco
Nanini?
Nosso encontro foi meio assustador, em uma hora delicada.
Em 2002, estava com uma peça em Nova York que precisou
sair de cartaz. Briguei com meus agentes em Londres, e a turnê
foi cancelada. Entrei em uma depressão profunda. Fiquei
muito mal. Quando comecei a me recuperar, fiz uma coisa que
nunca tinha tido coragem. Liguei para um ator que admiro,
o Nanini. Em 10 dias, o texto estava escrito.
Nessa época, ficou sem
trabalho?
Não. Tinha contrato assinado para montar óperas
na Alemanha. Estava enojado de tudo o que meu país,
digo, os Estados Unidos, anda fazendo com o mundo. Somos bombardeados
com notícias falsas, toda hora fala-se de um atentado.
A área onde moro é isolada e aparecem aqueles
caras vestidos como monstrinhos da Nasa com 300 equipamentos
e nada acontece. Tudo não passa de uma grande encenação
para passar uma falsa sensação de segurança.
Quase quatro anos depois do
11 de Setembro, esse pânico
não passou?
Essa onda de terror piorou com a reeleição desse
George W. Bush. Para fugir do clima, fui para Hamburgo dirigir
um complexo de teatros, mas briguei com a minha superiora.
Peguei uma mochila e passei um tempo em Londres, de onde estava
afastado havia 28 anos. Aluguei um carro e percorri, aos prantos,
todas as regiões onde vivi na adolescência. Estava
no fundo do poço. Até que me chamaram para reassumir
o Teatro La MaMa e voltei para Nova York, em janeiro de 2004.
Isso me deu gás.
Estava desencantado com o Brasil?
A polêmica da bunda em Tristão e Isolda,
em 2003, me abalou muito. Gastei um dinheiro absurdo com advogados,
idas e vindas de Londres para aparecer 15 minutos diante de
um juiz. Esse absurdo custou R$ 340 mil aos cofres públicos.
E tudo porque mostrei a bunda num teatro da cidade onde o
cartão-postal é a bunda. Um ano depois fui inocentado
por causa do “ato obsceno”.
O impulso não valeu a
pena?
Estava pressionado. Tive que fazer o espetáculo cheio
de restrições porque nada era admitido no palco
do Teatro Municipal da Rosinha. Sou muito calmo, mas as três
primeiras filas não só vaiavam como gritavam
coisas em espanhol, português e alemão do tipo
“seu judeuzinho, volta para o campo de concentração!”.
Parecia coisa ensaiada. Foi um ano de dores de cabeça,
mas não me arrependo de nada. Faria tudo de novo.
Está escrevendo uma biografia?
Sai em maio do ano que vem. É uma
biografia em que conto tudo, tudo, tudo, tudo. São
minhas histórias e deve ter polêmica. Afinal,
na vida de quem não tem polêmicas?
Aos 50 anos, você toma
mais cuidados com a saúde?
Minha vida é caótica. Não consigo dormir.
Eu me encho de remédio e
dá efeito contrário. Quando me vejo assistindo
a CNN a madrugada inteira e a mesma notícia repetidas
vezes, penso que há algo de errado comigo. Parei de
fumar há oito meses. Ainda estou contando os dias sem
cigarro.
A idade mexeu com você?
Bateu muito forte. Sempre achei que não fosse sentir
nada, mas mexeu. Ter 50 anos é uma loucura. Nas matérias,
costumam dizer que sou o “enfant terrible” do
teatro. Qualquer dia vou ser o “grand-père terrible”.
Queria uma maneira mais engraçada de conduzir a vida,
e está difícil. Sinto a idéia do suicídio
me rondando a cada dia.
Você pensa em se matar?
Para não conhecer a decadência,
a velhice?
Cada vez mais (silêncio). Isso não passava pela
minha cabeça antes. Seria uma forma de acabar a vida
em um momento de auge, longe da decadência física,
profissional. Eu ando exausto da vida, sensível demais
com tantas injustiças sociais. Antigamente, eu passava
por
um garoto num sinal de trânsito e lamentava, mas ok.
Hoje, me faz muito mal.
Votou no Lula?
Não voto no Brasil. Apostei muito no Lula, mas vejo
que fui ufanista. É puro paternalismo. O governo Lula
é realmente uma extensão de Fernando Henrique
Cardoso. O Rio de Janeiro é aquela guerra civil, o
nosso Iraque. A corrupção está por todo
o lado. E o brasileiro não quer viver sem corrupção
porque ele também vive dela.
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