Entrevista  
“Esse Jayme Monjardim deveria ter nascido judeu e ter morrido em um campo de concentração pelas mãos do Hitler. Mas ele já deve ter pago muitos dos pecados na infância. O problema é que agora ele desconta no público fazendo esses trabalhos horríveis”,
diz Thomas
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Gerald Thomas
‘‘Eu ando exausto da vida’’
O polêmico diretor de teatro conta que sofreu de depressão, pensa em suicídio e dispara sua metalhadora verbal contra Jayme Monjardim por causa do filme Olga
texto: Dirceu Alves Jr.
fotos: claudio gatti

Foi-se o tempo em que Gerald Thomas fazia muito barulho por nada. Aos 50 anos, o mais polêmico nome do teatro brasileiro se obrigou a ser mais cauteloso. O espetáculo Um Circo de Rins e Fígados, em cartaz em São Paulo e estrelado por Marco Nanini, mostra um Gerald divertido sem deixar de ser crítico. Os últimos anos não foram fáceis para ele. Uma depressão causada por imprevistos profissionais e pelo processo de “ato obsceno” que respondeu depois de baixar as calças no palco na estréia da ópera Tristão e Isolda no Rio, em 2003, levou suas energias. O homem que viveu relacionamentos com Daniela Thomas, Bete Coelho, Fernanda Torres, Giulia Gam e Camila Morgado, todas suas colegas de trabalho, está casado há quatro anos com a atriz e bailarina Fabiana Guglielmetti, do elenco de Um Circo de Rins e Fígados.

Como surgiu a parceria com Marco Nanini?
Nosso encontro foi meio assustador, em uma hora delicada. Em 2002, estava com uma peça em Nova York que precisou sair de cartaz. Briguei com meus agentes em Londres, e a turnê foi cancelada. Entrei em uma depressão profunda. Fiquei muito mal. Quando comecei a me recuperar, fiz uma coisa que nunca tinha tido coragem. Liguei para um ator que admiro, o Nanini. Em 10 dias, o texto estava escrito.

Nessa época, ficou sem trabalho?
Não. Tinha contrato assinado para montar óperas na Alemanha. Estava enojado de tudo o que meu país, digo, os Estados Unidos, anda fazendo com o mundo. Somos bombardeados com notícias falsas, toda hora fala-se de um atentado. A área onde moro é isolada e aparecem aqueles caras vestidos como monstrinhos da Nasa com 300 equipamentos e nada acontece. Tudo não passa de uma grande encenação para passar uma falsa sensação de segurança.

Quase quatro anos depois do 11 de Setembro, esse pânico
não passou?

Essa onda de terror piorou com a reeleição desse George W. Bush. Para fugir do clima, fui para Hamburgo dirigir um complexo de teatros, mas briguei com a minha superiora. Peguei uma mochila e passei um tempo em Londres, de onde estava afastado havia 28 anos. Aluguei um carro e percorri, aos prantos, todas as regiões onde vivi na adolescência. Estava no fundo do poço. Até que me chamaram para reassumir o Teatro La MaMa e voltei para Nova York, em janeiro de 2004. Isso me deu gás.

Estava desencantado com o Brasil?
A polêmica da bunda em Tristão e Isolda, em 2003, me abalou muito. Gastei um dinheiro absurdo com advogados, idas e vindas de Londres para aparecer 15 minutos diante de um juiz. Esse absurdo custou R$ 340 mil aos cofres públicos. E tudo porque mostrei a bunda num teatro da cidade onde o cartão-postal é a bunda. Um ano depois fui inocentado por causa do “ato obsceno”.

O impulso não valeu a pena?
Estava pressionado. Tive que fazer o espetáculo cheio de restrições porque nada era admitido no palco do Teatro Municipal da Rosinha. Sou muito calmo, mas as três primeiras filas não só vaiavam como gritavam coisas em espanhol, português e alemão do tipo “seu judeuzinho, volta para o campo de concentração!”. Parecia coisa ensaiada. Foi um ano de dores de cabeça, mas não me arrependo de nada. Faria tudo de novo.

Está escrevendo uma biografia?
Sai em maio do ano que vem. É uma biografia em que conto tudo, tudo, tudo, tudo. São minhas histórias e deve ter polêmica. Afinal, na vida de quem não tem polêmicas?

Aos 50 anos, você toma mais cuidados com a saúde?
Minha vida é caótica. Não consigo dormir. Eu me encho de remédio e
dá efeito contrário. Quando me vejo assistindo a CNN a madrugada inteira e a mesma notícia repetidas vezes, penso que há algo de errado comigo. Parei de fumar há oito meses. Ainda estou contando os dias sem cigarro.

A idade mexeu com você?
Bateu muito forte. Sempre achei que não fosse sentir nada, mas mexeu. Ter 50 anos é uma loucura. Nas matérias, costumam dizer que sou o “enfant terrible” do teatro. Qualquer dia vou ser o “grand-père terrible”. Queria uma maneira mais engraçada de conduzir a vida, e está difícil. Sinto a idéia do suicídio me rondando a cada dia.

Você pensa em se matar? Para não conhecer a decadência,
a velhice?

Cada vez mais (silêncio). Isso não passava pela minha cabeça antes. Seria uma forma de acabar a vida em um momento de auge, longe da decadência física, profissional. Eu ando exausto da vida, sensível demais com tantas injustiças sociais. Antigamente, eu passava por
um garoto num sinal de trânsito e lamentava, mas ok. Hoje, me faz muito mal.

Votou no Lula?
Não voto no Brasil. Apostei muito no Lula, mas vejo que fui ufanista. É puro paternalismo. O governo Lula é realmente uma extensão de Fernando Henrique Cardoso. O Rio de Janeiro é aquela guerra civil, o nosso Iraque. A corrupção está por todo o lado. E o brasileiro não quer viver sem corrupção porque ele também vive dela.