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No Rio para a 12ª Bienal do Livro, Lolita Pille provou todos os tipos de caipirinha e visitou a Rocinha: “Os moradores parecem mais felizes do que eu”
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Literatura
Pobre menina rica

Destaque da literatura francesa, a escritora Lolita Pille, de 22 anos, é consumista e não dorme antes das 7h da manhã, como sua personagem Hell
Mariana Kalil
foto: Leandro Pimentel
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A beira da piscina do Hotel Sofitel, de frente para o mar de Copacabana, Lolita Pille exibe um ar blasé de quem ainda não acordou da viagem que a trouxe de Paris para o Rio de Janeiro como convidada da 12ª Bienal do Livro. Refugia-se do calor do meio-dia embaixo do guarda-sol, onde faz a primeira refeição: duas xícaras de café preto e um maço de cigarros. O estouro de vendas de Hell – Paris-75016, o primeiro romance da escritora de 22 anos, ocupou de imediato a lista dos best-sellers da França. Com o sucesso traduzido em seis idiomas, Lolita abandonou a faculdade de Direito e se tornou uma estrela ascendente da literatura francesa. Logo escreveu o segundo livro, Bubble Gum, sobre o desejo doentio das pessoas de se tornarem celebridades. Um terceiro sobre ficção científica já está sendo embalado. Mas ela adianta apenas que os personagens são pedófilos. “Desculpe, mas não vou contar mais nada”, esquiva-se. “Você tem isqueiro?”, pergunta. E acende um cigarro.

Hell se funde com a biografia da própria autora. Foi escrito quando Lolita tinha 18 anos, a mesma idade da personagem. É um retrato do cotidiano dos jovens da alta burguesia de Paris, movido a sexo, drogas fartas e desperdício de dinheiro. “A única coisa que mudou na minha vida desde então são as drogas e os bares aonde vou”, esclarece. A personagem do livro faz compras nas lojas mais caras do mundo, passa as noites nas boates da moda e mora no 16ème, bairro de Paris que faz fronteira com a avenida Champs Elisées. Como Hell, Lolita não se levanta antes das 16h, freqüenta bares todos os dias e dorme depois das 7h da manhã. “Mas sou de classe média”, esclarece. O que não a impediu de comprar um vestido de R$ 2.000 para participar de uma das festas da Bienal. “Compro muito”, admite. “Adoro Chloé.”

Levou a bolsa da grife para passear na Rocinha. Encantou-se com os moradores. “Parecem mais felizes do que eu”, comentou. “Sua vida é triste?”, alguém quis saber. “Meus pais não me contrariam e não tenho patrão. Tudo que faço é escrever e beber. Acho que sou feliz.” O tom corrosivo e franco com que reflete sobre a vida é o mesmo utilizado para descrever a personagem Hell: “Eu sou uma putinha. Daquelas mais insuportáveis, da pior espécie; me visto melhor que sua mulher, ou sua mãe. Meu credo: seja bela e consumista”, avisa, no primeiro parágrafo, e continua: “... sou francesa e parisiense e estou me lixando para o resto; pertenço a uma única comunidade, a mui cosmopolita e controvertida tribo Gucci Prada – a grife é
meu distintivo”.

À beira da piscina do Sofitel, ela se surpreende. “O que tem de chocante?”, pergunta. “Estamos no século 21, as pessoas têm relações sexuais fora do casamento, a droga está democratizada. Falo de coisas que existem”, explica. E pede: “Empresta o isqueiro?”. Filha de um arquiteto e de uma contadora, até sua emancipação como escritora, morava com os pais e com a irmã de 18 anos. Hoje, vive sozinha em um apartamento no centro de Paris. Quando acorda, a primeira providência é tomar um drinque e sair para vasculhar as butiques. No Rio, quis provar todas as variantes da caipirinha. Preferiu a caipiroska, com vodca. “Mas a de Paris é melhor”, fez questão de ressalvar – antes de pedir pela terceira vez o isqueiro emprestado.